A falácia do mundo justo provavelmente está construída na mente humana. Não importa
quão liberal ou conservador você seja, alguma noção dela entra na sua reação emocional
quando ouve sobre o sofrimento dos outros. Em um estudo publicado em 2010, de Robert
Thornberg e Sven Knutsen, da Universidade Linkoping, na Suécia, os pesquisadores pediram
que adolescentes explicassem o que causa o bullying na escola. Enquanto a maioria dos
estudantes disseram que os bullies eram loucos por poder e cruéis, 42% culparam a vítima
por ser um alvo fácil. Pergunte a si mesmo: quando você viu pessoas acossando outras na
escola, pensou que as vítimas deveriam se defender? Achou que aqueles que estavam sendo
molestados e provocados deveriam aprender a se vestir, como agir de forma mais confiante,
como esconder sua nerdice? Em filmes sobre bullies, o personagem principal sempre
precisa aprender a se defender e lutar. Os bullies só aprendem quando a vítima assume sua
responsabilidade. A pesquisa diz que ao mesmo tempo em que você sabe que os bullies são
os caras ruins, aceita que isso não vai mudar. O mundo está cheio de caras maus. As vítimas,
no entanto, têm o poder de encerrar seu próprio tormento. No mesmo estudo, 21% dos
estudantes culpavam a si mesmos – a audiência. Menos ainda disseram que a culpa era da
sociedade e da natureza humana. O mundo, a maioria pensava, era justo e honesto, só as
pessoas nele – vítimas e bullies – deveriam ser culpadas quando coisas ruins acontecessem.
Você ouviu que tudo o que vai, volta, ou talvez tenha visto uma pessoa receber o que
merece e pensou: “Esse é o seu carma”. São as sombras da falácia do mundo justo. É uma
droga pensar que o mundo não é justo. Um mundo com o certo de um lado da escala e o mal
do outro – que parece fazer sentido. Você quer acreditar que as pessoas que trabalham duro
e se sacrificam chegam na frente, e que aqueles que são preguiçosos e vigaristas, não. Isso, é
claro, nem sempre é verdade. Geralmente, o sucesso é bastante influenciado pelo momento
em que você nasce, onde cresce, o status socioeconômico da sua família e o acaso. Todo
trabalho duro no mundo não consegue mudar esses fatores iniciais. Aceitar isso não significa
que os que nasceram pobres deveriam desistir. Afinal, não fazer nada garante não ter
resultados. Em um mundo justo, essa seria a única regra, não importa quais seriam as
condições iniciais da sua luta. O mundo real é mais complicado. As pessoas podem e
realmente escapam, mas isso não significa que aqueles que não conseguiram não estão
tentando evitar ao máximo as más situações. Se olhar os excluídos e se questionar por que
eles não conseguem sair da pobreza e ter um bom emprego como você, está cometendo a
falácia do mundo justo. Está ignorando as bênçãos não merecidas da sua posição.
É enfurecedor quando enganadores e ladrões se dão bem na vida enquanto bombeiros e
policiais trabalham longas horas por baixos salários. Lá no fundo, você quer acreditar que
trabalho duro e virtude levarão ao sucesso, e o mal e a manipulação vão levar à ruína, então
você vai em frente e “edita” o mundo para que combine com essas expectativas. Mas, na
realidade, o mal geralmente prospera e nunca paga seu preço.
O psicólogo Jonathan Haidt diz que muitas pessoas que não acreditam conscientemente em
carma, no fundo ainda acreditam em alguma versão disso, chamando-o do que parecer
apropriado em sua própria cultura. Eles veem sistemas como o do bem-estar social ou a
ação afirmativa como interruptores do equilíbrio do mundo natural. Os preguiçosos, de
acordo com essas pessoas, receberiam o que merecem se o governo não se metesse. O mau
carma deles iria destruí-los, mas forças antinaturais impedem. Enquanto isso, como essas
pessoas jogam de acordo com as regras, pagam impostos e sacrificam horas de sua vida pelo
trabalho, assumem que deve ser por uma razão. A busca de uma boa vida não pode ser fútil.
Os ricos, eles acreditam, devem merecer o que têm. Um dia, todo o bom carma que eles
estão gerando vai levá-los ainda mais alto na hierarquia social para se juntar aos outros que
têm o que merecem. A falácia do mundo justo diz que a justiça está inserida no sistema, e
então eles se enfurecem quando o sistema desequilibra artificialmente a justiça cármica.
Por que pensam assim?
Os psicólogos não têm certeza. Alguns dizem que é uma necessidade de ser capaz de
prever o resultado de seu próprio comportamento, ou para se sentirem seguros em suas
decisões passadas. Mais pesquisa é necessária. Na verdade, você gostaria de viver em um
mundo onde as pessoas de chapéu branco fazem justiça com as de chapéu negro, mas não é
assim.
Não deixe que isso o desencoraje, no entanto. Você pode aceitar que a vida é injusta e
ainda apreciá-la. Você não tem o controle total da sua vida, mas há uma boa parte dela sobre
a qual tem completa autoridade – tire o máximo dessa parte. Lembre-se somente que a
natureza injusta do mundo, a aleatoriedade do direito inato, significa que as pessoas
geralmente sofrem adversidades e desfrutam da opulência sem esforço algum. Se você pensa
que o mundo é justo, as pessoas que precisam de ajuda podem nunca recebê-la. Perceba que
apesar de sermos todos responsáveis por nossas ações, a culpa por atos maldosos sempre
está no perpetrador e nunca na vítima. Ninguém merece ser violentado ou sofrer bullying, ser
roubado ou assassinado. Para fazer o mundo mais justo, você precisa fazer com que seja
mais difícil que o mal se desenvolva e não dá para fazer isso reduzindo o número dos seus
potenciais alvos.

