O EQUÍVOCO: pessoas que estão perdendo no jogo da vida devem ter feito algo para
merecer isso.
A VERDADE: os beneficiários da sorte geralmente não fazem nada para merecê-la e as
pessoas más geralmente se safam sem sofrer consequências.
Uma mulher sai para ir a um clube usando salto alto e uma minissaia sem calcinha. Ela fica
bêbada e erra o caminho para casa. Termina perdida em um bairro barra-pesada. Acaba
sendo violentada.
Ela pode ser culpada de alguma forma? Foi culpa dela? Ela estava pedindo por isso?
As pessoas geralmente dizem sim para as três perguntas em estudos que fizeram esses
questionamentos depois de apresentar cenários parecidos. Quando você ouve sobre uma
situação que espera que nunca aconteça com você, tende a culpar a vítima, não porque é uma
pessoa terrível, mas porque quer acreditar que é inteligente o suficiente para evitar o mesmo
destino. Você aumenta a quantidade de responsabilidade que a vítima pode ter, algo que
nunca faria. A verdade, no entanto, é que estupro raramente tem algo a ver com mau
comportamento por parte da vítima. Normalmente, o estuprador é alguém conhecido, e não
importa o que a vítima está usando ou fazendo. O estuprador é sempre o culpado, mas a
maioria das campanhas de conscientização é voltada para mulheres, não homens. A
mensagem se resume a: “Não faça algo que poderia levá-la a ser violentada”.
É comum na ficção que os caras maus percam e os caras bons ganhem. É assim que você
gostaria de ver o mundo – justo e seguro. Na psicologia, a tendência a acreditar que é assim
que o mundo funciona chama-se falácia do mundo justo.
Mais especificamente, esta é a tendência a reagir a terríveis infortúnios, como falta de
moradia ou vício em drogas, acreditando que as pessoas nessas situações devem ter feito
algo para merecê-la. A palavra-chave aqui é merecer. Essa não é uma observação de que as
más escolhas podem levar a resultados ruins. A falácia do mundo justo ajuda a construir um
falso sentido de segurança. Você quer se sentir no controle, então assume que, enquanto
evitar o comportamento ruim, não terá problemas. Sente-se mais seguro quando acredita que
as pessoas que se comportam mal terminam na rua, ou grávidas, ou viciadas ou violentadas.
Em um estudo de 1966, de Melvin Lerner e Carolyn Simmons, 72 mulheres assistiram a
uma mulher resolver problemas e receber choques elétricos quando errava. A mulher estava,
na verdade, fingindo, mas as pessoas que estavam assistindo não sabiam disso. Quando foi
pedido que descrevessem a mulher recebendo os choques, muitas das observadoras a
desvalorizaram. Elas repreendiam seu caráter e sua aparência. Disseram que ela mereceu.
Lerner também deu uma aula sobre sociedade e medicina, e percebeu que muitas
estudantes pensavam que os pobres eram somente pessoas preguiçosas que queriam esmolas.
Então, realizou outro estudo com dois homens resolvendo quebra-cabeças. No final, um
deles recebeu aleatoriamente uma grande soma de dinheiro. Aos observadores foi dito que o
prêmio era completamente aleatório. Mesmo assim, quando foi pedido a eles que avaliassem
os dois homens, eles disseram que quem recebeu o prêmio era mais inteligente, mais
talentoso, melhor em resolver os quebra-cabeças e mais produtivo. Uma gigantesca
quantidade de pesquisa foi feita desde os estudos de Lerner e a maioria dos psicólogos
chegou à mesma conclusão: você quer que o mundo seja justo, então finge que é.

