em

II.

Imagine, por um momento, que você é um executivo de médio
escalão já estabelecido numa empresa próspera. Você é bemsucedido
e prestigiado. Passou anos construindo uma reputação
dentro da sua empresa e cultivando uma rede de amigos que você
pode acionar para obter clientes, conselhos e fofocas do ramo. Você
faz parte de uma igreja, uma academia e um country club, bem
como da divisão local da associação de ex-alunos da sua faculdade.
Você é respeitado e muitas vezes convidado a participar de
diversos comitês. Quando as pessoas dentro da sua comunidade
ficam sabendo de uma oportunidade de negócios, muitas vezes a
encaminham para você.
Agora imagine que você recebe um telefonema. É um
executivo de médio escalão de outra empresa procurando um novo
emprego. Ele pergunta se você pode ajudá-lo fazendo uma
recomendação para o seu chefe.
Se a pessoa no telefone é um completo desconhecido, a
decisão é fácil. Por que arriscar sua reputação dentro da empresa
ajudando alguém que você não conhece?
Por outro lado, se a pessoa no telefone é um amigo próximo, a
escolha também é fácil. É claro que você pode ajudar. É isso que os
amigos fazem.
Porém, e se a pessoa no telefone não for nem um grande
amigo nem um estranho, mas sim algo intermediário? E se vocês
têm amigos em comum, mas não se conhecem muito bem? Você
apoia a pessoa quando seu chefe pergunta se ela vale uma
entrevista? Em outras palavras, até que ponto você está disposto a
empenhar sua própria reputação e energia para ajudar o amigo de
um amigo a arranjar um emprego?
No fim dos anos 1960, um doutorando de Harvard chamado
Mark Granovetter propôs-se a responder a essa pergunta
estudando como 282 homens tinham achado seu emprego atual. Ele
rastreou como esses homens haviam ficado sabendo das vagas
abertas, para quem eles tinham ligado pedindo indicações, os
métodos que tinham usado para conseguir entrevistas e, o mais
importante, quem havia fornecido ajuda. Como esperado, ele
descobriu que, quando as pessoas em busca de emprego abordavam
estranhos para pedir assistência, elas eram rejeitadas. Quando
recorriam a amigos, a ajuda era fornecida.
O mais surpreendente, no entanto, era a frequência com que
as pessoas em busca de empregos também recebiam ajuda de
conhecidos casuais — amigos de amigos —, pessoas que não eram
nem estranhos nem amigos próximos. Granovetter chamou essas
conexões de “laços fracos”, pois elas representavam os elos que
ligam pessoas que têm conhecidos em comum, que participam
simultaneamente de redes sociais, mas que não estão diretamente
ligadas pelos laços fortes da amizade em si.
Granovetter descobriu que na verdade, para conseguir um
emprego, os conhecidos por laços fracos eram muitas vezes mais
importantes que os amigos com laços fortes, pois os laços fracos
nos dão acesso a redes sociais às quais de outro modo nós não
pertencemos. Muitas das pessoas que Granovetter estudou tinham
ficado sabendo de novas oportunidades de emprego através de
laços fracos, e não de amigos próximos — o que faz sentido, pois
falamos com nossos amigos mais próximos o tempo todo, ou
trabalhamos ao lado deles ou lemos os mesmos blogs. Quando eles
ficam sabendo de uma nova oportunidade, nós provavelmente já
estamos sabendo também. Por outro lado, nossos conhecidos por
laços fracos — as pessoas com quem esbarramos a cada seis meses
— são aqueles que nos falam de empregos dos quais, de outro
modo, nunca ficaríamos sabendo.
Quando os sociólogos investigaram como as opiniões se
espalham pelas comunidades, como as fofocas se alastram ou os
movimentos políticos têm início, eles descobriram um padrão
comum: nossos conhecidos por laços fracos muitas vezes são tão
influentes quanto — se não mais que — nossos amigos com laços
estreitos. Como escreveu Granovetter: “Indivíduos com poucos
laços fracos serão privados de informações de partes distantes do
sistema social e ficarão confinados às notícias e visões localizadas
de seus amigos próximos. Essa privação não só irá isolá-los das
ideias e modas mais recentes, como também pode colocá-los numa
posição desvantajosa no mercado de trabalho, onde a ascensão
talvez dependa (…) de ficar sabendo de vagas apropriadas no
momento certo.
“Além disso, tais indivíduos podem ter dificuldade de se
organizar ou se integrar a movimentos políticos de qualquer
espécie. (…) Embora membros de um ou dois pequenos grupos
possam ser recrutados de forma eficiente, o problema é que, sem os
laços fracos, qualquer impulso gerado dessa maneira não se espalha
p a r a além do grupo. Consequentemente, a maior parte da
população continuará intacta.”
O poder dos laços fracos ajuda a explicar como um protesto
pode se expandir de um grupo de amigos para um vasto movimento
social. É difícil convencer milhares de pessoas a buscar o mesmo
objetivo — principalmente quando essa busca implica dificuldades
reais, tais como ir a pé para o trabalho em vez de pegar o ônibus,
ou ser encarcerado, ou mesmo deixar de tomar uma xícara de café de
manhã porque a empresa que o vende não apoia a produção
orgânica. A maioria das pessoas não se importa o bastante com o
mais recente ultraje a ponto de abrir mão de seu meio de transporte
ou de sua cafeína, a não ser que tenha sido um amigo próximo que
foi insultado ou preso. Por isso há uma ferramenta com a qual os
ativistas vêm contando há muito tempo para fomentar protestos,
mesmo quando um grupo de pessoas não quer necessariamente
participar. É uma forma de persuasão que tem sido notavelmente
eficaz há centenas de anos. É o senso de obrigação que as
vizinhanças ou comunidades colocam sobre si mesmas.
Em outras palavras, a pressão social.
A pressão social — e os hábitos sociais que incentivam
pessoas a se conformarem às expectativas de um grupo — é difícil
de descrever, pois muitas vezes difere em forma e expressão de
uma pessoa para a outra. Esses hábitos sociais não são tanto um
único padrão consistente, mas sim dezenas de hábitos individuais
que acabam fazendo com que todos se movam na mesma direção.
Os hábitos da pressão social, no entanto, têm algo em comum.
Eles muitas vezes se espalham através dos laços fracos. E ganham
sua autoridade através de expectativas comunitárias. Se você ignora
as obrigações sociais da sua vizinhança, se despreza os padrões
esperados da sua comunidade, você corre o risco de perder sua
posição social. Põe em perigo seu acesso a muitos dos benefícios
sociais que obteve ao entrar para o country club, a associação de
ex-alunos ou a igreja.
Em outras palavras, se você não dá uma mãozinha para o cara
que ligou procurando um emprego, ele talvez reclame para o
parceiro de tênis dele, que talvez mencione essa queixa no vestiário
para alguém que você estava tentando atrair como cliente, que agora
está menos propenso a retornar sua ligação porque você tem a
reputação de pessoa que não colabora. Num playground, a pressão
social é perigosa. Na vida adulta, é assim que os negócios são feitos
e as comunidades organizam a si mesmas.
Essa pressão social, por si só, não é suficiente para sustentar
um movimento. Mas quando os laços fortes de amizade e os laços
fracos da pressão social se fundem, eles criam um impulso incrível.
É nesse momento que a mudança social disseminada pode começar.
Para ver como a combinação de laços fortes e fracos pode
impulsionar um movimento, vamos avançar o filme até nove anos
depois da prisão de Rosa Parks, quando centenas de jovens se
expuseram voluntariamente a riscos de vida em nome da cruzada
pelos direitos civis.
Em 1964, estudantes de todo o país — muitos deles alunos
brancos de Harvard, Yale e outras universidades do Norte — se
inscreveram em algo chamado Mississippi Summer Project. Era um
programa de dez semanas com o objetivo de registrar eleitores
negros no Sul. O projeto veio a ser conhecido como Freedom
Summer, e muitos dos que se inscreveram estavam cientes de que
seria perigoso. Nos meses anteriores ao início do programa, os
jornais e as revistas estavam cheios de artigos prevendo violência (o
que tragicamente provou ser verdade quando, logo uma semana
depois que o programa começou, justiceiros brancos mataram três
voluntários perto de Longdale, Mississippi). A ameaça de
agressões impediu que muitos estudantes participassem do
Mississippi Summer Project, mesmo depois que eles já tinham se
inscrito. Mais de mil candidatos foram aceitos no Freedom
Summer, mas quando chegou a hora de partir para o Sul em junho,
mais de trezentos dos convidados a participar decidiram ficar em
casa.
Nos anos 1980, um sociólogo da Universidade do Arizona
chamado Doug McAdam começou a se perguntar se era possível
descobrir por que algumas pessoas tinham participado do Freedom
Summer e outras tinham desistido. Ele começou lendo 720 das
inscrições que os estudantes tinham enviado décadas antes. Cada
uma possuía cinco páginas de comprimento. Perguntava-se aos
inscritos sobre seu histórico de vida, por que eles queriam ir ao
Mississippi e que experiência eles tinham com o registro de
eleitores. Pedia-se que fornecessem uma lista de pessoas que os
organizadores deveriam contatar caso eles fossem presos. Houve
ensaios, referências e, para alguns, entrevistas. Candidatar-se ao
programa não era uma tarefa simples.
A hipótese inicial de McAdam era de que os estudantes que
acabaram indo ao Mississippi provavelmente tinham motivações
diferentes daqueles que ficaram em casa, o que explicava a
divergência na participação. Para testar sua ideia, ele dividiu os
candidatos em dois grupos. A primeira pilha eram pessoas que
diziam que queriam ir ao Mississippi por motivos de “interesse
próprio”, tais como para “me testar”, para “estar onde a ação está”,
ou para “aprender sobre o modo de vida sulista”. O segundo grupo
eram aqueles com motivos “voltados para os outros”, tais como
para “melhorar as condições dos negros”, para “ajudar na realização
completa da democracia”, ou para “demonstrar o poder da não
violência como veículo para a mudança social”.
Os autocentrados, segundo a hipótese de McAdam, estariam
mais propensos a ficar em casa uma vez que se deram conta dos
riscos do Freedom Summer. Os “voltados para os outros” estariam
mais propensos a entrar no ônibus.
A hipótese estava errada.
Os egoístas e os altruístas, de acordo com os dados, foram
para o Sul em quantidades iguais. As diferenças de motivação não
explicavam “nenhuma distinção significativa entre participantes e
desistentes”, escreveu McAdam.
Em seguida, McAdam comparou os custos da oportunidade
para os participantes. Quem sabe aqueles que ficaram em casa
tinham maridos ou namoradas que os detivessem de ir ao
Mississippi? Talvez tivessem arranjado empregos, e não podiam
tirar uma folga de dois meses sem salário?
Outra vez, ele estava errado.
“Ser casado ou possuir um emprego em período integral na
verdade aumentava as chances de o candidato ir ao Sul”, concluiu
McAdam.
Ele tinha uma última hipótese. Pedia-se que cada candidato
listasse as organizações estudantis e políticas de que era membro e
pelo menos dez pessoas que ele queria manter informadas de suas
atividades naquele verão; por isso McAdam pegou estas listas e as
usou para mapear a rede social de cada candidato. Comparando as
participações em clubes, ele conseguiu determinar quais candidatos
tinham amigos que também se candidataram ao Freedom Summer.
Ao terminar de fazer isso, ele finalmente tinha uma resposta
de por que alguns estudantes foram ao Mississippi e outros
ficaram em casa: por causa de hábitos sociais — ou, mais
especificamente, devido ao poder de laços fortes e fracos agindo em
conjunto. Os estudantes que participaram do Freedom Summer
estavam envolvidos nos tipos de comunidade em que tanto seus
amigos próximos quanto seus conhecidos casuais esperavam que
eles entrassem no ônibus. Aqueles que desistiram também estavam
envolvidos em comunidades, porém de um tipo diferente — o tipo
no qual as pressões e os hábitos sociais não os impeliam a ir ao
Mississippi.
“Imagine que você é um dos estudantes que se candidataram”,
McAdam me disse. “No dia em que se inscreveu no Freedom
Summer, você preencheu o formulário junto com cinco de seus
amigos mais próximos, e vocês todos estavam se sentindo muito
motivados.
“Agora, passaram-se seis meses e o dia da partida está
chegando. Todas as revistas estão prevendo violência no
Mississippi. Você ligou para os seus pais, e eles disseram para
você ficar em casa. Seria estranho, nesse ponto, se você não
estivesse tendo receios.
“Então, você está andando pelo campus e vê algumas pessoas
do seu grupo de igreja, e elas dizem: ‘Estamos coordenando as
caronas — a que horas você quer que a gente te busque?’ Estas
pessoas não são seus amigos mais próximos, mas você as vê em
reuniões de clubes e na moradia estudantil, e elas são importantes
dentro da sua comunidade social. Todas sabem que você foi aceito
para o Freedom Summer, e que você disse que quer ir. Boa sorte se
você quiser dar para trás a essa altura. Você teria uma enorme perda
na sua posição social. Mesmo se estiver receoso, há consequências
reais se você desistir. Você perderá o respeito de pessoas cujas
opiniões importam para você.”
Quando McAdam examinou os candidatos com orientações
religiosas — estudantes que mencionavam um “dever cristão de
ajudar os necessitados” como motivação para se candidatar, por
exemplo, ele encontrou níveis mistos de participação. No entanto,
entre os candidatos que mencionaram uma orientação religiosa e
também pertenciam a uma organização religiosa, McAdam
descobriu que todos eles, sem exceção, fizeram a viagem ao
Mississippi. Uma vez que suas comunidades sabiam que eles
tinham sido aceitos para o Freedom Summer, era impossível
desistir.
Por outro lado, pensemos nas redes sociais de candidatos que
foram aceitos no programa porém deixaram de ir ao Mississippi.
Eles também estavam envolvidos em organizações no campus.
Também pertenciam a clubes e se importavam com sua reputação
dentro destas comunidades. Porém as organizações às quais eles
pertenciam — o jornal e o grêmio estudantil, grupos acadêmicos e
fraternidades — tinham expectativas diferentes. Dentro destas
comunidades, alguém podia desistir do Freedom Summer e sofrer
pouco ou nenhum declínio na hierarquia social prevalecente.
Quando confrontados com a perspectiva de ser presos (ou
algo pior) no Mississippi, a maioria dos estudantes provavelmente
teve receios. No entanto, alguns estavam envolvidos em
comunidades nas quais os hábitos sociais — as expectativas de
seus amigos e a pressão social de seus conhecidos — instigavam a
participação, e por isso, a despeito de suas hesitações, eles
compraram uma passagem de ônibus. Outros — que também se
importavam com os direitos civis — pertenciam a comunidades nas
quais os hábitos sociais apontavam numa direção levemente
diferente, por isso pensaram consigo mesmos: Quem sabe é melhor
eu ficar em casa?
Na manhã seguinte após ter pago a fiança para que Rosa Parks
saísse da prisão, E. D. Nixon deu um telefonema para o novo
pastor da Dexter Avenue Baptist Church, Martin Luther King Jr.
Eram cinco e pouco da manhã, mas Nixon não disse olá nem
perguntou se tinha acordado a filha de 2 anos de King quando o
pastor atendeu — ele simplesmente desembestou num relato da
prisão de Parks, de como ela tinha sido arrastada até a cadeia por se
recusar a ceder o assento, e os planos deles para lutar judicialmente
pelo caso dela e boicotar os ônibus da cidade na segunda-feira. Na
época, King tinha 26 anos de idade. Morava em Montgomery havia
apenas um ano e ainda estava tentando entender qual era seu papel
dentro da comunidade. Nixon estava pedindo o endosso de King,
além da permissão de usar sua igreja para fazer uma reunião sobre o
boicote naquela noite. King estava receoso de se envolver demais.
“Irmão Nixon”, ele disse, “me deixe pensar a respeito e me ligue de
volta”.Mas Nixon não parou por aí. Ele contatou um dos amigos
mais próximos de King — um dos mais fortes dentre os laços
fortes de King —, chamado Ralph D. Abernathy, e pediu que ele o
ajudasse a convencer o jovem pastor a participar. Poucas horas
depois, Nixon ligou para King de novo.
“Vou colaborar”, King lhe disse.
“Fico feliz de ouvir você dizer isso”, respondeu Nixon,
“porque já falei com outras 18 pessoas e disse para elas se
reunirem na sua igreja hoje à noite. Seria meio ruim fazer uma
reunião ali sem você”. King logo foi recrutado para atuar como
presidente da organização que surgira para coordenar o boicote.
No domingo, três dias após a prisão de Parks, os pastores
negros da cidade — depois de falar com King e com outros
membros da nova organização — explicaram para suas
congregações que todas as igrejas de negros da cidade tinham
concordado em fazer um protesto de um dia. A mensagem era clara:
ficar olhando de fora seria constrangedor para qualquer congregado.
Naquele mesmo dia, o jornal da cidade, o Advertiser, trazia um
artigo sobre “uma reunião ‘ultraconfidencial’ de negros de
Montgomery que planejam um boicote aos ônibus da cidade na
segunda-feira”. O repórter conseguira cópias de panfletos que
mulheres brancas tinham recebido de suas empregadas domésticas.
As partes negras da cidade estavam “cobertas de milhares de
cópias” dos panfletos, explicava o artigo, e previa-se que todos os
cidadãos negros iam participar. Quando o artigo foi escrito, só os
amigos de Parks, os pastores e os organizadores do boicote tinham
se comprometido publicamente com o protesto — mas depois que
os moradores negros da cidade leram o jornal, eles assumiram,
assim como os leitores brancos, que todos os outros já estavam
participando.
Muitos dos que estavam nos bancos de igreja ou lendo os
jornais conheciam Rosa Parks pessoalmente e estavam dispostos a
participar do boicote porque eram amigos dela. Outros não
conheciam Parks, porém perceberam que a comunidade estava se
unindo em prol da causa dela, e que se fossem vistos andando de
ônibus na segunda-feira, isso pegaria mal. “Se você trabalha”, dizia
um panfleto distribuído nas igrejas, “pegue um táxi, ou peça uma
carona, ou vá a pé”. Então todo mundo ouviu dizer que os líderes
do boicote tinham convencido — ou intimidado à força — todos os
motoristas de táxi negros a concordar em levar passageiros negros
na segunda-feira por dez centavos a viagem, o preço de uma
passagem de ônibus. Os laços fracos da comunidade estavam
aproximando todo mundo. Naquele ponto, ou você estava no
boicote ou era contra ele.
Na manhã da segunda-feira do boicote, King acordou antes de
o sol nascer e tomou seu café. Sua mulher, Coretta, ficou sentada na
janela da frente e esperou o primeiro ônibus passar. Ela gritou
quando viu os faróis do ônibus da linha South Jackson,
normalmente cheio de empregadas domésticas a caminho do
trabalho, passando sem nenhum passageiro. O ônibus seguinte
também estava vazio. E o seguinte também. King pegou seu carro e
começou a dirigir pela cidade, conferindo outros itinerários. Em
uma hora, ele contou oito passageiros negros. Uma semana antes,
teria visto centenas.
“Eu fiquei extasiado”, ele escreveu depois. “Um milagre tinha
acontecido .(…) Viram-se homens indo trabalhar montados em
mulas, e havia mais de uma carroça puxada por cavalos percorrendo
as ruas de Montgomery .(…) Espectadores tinham se juntado nos
pontos de ônibus para ver o que estava acontecendo. No começo
ficaram quietos, mas conforme o dia foi passando, eles começaram
a comemorar os ônibus vazios, dar risadas e fazer piadas. Ouviamse
jovens barulhentos fazendo um coro de ‘Hoje não tem
passageiros’.”
Naquela tarde, num tribunal da Church Street, Rosa Parks foi
condenada por violar as leis estaduais de segregação. Havia mais de
quinhentos negros apinhados nos corredores e parados na frente do
prédio, aguardando o veredito. O boicote e a concentração
improvisada no tribunal foram o evento de ativismo político negro
mais significativo da história de Montgomery, e tudo aquilo se
armara em cinco dias. O movimento começara entre os amigos
próximos de Parks, mas ganhou força, como King e outros
participantes disseram depois, devido a um senso de obrigação
entre a comunidade — os hábitos sociais dos laços fracos. A
comunidade foi pressionada a manter-se unida pelo medo de que
qualquer pessoa que não participasse não seria mais digna de
amizade.
Há muitas pessoas que teriam participado do boicote mesmo
sem este incentivo. King, os taxistas e as congregações talvez
tivessem feito as mesmas escolhas sem a influência dos laços fortes
e fracos. Porém dezenas de milhares de pessoas da cidade inteira
não teriam decidido deixar de pegar ônibus sem o incentivo dos
hábitos sociais. “A comunidade negra, antes dormente e resignada,
agora estava totalmente desperta”, King escreveu depois.
Estes hábitos sociais, no entanto, não eram fortes o bastante
por si sós para estender um boicote de um único dia num
movimento de um ano inteiro. Dentro de poucas semanas, King
estaria abertamente receoso de que a perseverança das pessoas
estava enfraquecendo, que “a capacidade da comunidade negra de
continuar lutando” estava em xeque.
E então estes receios se dissipariam. King, como milhares de
outros líderes de movimento, transferiria o comando da luta de suas
próprias mãos para os ombros de seus seguidores, em grande parte
conferindo-lhes novos hábitos. Ele ativaria a terceira parte da
fórmula do movimento, e o boicote se formaria numa força
autopropulsora.

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Escrito por Anônimo

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