Aposto que ninguém queria ter a vida que eu tenho. Tenho 14 anos e simplesmente não posso viver minha adolescência de uma forma feliz. Tudo isso por causa da minha condição social, minha família, e minha aparência.
O meu cabelo é ruim, minha cara é muito oleosa, cheia de mancha e espinha, eu sou muito cabeludo, eu suo muito, meus dentes são um horror, eu sou horrível.
A minha mãe, que deveria ser a pessoa que mais me apoia, é a pessoa que mais me destrói. Disse que é frescura de adolescente, não me deixa trabalhar, quer que eu estude para arranjar um bom emprego, as minhas roupas são tudo grande ou pequena demais, e ela disse que é melhor do que eu andar pelado, não me dá um presente, um centavo sequer, pois toda a atenção e carinho dela vai para o meu irmão mais velho que é autista, sei que ele demanda atenção, mas ela é muito egoísta. Só presta atenção nele, não me trata como filho, e sim como um menino que tem que obedecer aos exageros dela, a troco de nada.
Quando aparece algo bom da escola, e eu preciso ir, eu fico todo animado, mas quando eu conto para ela, ela começa a reclamar, dizendo que eu não vou, que eu só arranjo problema para ela, essas coisas, e eu fico muito abatido por dentro.
Ela não me deixa sair de casa de modo algum, quando falo que eu praticamente sou preso dentro de casa, ela diz que se eu sair eu viro um marginal, vagabundo, drogado, bandido, essas coisas.
As pessoas mangam de mim, pois nem celular eu tenho, não posso sair de casa, só casa-escola-igreja, e eu não aguento mais, esse inferno.
O meu maior sonho é ser diplomata, mas eu nem conto isso para ela, pois se não, ela vai começar a falar besteira. Ela não me dá nada, mas quer que eu sustente ela quando eu ficar adulto (e isso eu não vou fazer nem morto). Ela tem um preconceito enorme contra ricos, e fala mal dos países desenvolvidos, sendo que o meu maior sonho é morar fora.
Mas ela me quer para falar de fofoca dos outros, celebridade, novelas, que já estão me dando nojo disso.
Eu não sei o que eu faço, ou eu me mato, pois não aguento mais essa vida, ou eu fujo para bem longe e tento reconstruir minha vida sozinho, pois na minha situação é melhor morar na rua do que neste inferno. Este foi meu desabafo.

