Uma pessoa da família morreu. Fora, talvez, quando era bem criança, nunca fui muito próxima. Sempre que ouvia notícias dessa pessoa ou ela resolvia aparecer, vinha uma ponta de culpa e medo. Porque eu não fazia muita questão dela lá. Ou talvez tenha aprendido a viver sem ela. Culpa porque essa pessoa era "da família". Um pai que foi um pai… não sei descrever. Só sei que conforme fui crescendo a distância foi aumentando. E virou um abismo enorme. Eu só ouvia histórias sobre ele. De como ele ameaçava minha mãe, ligava para dizer que ela não prestava etc. Ele nunca me bateu, mas ele era violento com outras pessoas. Algumas vezes tinha medo quando ele aparecia, porque sabia que seria desgastante. Comecei a fazer o possível para não encontrar essa pessoa. Queria evitar o desgaste emocional.
Não fazia sentido para mim. O que íamos fazer? Ele iria aparecer e íamos fingir que estava tudo bem? Depois de adulta as coisas continuaram piorando, a distância era irreversível. E a culpa era gigante. Porque fui me afastando de todos que tinham contato com ele também. Virou uma espécie de buraco negro.
Não vou dizer que ficou tudo bem. Passei por momentos complicados, houve muita culpa, reabri muitas feridas até decidir arrumar um emprego mais longe e ir embora. Eu literalmente fugi da minha família. Havia culpa porque não havia uma justificativa boa para estar longe. Eu apenas não queria continuar daquele jeito…
Por um lado não foi fácil, por outro lado foi um alívio.
Eu podia seguir a minha vida, cuidar de mim, finalmente, viver sem aquela sombra. Foi como se eu finalmente tivesse virado adulta de verdade. Foi libertador e solitário. Mas busquei apoio em outros lugares e comecei a me tratar. Vi que o problema estava em mim também, ainda assim não tinha vontade de reatar. A relação vinha sendo desgastada desde a infância. Eram décadas de relacionamento ruim.
Agora que ele morreu, foi um choque de certa forma. Eu não tinha nenhuma vontade de restaurar a relação com ele. Mas é triste dizer isso. Não me arrependo da distância. Não sei se um dia vou. Ele não fazia parte da minha rotina. Era mais uma figura como um bicho papão, que a qualquer momento podia aparecer e destruir minha paz. Sendo justa, não foi culpa dele. Não foi culpa de ninguém. Mas também não vou chorar por alguém que, mesmo sem querer, virou um trauma para mim.
É uma pena. A vida segue. E eu sigo cuidando de mim. Obrigada por lerem, precisava desabafar um pouco.

