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CVV – Centro de Valorização da Vida – eu não acredito nisso!

Eu não acredito no CVV. Talvez você esteja impressionado(a) com a minha afirmação, mas eu falo de cátedra. Fui plantonista do CVV por mais de dois anos. Fiz o curso, fui selecionado e obedeci fielmente as regras da instituição. Aprendi coisas interessantes, coisas que na teoria são lindas mas que não tem aplicação na realidade.

Nunca abandonei um plantão, nunca faltei aos meus plantões, sempre segui a cartilha ceveviana. Mas eu via coisas erradas no CVV, nos próprios membros. Muitos ali com roupas inadequadas ao trabalho, eu por meu lado sempre fui com "roupas de ver a Deus". O CVV ao menos de minha cidade era um clube, um ponto de encontro. (Penso que os outros postos também o sejam, uma vez que o ser humano é o mesmo em todos os lugares, posso estar errado, mas é a conclusão a que cheguei.)

Quem eram as pessoas do CVV? Eram em sua maioria pessoas frustradas que mais desejavam ser ajudadas que ajudar. Outros queriam ter amigos e o CVV é um ótimo lugar para se fazer bons amigos. Amigos que não vão lhe julgar, não vão lhe dar conselhos, amigos que vão fazer de tudo para lhe compreender.

Vi membros do CVV que só estavam ali para serem ajudados, e se valiam da instituição, usavam o telefone para fins particulares ou quando estavam em suas casas queriam que os plantonistas estivessem à sua disposição.

Quando entrei para o CVV, pensei ter encontrado o paraíso e que ali era uma fraternidade e que ali não haveria disputas de ego, me enganei. Há inveja e todos os sentimentos não recomendáveis para um plantonista. Eu pude participar do julgamento do membro mais antigo do posto no qual trabalhei. As cenas foram ridículas, dignas da Santa Inquisição.

Fui me decepcionando aos poucos, até perder toda a fé que depositei nessa instituição. Mas antes de falar do meu desligamento quero falar do curso que fiz para ser voluntário para que você leitor(a) possa ter uma visão global da referida instituição.

O curso teve uma duração de dois meses que era realizado num dia da semana que agora não me lembro qual era. Os candidatos a plantonistas não podiam faltar nenhum dia, pois a falta acarretava a exclusão imediata. Eles diziam que o curso seletivo não excluía ninguém, mas os candidatos é que se excluíam por si mesmos, ou por circunstâncias adversas ou de livre e espontânea vontade.

No curso aprendemos (os candidatos e eu) que não devemos julgar os outros, não antecipar a resposta que o outro vai dar, a não dar conselhos de modo algum. Mas isso ainda era pouco, o que os nossos instrutores queriam é que nós metamorfoseássemo-nos em seres angelicais, seres perfeitos. Bom, como eu acreditava no CVV e queria participar dessa "família", tratei de mudar minha natureza humana em natureza querubínica. Passei a tratar os outros melhor, quando insultado não revidava, procurei ser amoroso acima da média, sempre disponível para conversar ou aliviar dores alheias. Isso funcionou durante algum tempo, até eu sair dessa Matrix que é o CVV.

No treinamento do CVV os candidatos aprendem como se portar num atendimento telefônico, é uma coisa fria, mecânica, artificial e inspira mais raiva do que confiança no interlocutor. Eles chamavam isso de orientação não diretiva, que é inspirada na obra de Carl Rogers, Tornar-se Pessoa.

Como funcionava a orientação não diretiva? Funcionava assim, o atendente não dirigia a pessoa, era apenas um companheiro, alguém que caminha ao seu lado. Mas como é esse caminhar ao lado do outro? A pessoa desabafa o que sente e o voluntário vai repetindo tudo o que ela fala, como se o atendente fosse um espelho onde a pessoa possa se ver. Exemplo:
– CVV Boa-noite.
– Boa-noite, com quem eu falo?
– Fernando à sua disposição.
– Tô com um problema.
– Você está com um problema.
– É, e não sei como resolver.
– Você se sente confuso diante do problema que ainda não conseguiu resolver.

E por aí vai, sempre nesse esquema de pessoa e voluntário papagaio. E ai de quem não seguisse as regras. Esse esquema de atendimento trazia mais problemas ao voluntário do que ajuda efetiva ao "paciente".

Por mais que você fosse ofendido, não podia revidar. Por mais que fosse paquerado não podia simplesmente desligar o telefone na cara desses usuários que fazem mal uso do CVV, pois essas paqueras também eram encaradas como atendimento.

Quantas vezes eu fui paquerado em meus plantões!!! Essas mulheres sabiam qual era o dia em que o plantonista ficava e qual era o seu horário. Para mim, isso era o inferno! Pois eu queria ajudar alguém que estivesse com depressão ou na iminência de cometer o suicídio e não para trabalhar para o tele-namoro ou o tele-sexo!!!

E há muitas pessoas de ambos os sexos que ligam dia e noite para ficar paquerando os voluntários, e isso demonstra que são sociopatas, não são pessoas carentes, antes são pessoas egoístas.

Nessa época eu estava no segundo ano da faculdade, e o CVV esgotava minhas energias semana após semana. E como eu vi, que eu era um dos poucos que levava o CVV à sério, resolvi sair, mas para sair quis aprontar e aprontei.

Tinha uma mulher que sempre me atazanava em meu plantão, eu explicava para ela que o CVV era sério, que ela deveria desligar o aparelho para que outra pessoa pudesse ser atendida, etc… A princípio tive pena dessa criatura e dava audiência a mesma. Ela dizia que eu deveria ligar para ela da rua, pois caso contrário ficaria mal por minha culpa, eu em minha inocência acreditei e liguei. E ligar para um usuário é contra as práticas cevevianas. Ela tentou me seduzir de todas as maneiras possíveis. Mas já que eu não mais me considerava um membro dessa instituição, fui à casa dela e tive um breve romance e vi que era uma pessoa manipuladora, caí fora o quanto antes, pedi minha exoneração do CVV, mudei o telefone de casa e nunca mais vi a tal criatura. Errei? Sim, eu errei, mas não em travar romance com uma usuária ceveviana que me perturbava, eu errei por ter acreditado na ideologia do CVV e disso me arrependo amargamente.

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Escrito por Anônimo

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