Todas as causas têm efeitos. A causa de “X” deve ser “similar a X”. A causa da inteligência
deve ser inteligente – Deus. Retroceda todas as causas no tempo e você chegará à causa
primeira – Deus. Como todas as coisas estão em movimento, deve ter havido um motor
primeiro, um motor que não precisa de outro para ser movido – Deus. Todas as coisas no
universo têm um propósito, portanto deve haver um projetista intencionado – Deus.
Se isso fosse verdadeiro, então não deveria a natureza ter uma causa natural, em vez de uma
causa sobrenatural? Mas as causas de “X” não têm que ser “similares a X”. A “causa” de uma
tinta verde é uma tinta azul misturada com uma amarela, e nenhuma dessas duas tintas é similar
à verde. O esterco animal faz as árvores frutíferas crescerem melhor. Uma fruta é deliciosa de
comer e é, portanto, bem pouco similar ao esterco! O argumento da causa primeira e do
primeiro motor, brilhantemente articulado por São Tomás de Aquino no século 14 (e refutado de
maneira ainda mais brilhante por David Hume no século 18), é facilmente posto de lado com
apenas uma pergunta a mais: Quem ou o que causou e moveu Deus? Por fim, como Hume
demonstrou, o propósito do projeto costuma ser ilusório e subjetivo. “O pássaro madrugador
ganha a minhoca” é um plano muito bom se você é o pássaro, não tão bom assim se você for a
minhoca. Dois olhos podem parecer o número ideal, mas, como o psicólogo Richard Hardison
observa bem-humoradamente, “não seria desejável ter um olho adicional na parte de trás da
cabeça? E certamente um olho acrescentado ao nosso indicador seria útil quando estivéssemos
fazendo reparos no painel de instrumentos de um automóvel” (1988, pág. 123). O propósito é, em
parte, o que estamos acostumados a perceber. Finalmente, nem tudo é tão cheio de propósito
assim e tão bem projetado. Além de problemas como o mal, as doenças, as deformidades e a
estupidez humana que os criacionistas convenientemente deixam passar por alto, a natureza é
cheia de coisas bizarras e aparentemente sem nenhum propósito. Os mamilos nos machos e o
dedo polegar dos pandas são apenas dois exemplos alardeados por Gould como estruturas
despropositadas e de desenho pobre. Se Deus projetou a vida para que se encaixasse nitidamente
como um quebra-cabeça, então o que fazemos com tais extravagâncias e problemas?

