Ainda não acredito que vou realmente postar isso.
Olho para trás, avalio a minha trajetória e chego à conclusão de que não me arrependo de muito. Se pudesse voltar no tempo, não teria mudado algumas coisas bem pesadas e traumáticas pelas quais já passei, pois acredito que as ultrapassei, e acredito que ficaram na memória como boas lições e crescimento.
Contudo, a meu ver, me arrependo de algumas coisas relacionadas a alguém que vou chamar de "ele".
Ele entrou na minha vida num período muito conturbado. Um período onde eu, ainda muito nova, me sentia perdida, deslocada. Onde arranjei companhias e "amigos" que me incentivavam a seguir meu instinto imaturo. Uma pessoa nova demais para desmaiar, tendo blackouts em festas. Uma pessoa da qual não me orgulho, mas que não apagaria se pudesse.
Uma pessoa que acordou um dia percebendo que não era mais tão inocente. Que se lembrava de flashes de dor aguda e ardência. Uma pessoa que não devia ter sido tocada da forma que foi, e que ainda agora me aperta o estômago e me põe a cabeça a rodar.
Mas também não mudaria essa noite. Por mais que possam falar coisas horríveis, que possam me insultar, eu não mudaria nada. Já lá vai. Trabalho nisso e melhorou.
Foi nesse ano que ele apareceu. Com o sorriso aberto e lindo, e uns olhos irritantemente brilhantes que confundiram a minha mente jovem.
E o que naquela época me soava a amor e obsessão, a entrega completa e felicidade, hoje soa a arrependimento.
Contei-lhe tudo. Contei os pensamentos que tinha, contei da ajuda que precisava, coisas que não disse aos meus pais ou professores. Coisas que não disse às autoridades e devia ter dito. E chegou o belo dia em que lhe disse que estava assustada. Que no fim de semana anterior alguém me tinha tirado um pouco da minha dignidade, e que não sabia o que fazer com a menstruação que não vinha, porque uma desgraça nunca vem só. Acabou por vir, dias depois, sossegando o meu coração imaturo.
E ele sorriu. Gargalhou. Uma gargalhada que me encheu o coração, como sempre enchia. E uma gargalhada que recordo porque o deboche me destroçou no momento seguinte.
Ele não acreditava. E a nossa história acabou ali. A única pessoa a quem pedi ajuda, a única pessoa a quem estendi a mão, em quem confiava a minha vida, me deixou sozinha em pé ao lado da porta, e no dia seguinte eu era só a mentirosa que ele mal conhecia.
E os anos passaram. Uma conversa aqui. Outra ali. Sorrisos que ainda me enchem o coração.
Um amor que afinal não passou, e que ainda me atormenta.
Aí está meu arrependimento. Mais do que um na verdade. Naquele dia, o maldito primeiro dia de aulas, o primeiro sorriso. Eu o mudava. Teria desviado o olhar, e teria sido só mais um colega na turma. Ou talvez não.
As confissões. Tudo o que lhe disse, que agora digo aqui por não ter mais onde desabafar. Teria calado a boca, e ouvido o seu choro, que não era para mim, porque não me amava.
O tempo. O tempo que tive para lhe dizer. A covardia que calou a minha boca. Teria mudado tudo isso. Que se explodisse se contasse para todos, se fosse humilhada. Eu devia ter dito um "eu te amo". Ainda não o disse, e sinto que nunca o direi.
Não percebo porquê ele ainda está aqui. Dentro de mim. Aquele sorriso de quem não se importa, e aquela risada que não me fez amá-lo menos. Também não percebo o porquê de estar compartilhando isso aqui.
Vantagens do anonimato. Desvantagens de não ter ninguém com quem falar mais.
Contornei a maior parte do sofrimento, escrevendo, criando, produzindo. Um texto aqui, um poema ali. Composições dolorosas, que não devem valer grande coisa, mas me fazem bem.
Não tenho um dilema. Sei que não há fórmula para esquecer alguém, não procuro respostas. É só um desabafo, que, se você leu todo, lamento por ter ocupado o seu tempo.
Só queria partilhar meu único arrependimento. Logo eu, que não dou margem para me arrepender de nada… Tinha de ter um par de olhos castanhos para me infernizar.
E você? O que te inferniza?

