Tenho 33 anos e não consigo esquecer os traumas psicológicos e físicos causados pela minha mãe, tanto em mim quanto em meus irmãos. As primeiras lembranças que tenho são dos meus seis anos, onde ela constantemente nos xingava: Desgraça, desgraçados, capeta, inferno, idiotas, feios, capivara, vagabundos, vadios, putas, piranhas, quengas, preguiçosos, não prestam para nada, não fazem nada direito, vocês são muito ruins… Nessa idade não tínhamos ideia do significado de nenhuma dessas palavras, até que ganhamos um dicionário escolar aos dez anos. A primeira coisa que fizemos foi procurar o significado de cada uma delas e chorar ao perceber o que era.
Ela nunca nos deixou sozinhos com nenhum familiar com medo da gente contar alguma coisa. Então… sofremos todos calados. Perguntava aos meus amigos de escola se a mãe deles também fazia isso e eles diziam que não. Não entendia porquê estávamos passando por aquilo. Aliado a todos os xingamentos, sofríamos os abusos físicos. Apanhávamos de chinelo, mangueira, cinto, galho de árvore, toalha molhada, cabo de vassoura, enfim… Tudo aquilo que estivesse ao alcance dela e que não deixasse marcas onde a roupa não pudesse esconder. Afinal, ela tinha medo de ser denunciada e perder os "filhos que tanto amava".
Muitas vezes as sete horas da manhã ela acordava a gente gritando: Acorda desgraaaaaaaça!!! Já tá tarde!
Na adolescência tentei me matar diversas vezes, tomei remédios, tentei entrar na frente de carros, tentei cortar os pulsos, bebi até desmaiar. Só queria que aquilo terminasse. Só queria paz. Apesar de tudo o que passava, sofríamos sem falar para ninguém, sempre envolto a um sentimento de culpa: a culpa era minha, eu merecia.
Meu pai nunca soube de nada do que estávamos passando, mesmo morando na mesma casa. Éramos coagidos por ela a não contar, se contássemos poderíamos apanhar. E apanhar muito. Ela não deixava que nós conversasse com ele. Distorcia as coisas e muitas vezes ele nos batia porquê ela falava para ele que tínhamos feito algo para isso. A única coisa que recordo dele ter presenciado foi quando ela disse que não era para nós chamarmos ela de mãe. Que não tínhamos mãe mais.
Na adolescência tive uma timidez terrível que me impedia até conseguir emprego. Coisas comuns de jovens como namorar, sair com amigos, ir numa boate, num show… era totalmente proibido. Tive depressão que ela encarou como nada, pois: "Essa pessoa tem tudo na vida, isso é frescura". Mesmo após eu perder seis quilos em uma semana.
Ela maltratava até nossos bichinhos de estimação, batendo com cabo de vassoura na cabeça deles até desmaiarem. Mesmo tentando evitar que sofressem, não conseguíamos. E sofríamos muito por vê-los com tamanha dor.
Acabei namorando, fugi de casa e casei. Hoje tenho uma revolta da vida que não pude ter, revolta que não cabe em mim. Tenho um coração partido; dolorido por termos sofrido tudo o que sofremos pela própria mãe, sem ter com quem contar, para onde correr. Tenho pesadelos constantes, medo das pessoas, medo de cumprimentar, medo de ter relações duradouras, crises de choro, um emocional completamente frágil e amor por tudo aquilo que representa a morte, como cemitério, caixões, corpos e sangue, já que são representações de paz para mim. Não consigo ter medo de filmes de terror, por pior que sejam, pois vivi o pior terror da vida na própria casa.
Sinto tanta dó de mim e dos meus irmãos, dá vontade de pegar aquelas crianças no colo, cuidar, dizer que vai ficar tudo bem e que eu as amo, mais que a minha própria vida. Hoje quando contamos isso para alguém, ela diz que é mentira. Enfim… meu pai, eu e irmãos fomos todos vítimas de uma mãe que não merecia esse título. Todos adultos com graves sequelas psicológicas de uma mãe que não deu amor, nunca fez um carinho, nunca disse que amava e até hoje se faz de vítima.
Como gostaria que nenhuma criança do mundo passasse por isso. As únicas lembranças que tenho da infância que me são boas era quando brincávamos com meus irmãos. Naqueles momentos sim, eu tinha e sentia paz.
Para quem passa por isso: Saiba que você não tem culpa de nada. Você é apenas uma vítima que merece muito amor. O mundo dá voltas, muitas voltas. Tudo o que fizemos para as pessoas, seja algo bom ou ruim, um dia retornará. Semeie coisas boas, plante e distribua o amor por aí. Se policie para que você não faça para alguém o que sua mãe fez e seja feliz.
Filhos que tem mães que os odeiam: Aonde quer que estejam, que meu amor possa chegar até aí.

