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Sem querer me vi odiando os homens

Eu gostaria de pedir a todos os homens que são bons de coração, que me perdoem. Me perdoem por odiar os homens. Eu já fui, mas não procuro mais ser feminista, havia até uma época em que eu me colocava extremamente contra qualquer atitude radical desse grupo social. Mas hoje, me surpreendo, sem ser convencida por qualquer argumento discursivo feminista, odiando o sexo masculino. Olho para os meus próprios sentimentos e me assusto, olho também para os homens e me assusto. Há realmente uma quantidade pequena de homens bons, e fico triste e me enfureço só de pensar nisso. Foram tantas decepções e frustrações, tantas mentiras e traições, que se tornou difícil me permitir amar alguém de novo. Eu sei que uma hora vai passar e sei também que o bom Deus vai me curar de toda a ira que sinto, e no lugar, colocará amor, mesmo que a maioria dos homens não mereça.

A última vez que eu me apaixonei, foi bem traumatizante. Conheci um rapaz tão encantador, tão charmoso, tão belo, tão interessante e tão diferente de tudo o que eu já tinha visto, e eu sempre me interessei por aquilo que era diferente. Ele me seduziu e fez com que eu me apaixonasse perdidamente. Eu o conheci em uma festa e estávamos completamente bêbados. Depois daquilo, passamos a nos ver frequentemente, quase todos os dias. Ele me convidava para sair com os seus amigos, assistíamos a um bom filme e ele sabia cozinhar coisas incríveis.

Mas não havia carinho, éramos como amigos que transavam, mas eu bem sei que até em relações de amigos existe carinho. Eu percebi que ele estava começando a gostar de mim, era ele quem me convidava quase todos os dias para ficarmos juntos. E por causa desse sentimento que surgia dentro dele, ele começou a se afastar. Logo percebi que ele amava mais a liberdade dele do que a mim. Mas quem disse que estar comigo era uma prisão? De forma alguma. Eu nunca coloquei ou tentei impor limites a ele, sempre o amei livremente. Mas ele foi fugindo de mim aos poucos. No principio, nos víamos de segunda a quinta. Mas quando chegava o final de semana, ele sumia. Sempre bêbado, em alguma festa, com alguma menina. Eu entendi qual era a dele, ele me queria como sua fixa, como refeição principal, e queria todas as outras como sobremesa.

Antes de me conhecer ele levava várias meninas para a casa, uma a cada madrugada.  E quando eu comecei a dormir la com ele, toda vez que eu ia embora na manhã do outro dia, eu ouvia a voz da mãe dele me chamando de "filha" de la do quarto dela. Ela me perguntava se eu queria tomar um café ou me oferecia qualquer outra coisa do tipo. Mas ela nunca me chamava pelo nome, mesmo  já me conhecendo. Aos poucos eu fui desconfiando e por fim percebi. Ela me chamava de "filha", porque nunca sabia ao certo que menina saía do quarto dele, assim não corria o risco de confundir os nomes. Ela nem deveria saber os nomes, o único nome que ela realmente sabia era o meu, porque eu passei a ser a única que ele levava para casa; e foi por causa deste e de outros sinais que ele sem querer deu, que eu percebi que ele estava gostando de mim. Mas a mãe conhece o filho que tem, ela não tinha certeza que eu era realmente a unica menina que ele estava levando, por isso era melhor não correr o risco de errar o nome. Vai que ele levasse outra garota e a mãe dele a chamasse pelo meu nome, seria no mínimo  constrangedor. Essa foi uma das coisinhas que eu fui percebendo que foram me matando e me enojando.

Pelo o que eu descobri, ele dormiu com a garota que eu mais odiava uma noite após eu ter dormido com ele e anterior ao dia em que ele ia conhecer a minha mãe e que íamos dormir juntos novamente. E não pense que ele ia conhecer a minha mãe porque nosso relacionamento estava ficando sério, era só porque minha mãe estava cansada de me ver indo dormir fora todas as noites sem saber com quem e não estava mais tolerando isso. Resumindo, era só pra transar comigo com mais liberdade. 

Depois que eu descobri sobre a menina, tivemos uma conversa tão seria que ele não levou mais ninguém para dormir com ele além de mim, sim, eu o perdoei. Mas ele continuou sumindo durante os finais de semana, bebendo e ficando com todas.
E o pior é que ele se frustrava só com a ideia de eu sair com outra pessoa que não fosse ele, sendo que ele não estava nem aí pra fidelidade dele em relação a mim.

Ele nunca me deu carinho, era só sexo, sexo selvagem, chegava até assustar. Ele era frio, calculista, prepotente, arrogante, cheio de si, extremamente narcisista, achava que o mundo girava ao redor dele. Ele era também muito inteligente, sempre com opiniões e reflexões extraordinárias sobre o mundo e a humanidade, dava gosto de ouvir as suas explanações, mas tudo o que ele tinha de bom e belo, o estragava e o transformava num ser repugnante. Chegou num ponto em que eu decidi finalmente dar adeus, então ele me ligava alguma vezes bêbado, outras vezes sóbrio no meio da madrugada e me chamava pra "conversar". Nunca era conversa, ele sempre dava um jeito de levar algum amigo, o que nos impedia de falar de nós dois. Então nós bebíamos, e quando chegava a hora de conversar na casa dele sozinhos de madrugada, ele me seduzia e depois íamos dormir. Eu nunca conseguia olhar nos olhos dele e dizer o que eu sentia e que eu estava farta daquilo tudo, porque ele se colocava tão acima de mim, que eu realmente acreditava que ele era superior e eu inferior. As vezes eu me surpreendia pensando que talvez eu não o merecia porque eu não era boa o suficiente para ele, ou que eu não bastava. Eu não me sentia a vontade perto dele, vivia insegura,  mal abria a boca pra falar alguma coisa, ficava retesada, contida, sentia que não podia ser eu mesma. Eu era toda cheia de emoções e sentimentos e eu tinha que guardar tudo aquilo.

Ele nunca foi agressivo fisicamente nem verbalmente. Mas não eram as suas palavras que me machucavam, era a falta delas. Eram as suas atitudes e também a falta delas que me deixavam totalmente ferida. Eu me sentia inferior, usada, abusada emocionalmente, me sentia um objeto de prazer, um brinquedo. Meus sentimentos eram como um lata de lixo e o meu coração como um chão para ele pisotear. 

Às vezes, durante o sexo, quando ele estava sobre mim e não conseguia ver o meu rosto, uma lágrima caía dos meus olhos e uma expressão de tristeza se apoderava da minha face. E quando ele voltava a me olhar, eu voltava a fingir prazer. Muitas vezes eu queria e amava transar com ele, mas outras, eu fazia só para agrada-lo, por amor. Eu estava ali, mas meus pensamentos estavam distantes, querendo fugir.

Depois descobri também sobre algumas coisas que ele disse de mim pelas costas que não era verdades, só pra se sentir ainda mais superior. Dizia que eu não saía do pé dele, que eu era grudenta, que ele queria dormir com a ex dele mas eu não saía mais da casa dele. Só que eu nunca pedi para ir a casa dele, todas as vezes era ele quem me chamava, eu nunca grudei nele porque eu nem sequer me sentia a vontade para expressar meus sentimentos, quanto mais para grudar nele; e quando eu o conheci, as duas ex namoradas dele estavam namorando e nós até  saímos juntos.

A última vez que tive contato com ele, eu disse tudo o que eu queria dizer e bloqueei ele de tudo o que eu tinha. Ele não vai mais me incomodar e nunca mais vai entrar na minha vida de novo. Só de pensar em tudo o que eu aguentei e me submeti, me dá nojo e me revira o estômago.

Eu sei que existem mulheres que sofreram e sofrem muito mais do que eu sofri, mas não devemos ignorar e nem menosprezar qualquer tipo de sofrimento. Foi traumatizante sim, me machucou sim, e muito! Quando você está usando alguém para depois jogar fora, você está abusando dessa pessoa, está descartando, tratando apenas como objeto, você está abusando do corpo, mas também das emoções, do coração, dos sentimentos, você está brincando com o que não é de brincar e violando o que não é para ser violado.

Desde muito novinha, percebi que os homens de todas as idades nas ruas observavam o meu corpo. Palavras de baixo calão, elogios maliciosos e tendenciosos, frases perversas, olhares de cima a baixo, buzinadas, um carnaval de cantadas me perseguiam e perseguem toda a vez que eu coloco o pé pra fora de casa.

Teve um dia que eu sentei na porta de casa para esperar um namorado que eu tinha arranjado, e depois de apenas dez minutos, um carro enorme rodou o quarteirão várias vezes e parou em todas elas, e em cada uma das paradas o motorista me perguntava se eu queria dar uma voltinha com ele. Eu sempre respondia que não e na última vez em que ele parou, perguntou se eu queria "conhece-lo" e disse que tinha dinheiro. Era inverno, garoava, era mais ou menos cinco e meia da tarde e eu estava vestida de cima a baixo. Isso para você, que pode ser um homem machista, não tentar dizer que eu tive alguma culpa de ser assediada.

Depois de tanta coisa, tantas outras experiências que se eu fosse contar, escreveria um livro, eu simplesmente não sei mais lidar normalmente com esse tipo de coisa. E nem devo lidar normalmente, porque não é normal e não deve ser considerado normal!!!! Infelizmente, estou desempregada, e isso me impossibilitou de comprar saias e vestidos longos, e não é porque eu sou crente, é porque eu realmente me sinto incomodada com os olhares, principalmente quando fico em pé nos ônibus e os homens sentados. Sempre tento levar uma blusa e amarrar na cintura. Já cheguei a sair com roupas extremamente masculinizadas, para testar se iam mexer comigo e é claro, para me sentir mais a vontade. Hoje, quando percebo um homem se aproximando  querendo me conquistar ou querendo ter alguma coisa comigo, eu já sinto raiva e me enojo só de imagina-lo colocando as mãos em mim.

Abraçar? Sem dúvida é algo que eu não gosto, alguns homens amam nos apertar contra o peito só para sentirem os nossos seios encostando neles. Beijinhos de cumprimentos? Tampouco. Prefiro ficar com o aperto de mão ou até mesmo um "oi" de longe.

E sobre beleza? Não vejo mais beleza, os homens mais bonitos normalmente são os que acham que podem fazer tudo só porque são bonitos. Coitados, se depender de mim são os que eu menos gosto. Me apaixonar de novo? Longe de mim, se eu puder nunca mais. Eu não dou chance nem para me conquistarem. Penso que apaixonar-se é fraqueza, independência emocional é liberdade e felicidade. Depois que eu aprendi a gostar de mim, eu passei a me bastar. Eu sou suficiente para ser feliz, minha felicidade nao depende de ninguém além de mim, e se dependesse eu estava ferrada porque as pessoas são falhas, elas vão nos decepcionar. Não dá pra depositar nossa felicidade nas mãos de seres tão imperfeitos assim… E nem vale a pena!

Então, mais uma vez, homens bons de coração, eu sei que vocês existem, mas eu gosto, preciso e prefiro ficar sozinha. Então me perdoem por preferir me ausentar de vocês. Quem sabe algum dia alguém me salve dessa parada toda, se eu quiser ser salva é claro, mas por enquanto, deixe estar…

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Escrito por Anônimo

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