o que te faz viver? aposto que você não sabe. só tem esse desejo estúpido de continuar respirando. só tem esse medo irracional de não existir mais.
e se eu te disser que eu sei porque você quer viver? que ontem, numa das minhas noites de programação sonâmbula, tive a sensação de ter matado a charada? você iria querer saber? mesmo diante da possibilidade da resposta mostrar a futilidade da sua existência e a mediocridade do seu medo da morte?
meu conceito do que é certo só foi abalado duas vezes: a primeira, quando minha esposa me falou que ter filhos nada mais é do que alimentar o ego; a segunda, ontem, quando descobri que me mantenho vivo por curiosidade. é. curiosidade. ridículo né? mas é verdade.
já pensei em me matar. tantas vezes que já perdi a conta. já QUIS me matar. algumas vezes, mas a vontade era real. e sabe o que descobri? que não me matei por curiosidade. e se eu não me matar o que será que vai acontecer? o que vai acontecer amanhã? será que a vida vai melhorar? será que algo vai mudar?
nada nunca muda. os mesmos sentimentos que me fizeram pensar em suicídio continuam lá. a diferença é o medo. ele está se esvaindo. o irônico é a razão. o medo da morte se vai por causa da curiosidade. e se eu me matar? o que será que tem lá do outro lado? tem outro lado? como será que a vida continua sem mim? será que vou saber? quem irá sofrer? quem irá se sentir aliviado? quem irá achar meu corpo?
eu sei que é meio egoísta. você pode vir com aquele jargão: e sua esposa? e seu filho? e sua família? bom, eu não penso em assassinato seguido de suicídio. eles sobreviverão. até quando? como? bom… não sei. perguntas demais. não tenho qualificação para respondê-las.
tenho que achar outro modo de me manter vivo. tenho que achar outro motivo para não me trancar no banho e cortar meus pulsos com minha navalha. tenho que achar um impedimento para o ato. medo já não resolve. curiosidade já não é suficiente.
acho que vou apostar na dor.
sim.
vai ter que ser isso.
pelo menos por enquanto…

