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Odeio gente impositiva

Eu confesso que odeio o masculino. A força do masculino tem que ser usada com dosagem e nos momentos certos, mas a sociedade brasileira simplesmente não tem consciência da lei do equilíbrio e não sabe que não é necessária a agressividade nas relações humanas, resultado: sair na rua é pedir pra ser alvejado. Vou, ao invés de falar rua, falar Rua, com r maiúsculo, como sinônimo de "ambiente comunitário público-brasileiro", que nem o segurança que tentou cooptar a grana da moça, a qual deixou sua carteira caída no chão. Se aproximou do morador de rua, vai, a gente reparte, o meio pra mim e o outro meio pra ti. Ele riu e disse que bom exemplo você é, vou devolver pra ela, pois viu e achou primeiro. Levou um safanão, sorte que o gerente da farmácia impediu a escala de violência subir.

Justificativa pra pegar o dinheiro da carteira: "isso aqui é São Paulo".

Cidade perdida, a cada esquina se sente o cheiro de imposição, bando de abutre lutando pela carniça, ou você briga ou é a própria carniça. Minha família é formada, tem curso na Rua. Falar com meus tios é como pedir pra ser escrachado, tamanha truculência com que se expressam e te humilham caso demonstre fragilidade. Não tem espaço, é assim, a sociedade brasileira é desmesurada quanto ao uso da agressividade, a tomam como solução para tudo.

Opinólogos: a pedagogia que deveria ser menos "frescurenta" (porque ensinar uma vida a participar do processo civilizatório é coisa que se faz de qualquer jeito), o cuidado com os filhos na base do tapa (alegando que no tempo detrás era assim e ninguém reclamava, claro, vai checar os índices de alcoolismo, suicídio, homicídio, agressão no trânsito, em casa, em tudo quanto é lugar, porque ninguém reclamava, até parece, é que se abrisse a boca tomava mais porrada), a terapia que é "frescura", coisa que se diz porque não se compreende em absoluto os males que doem a alma humana, basta ter a pia, cheia, de, louça, é o político linha dura que finalmente vai restaurar ordem ao caos, como se precisássemos de novo de mais uma figura paterna escrotamente corrompida.

E o pior de todos: o discurso motivador que se baseia em ter vergonha na cara.

Se tem algo que detesto é "ter vergonha na cara". Discurso de coronel, macho que bate no filho, bate na mãe, na esposa, bate no irmão, no bicho, nele mesmo, em tudo, "vergonha na cara": um jeito carregado de dor que quer dizer "engole o choro e faz direito", se apruma na vida, toma jeito. Tomar jeito do que, caralho. A vida por acaso é tomar jeito? É SEMPRE O CONTRÁRIO, é cair no invisível e imprevisível, a vida EM SI é um caminho de tragédias e sucessos, caminhos tortuosos,

E pouco a pouco vejo os tecidos sociais se entrecruzarem numa dança ridiculamente feia, muito calo no pé de tanto os pés de pisarem, se machucarem, eu entendendo gente brusca. Elas nasceram no meio do fogo cruzado e só sabem falar queimando o interlocutor.

Mas, não sei quanto ainda dura minhas expressões de raiva, o masculino é completamente desnecessário. Ou é desnecessário, ou a dosagem de masculino na nossa sociedade é tão, tão mal distribuída, que atribuo todo meu ódio a esta carga desproporcional tomando-a como o masculino em si.

Pra que tanto discurso motivador? Me responda, pra que?! Porque diabos devemos levar a vida como se fosse uma guerra? "Alta performance", que ódio da instrumentalização da vida humana em busca de "resultados eficientes", reduziram a consciência a nível de coisa processual e agora extraem todas as informações possíveis pra que a máquina continue girando, e dá-lhe vislumbramento de "grandes homens", mitologizaram Steve Jobs, Roberto Marinho, Che Guevara, puta merda, por que são estas nossas referências?

Eu caio de joelhos, já não aguento mais sentir tanto ódio, por que a referência do mundo é o poder? Porque brigamos pelo poder? Porque os dois pés na porta? Por que buscamos ser bem articulados, sermos mestres na oratória, termos controle e fascínio, por que queremos ser carismáticos e discursar pra multidão? Por que nos encanta esse universo?

É necessário tudo isso pra ser ouvido? Que merda é essa, provar que é homem, parar de ser fraco, distinção homem alfa e homem beta, lobo solitário, todo mundo quer se líder.

A sociedade brasileira é uma merda. Odeio viver aqui. Onde saio de saia e os olhares masculinos sem pudor, respeito, recato ALGUM, me miram e tratam de minha figura como se fosse besta-fera. Onde as emoções são completamente desvalorizadas e jogadas para escanteio. Onde é necessário brigar com o gerente da loja, do restaurante, procurar pelo PROCON, tudo é luta nesta merda de país. PRA TUDO TEM QUE LUTAR, nas repartições públicas, nos vestibulares, na política. A violência é tão, tão naturalizada, que nem mesmo se torna estranho que tenhamos medo um do outro na rua. Por que deveria temer meu vizinho? Por que trancas nas portas?

QUE PORRA É ESSA, me expliquem. E não me venham com "é a vida". "Em que mundo você quer viver, então? No mundo dos sonhos?".

Eu é que te pergunto. Que porra de mundo VOCÊ quer viver? O que faz do Brasil, o Brasil? Tá lá. A selva de pedra e o "recanto" familiar.
Meu peito está explodindo de ódio. Ódio puro, que concentra no estômago, no fígado, na alma. Estou farto dos tribunais de justiça no Facebook, das opiniões de merda de quem desvaloriza o sofrimento, de quem trata da dor como algo a ser consertado, de quem acha que engrossar a voz é maneira de ser ouvido, dos comentários infelizes que "abolçoam" a internet de sofrimento. Pra todo lado que vou ouço mais e mais violência, sob todas as formas!

Estamos às pencas. A prova disso: comentários que poderão haver neste site, espaço que EM TESE deveria ser o mais aberto às tragédias e humilhações humanas, onde deveria ser o recanto dos desalmados, desfalecidos, perdidos, fodidos, mas não. Ainda tem gente que põe o dedo no teclado pra insultar, menosprezar e machucar justamente os mais vulneráveis.

Enquanto houver UM SER HUMANO cometendo qualquer forma de violência e sadismo, perdemos. A humanidade inteira perdeu. Estamos às pencas do descaso emocional, familiar, financeiro, político, espiritual, comunitário. Somos animais que dormem na mais pura solidão. Estamos fodidos, é isso que tenho a dizer.

Peço uma única coisa: por favor, vamos dar um jeito nisso. Me ajude, não sei que caminhos seguir. Não quero remédios, terapia, agradecer à Deus. Quero olhar pra Rua e ver uma Rua bonita. Quero que as crianças não sejam estupradas em consultórios médicos, que as mulheres saiam na rua sozinhas, que os homens brinquem com a própria feminilidade, que os velhos tenham voz e sejam vistos como o resultado da felicidade da vida humana.

Se te soa (assim como a mim me soa) pedir demais, então tem muita, MUITA coisa errada. Se leu até aqui, muito obrigado.

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Escrito por Anônimo

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