Tenho 25 anos, e desde os 14 anos tenho bulimia nervosa. Cheguei a beira da morte algumas vezes… e sofro com as consequências físicas e psicológicas de uma convivência familiar japonesa que vive no passado.
Meus avós nasceram no Brasil, mas seus pais cruzaram o mundo para depositar suas esperanças nessa terra… e a educação era bem rígida e tradicional. Que passou para minha mãe e seus 3 irmãos mais novos… e para mim.
Sou a neta mais velha, filha da filha mais velha que se divorciou e foi morar com os pais. A cobrança é grande, desde que eu era muito nova. "Você tem que ser alguém na vida para sustentar três velhos (vô, vó e mãe)". Não adiantava ser a melhor aluna da sala, da escola… ou o "10" não era suficiente e queriam "11", ou a escola/professor facilitou de algum jeito.
Com 7 anos, as minhas notas caíram em matemática porque eu não entendia a divisão, nunca pensaram que a professora estava de má vontade e a turma toda ficou sem entender. Me colocaram no KUMON.
Para quem não sabe, o Kumon é um método de estudo baseado na repetição. Você repete tanto o mesmo tipo de coisa que decora e pega prática, ficando mais rápido. Ajuda… mas com pais certos, vira tortura. As crianças fazem uma lição por dia, estipulado pelo professor… eu fazia milhares de lições por dia, estipulado pela minha mãe. Eu cansava antes mesmo de ir pra escola… e sofria com os castigos por não cumprir o tempo mínimo de fazer a atividade, ou errar uma vez que fosse em uma lição com 100 exercícios… porque ela estava pagando e eu "não dava valor".
Eu não via tv, não via desenhos, não jogava video game (eu nem sabia que existia), eu não brincava com outras crianças. Quando eu milagrosamente terminava toda a atividade, eu brincava com miniaturas de animais em uma fazendinha, que tenho até hoje, apesar de minhas primas terem quebrado.
Com as férias escolares, o turno do Kumon aumentava. Eu estudava da hora que acordava, até a hora do jantar. Eu ia dormir cedo porque ficava muito cansada. E em uma dessas férias, perto das 16h, comecei a ouvir as crianças da vizinhança brincando na rua e fiquei distraída, querendo brincar. Minha avó usou o "bicho papão" favorito pra me assustar: "Se você não estudar direito vou te mandar pra morar com o seu pai".
Até hoje, meu pai é o grande vilão da Disney… ele é vagabundo, mentiroso, ladrão, preguiçoso, burro, … todas as qualidades que eles vêem em mim. Aí me comparam com ele… que por sinal, não conheci… porque minha mãe se divorciou por pressão da minha vó e vô, na véspera do meu nascimento.
Ao ouvir essa frase da minha avó, morri de medo. Sempre fui covarde, porque sempre que esbocei alguma reação, eu apanhava como se eu fosse culpada da morte de Jesus. Mas aquele dia, não sei se foi coragem ou se foi o pavor, mas fugi de casa. Fui pra casa de uma colega da quarta série, eu nunca havia andado na rua sozinha, mas achei a rua dela por acaso (ou por ajuda divina), encontrei com o pai dela na rua e eles me acolheram por algumas horas. Eu brinquei um pouco, e voltei pro inferno.
Eu acordava cedo, ou ia pra algum curso, ou ficava fazendo Kumon. Ia pra escola pra ser a melhor aluna. Voltava pra casa, me arrumava e jantava ouvindo besteiras… e ia dormir meia noite, depois de ouvir de tudo, apanhar, ser ameaçada de abandono na rua… eu chorava muito, se eu parava, parecia que meu vô ficava com mais raiva, então eu chorava baixinho e por muitas horas. Dormia, e recomeçava o ciclo.
Alguns parentes me elogiavam por ser tão estudiosa. Que só me viam estudando. Pois é, comecei a brincar com o nascimento da minha prima… em 2000.
Minha rotina era estudar, manter toda a lição impecável, limpar a casa, ajudar minha avó com as atividades da cozinha e no final de semana, cuidar da minha prima. E se ela chorasse, eu sabia que eu choraria muito mais. E às vezes ela nem chorava, mas a mãe se queixava de algo, e eu apanhava sem saber nem o motivo. Nessa época, apanhei na frente de várias pessoas, parentes ou não.
Com 12 anos, fui encarregada de cuidar de um primo um ano mais novo, da minha prima que já citei e uma outra prima que era bebê aprendendo a engatinhar. Não sei o motivo, mas me mandaram mostrar a igreja evangélica perto de casa, e com a companhia do meu primo. Fomos até lá, e estava fechado, então eu sugeri de irmos em uma maior, a algumas quadras dali. Pela demora, minha família começou a se preocupar (com o meu primo) e saíram de carro a nossa procura. Quando chegamos em casa, todos estavam na frente de casa, menos quem saiu de carro. Comecei a ouvir a bronca e me explicar, quando o carro chegou… e meu vô veio pra cima de mim. Apanhei muito forte no rosto, bati a cabeça no muro, e um dos meus tios demorou, mas me protegeu das agressões. Corri pra dentro de casa, num quartinho que eu achava que era meu e chorei. A visita antecipou a volta e nunca mais vi esse primo, porque anos depois meu tio e a esposa se divorciaram, e ele era filho do primeiro casamento dela.
Na escola, além de não ter amigos, eu não tinha o que fazer. E pré-adolescente, em um bairro perigoso de cidade grande… possuem um grande amor por cdfs… e fui conquistando inimizades sem mesmo saber como. Porque eu mal falava.
Eu era horrível em educação física… e minha família sempre jogou isso na minha cara… "sua prima faz ginástica, é atleta, está ganhando medalhas", "sua outra prima tem habilidade com esportes com bola", "seus tios jogavam beisebol". E eu tinha a habilidade de ser vagabunda. Pata. Descoordenada. Me colocaram na natação… justo eu que morria de medo de água. Primeiro dia de aula quase me afoguei, porque o professor me jogou na água. Mas como minha família sempre dizia… toda bosta sabe boiar… e boiei por um ano toda quarta e sábado. Não saía do lugar, mas boiei.
Por três anos, nos últimos anos do ensino fundamental, apanhei em casa e na escola. Minha mãe e minha vó iam na escola pra reclamar – de mim… que podiam cobrar mais coisas de mim, que se eu não obedecesse era pra me dar advertência, que se eu não fizesse lição era pra avisar elas… e o povo do bullying achando que eu tinha contado pra alguém que me davam refresco do vaso sanitário… ou que abaixavam minha calça… ou outras coisas horrorosas… que odeio lembrar. Até hoje não entro em banheiros públicos, nem de shopping.
Foi difícil, mas consegui entrar no colégio que eu queria no ensino médio… o que não agradou minha mãe, que esperava que eu entrasse em uma melhor. Ou meu tio, que queria que eu entrasse em uma pior, pra poder poupá-lo do trabalho de buscar a filha na escolinha… porque eu buscaria.
E foi nesse colégio que conheci um pouco mais do mundo. Colegas das mais diversas situações financeiras, culturais, religiosas… e isso assustou a minha família, principalmente meu avô, que me levava e buscava todos os dias. Eu fiz algumas amizades, mas minha família me oprimiu tanto que as perdi pouco a pouco… aí desenvolvi uma estratégia para ter amizades, mas que minha família não interferisse… e consegui me formar com 5 amigos.
Vestibular de medicina… estudava em escola pública, mesmo sendo boa aluna, via a diferença com outros. Passava de boa nos outros cursos, mas medicina era sempre na trave… estudei no melhor cursinho da cidade, graças a um tio que convenceu a minha mãe… porque por ela, eu ia fazer um que nem material tinha.
Se você chegou até aqui pra ler, deve achar que é uma história de superação… que passei com louvor na melhor faculdade de medicina e agora estou me formando… desculpe lhe dizer, que não… eu me revoltei e decidi fazer o curso que eu queria, e não o curso que queriam que eu fizesse. Fui pra Medicina Veterinária.
Consegui bolsa integral na Puc, mas recusei. Consegui na Federal da minha cidade, recusei. Passei nessa mesma Federal, mas em um câmpus bem no interior… aceitei. Queria sair, viver um pouco sozinha, mostrar pra mim mesma que sabia cuidar dos estudos, trabalhar e cuidar da casa.
O plano era simples… mas o obstáculo maior foi meu vô. Ele decidiu me acompanhar "por um tempo". Uma quitinete de 16 metros quadrados, com uma cama… dividida em duas pessoas. Sendo uma delas um idoso… foi o melhor e pior momento da minha vida.
Eu me vi rodeada de pessoas com o mesmo objetivo, centradas e de várias partes do estado. Aprendi muito dentro e fora da sala, tive contato com a profissão e me encantava cada dia mais. Mas quando voltava pra casa… meu vô bêbado, agressivo (porque eu demorei da "escola"), comendo carne bovina crua. Sim, crua… um tipo de sashimi, mas de boi. E piorando cada dia mais. E minha mãe e minha avó não sabiam o que acontecia, porque sempre que eu conseguia falar com elas, ele estava perto falando como eu era péssima neta.
Minhas notas caíam, porque eu mal dormia, rolando no chão. E eu morrendo de medo de um dia chegar em casa e ver o meu vô morto, depois de beber um monte. Ou de ter esquecido o gás aberto. Mil coisas passavam na minha cabeça…
Aí, como toda federal… greve. Voltei pra minha casa, com minha vó, mãe e vô, no dia do meu aniversário, ouvindo muitas coisas… que eu era fraca por não aguentar ficar sozinha, que eu desisto fácil, que eu nem ia ser boa veterinária mesmo… que eu era um caso perdido.
Mas as coisas mudaram quando meu vô continuou a beber e comer carne crua na frente delas. E bebeu, bebeu e bebeu muito. E começou a ficar agressivo, não querer comer (anorexia alcoólica) e ter alucinações. Minha mãe trabalhava durante o dia, eu e minha vó cuidávamos dele. A maior parte do tempo ele dormia, então era fácil. Mas quando acordava era um furacão. Tentava nos matar porque ele queria beber e não deixávamos. Começou a dormir com faca debaixo do travesseiro, xingava e batia sempre que podia em mim e na minha avó. Eu apanhava mais porque ficava entre eles, mas a dor maior era ter largado a universidade pra cuidar de uma pessoa que me agrediu a vida toda, e manter outra pessoa que eu tinha muitas mágoas ilesa das agressões. E os outros filhos não faziam nada pra ajudar. E as despesas sempre ficaram para a minha mãe.
E isso acontece até hoje. Não estudo, não trabalho, não saio pra passear. Meus tios não fazem nada pra ajudar, só cobram as coisas. Um vem aqui pra comer e trazer aquela prima que eu cuidava desde bebê (que está na faculdade agora). O outro viaja com a nova esposa e filho, passeia e quando minha mãe falou da mudança do convênio médico… ele disse pra levar meus avós no SUS. O outro mora em outro país e está incomunicável, e a filha é aeromoça.
Nos últimos anos, conheci meu namorado, que morava em outro estado e veio morar comigo, nessa casa infernal. Ele é um anjo que me dá vontade de viver, me faz sorrir e me ajuda a tratar minha bulimia. Desde que ele apareceu na minha vida, não tentei me matar, sendo que eu tentava desde a minha fuga de casa, aos 10 anos. É difícil conciliar a minha família, mas não posso abandonar meus avós. E nem minha mãe, que já está de idade. E não consigo dar continuidade à minha vida, com um namorado incrível me apoiando.
Uma pressão enorme da família… uma pressão ainda maior interna… só porque sou boa filha e boa neta, não consigo ser boa namorada… e nem sei se um dia serei boa mãe.

