Eu confesso que tentei tudo que podia. Aguentei por anos as sacanagens que minha mãe fazia, mas agora chega. Ela não se importa com ninguém. Pisa, humilha, xinga, bate, faz tortura psicológica. Desde que me conheço por gente, ela só soube bater em mim e no meu irmão. Quando saiu o Estatuto da Criança e do Adolescente, ela falou que iríamos apanhar dobrado se a denunciássemos. Para não deixar marcas nas nossas pernas das cintadas, ela punha um pano embebido com salmoura. Não éramos santos mas nunca desobedecíamos pois sabíamos as consequências. Lembro que uma vez por não saber a tabuada direito, ela me batia cada vez que errasse. Cresci uma adolescente frustada, sem amigos, com medo dela me humilhar na frente dos outros (era frequente ela tirar fotos minhas e dizer que estava enorme de gorda e que era por isso que ninguém gostava de mim). Para me anestesiar, cheirava esmalte ou o tanque de gasolina do carro do meu pai. Meu pai trabalhava o dia inteiro e quando chegava a gente já estava dormindo. Final de semana a gente grudava nele como se fosse a salvação. Com o tempo, ela foi piorando. Chegamos a uma conclusão em casa que ela tem transtorno bipolar ou é esquizofrênica. Uma hora está bem. Daqui a pouco qualquer coisinha é motivo para explodir. Agora ela não perdoa mais ninguém. Meu pai está aposentado e vê os desmandos com frequência. Fiz de tudo: comprar o que ela queria, agradá-la com coisas, levá-la em locais legais. A única coisa que nunca consegui foi dizer que eu a amava. Mas ela destruiu todas as chances. Nunca deu um carinho. Dizia que nós éramos os culpados de suas frustrações. Que deveria ter matado os dois afogados quando nasceram. Minha preocupação é só uma nesse momento: ser julgada por abandoná-la porque não tenho mais condições psicológicas de aturá-la. Tenho 35 anos e hoje ela me acertou cinco tapas na cara. Tentei me defender… Ela tem 58…

