Uma das razões mais fortes pelas quais Vladimir Putin pode ser incapaz — ou não estar disposto — a pôr fim à guerra pode ser ouvida nas suas próprias palavras.
Falando sobre os russos envolvidos na chamada “operação militar especial”, Putin admitiu que muitos já estão preocupados com o que virá depois:
“Quando a operação militar especial terminar, o que vamos fazer?
Eles envolveram-se de tal forma nisto, sentem que estão a participar numa grande causa para a Rússia.
A ansiedade deles é esta: continuaremos a ser tão necessários como somos agora?”
Esta é uma das declarações mais reveladoras que Putin fez desde o início da invasão
Ele já não está apenas a falar sobre vencer uma guerra.
Está a falar sobre um país que se tornou dependente dela.
Após mais de quatro anos de combates, a Rússia pagou um preço enorme. Estimativas independentes colocam as perdas militares russas em bem mais de um milhão e meio de mortos e feridos.
Cada uma dessas baixas representa uma família para sempre transformada, um trabalhador retirado da economia e mais uma cicatriz na sociedade russa.
A pergunta a que Putin não consegue responder é simples:
Para que serviu tudo isto?
O que justificou centenas de milhares de mortes?
O que justificou o isolamento económico?
O que justificou a destruição de uma parte tão grande do futuro da Rússia?
Acabar com a guerra não faria desaparecer estas perguntas. Torná-las-ia impossíveis de evitar.
As consequências iriam muito além do campo de batalha.
Centenas de milhares de veteranos regressariam a casa com ferimentos físicos, traumas psicológicos e expectativas que o Estado dificilmente conseguirá satisfazer. A Rússia enfrentaria custos crescentes com cuidados de saúde, pensões e reabilitação, ao mesmo tempo que teria de lidar com riscos acrescidos de violência doméstica, alcoolismo, criminalidade, instabilidade social e desemprego entre antigos soldados — como aconteceu depois de muitas grandes guerras.
Ao mesmo tempo, enormes setores da economia russa tornaram-se dependentes da despesa militar.
As fábricas produzem agora armas em vez de bens civis.
Regiões inteiras dependem de contratos de defesa.
Uma nova elite política e empresarial enriqueceu com a produção militar, os contratos públicos e a logística da guerra.
Para muitas destas pessoas, a paz não é um bom negócio.
O setor energético russo também enfrenta uma pressão crescente. As exportações de petróleo e combustíveis — o motor financeiro do Estado russo — têm sido cada vez mais condicionadas por sanções, limites de preços, ataques às infraestruturas de refinação e custos logísticos crescentes. Manter as despesas de guerra enquanto as receitas energéticas estão sob pressão torna-se progressivamente mais difícil.
Na prática, o Kremlin transformou a Rússia numa economia de guerra.
O país já não está simplesmente a travar uma guerra.
Está cada vez mais a viver da guerra.
E isso cria um paradoxo perigoso.
Quanto mais tempo a guerra continuar, mais difícil se torna acabar com ela.
Terminá-la sem uma vitória convincente exporia o enorme preço humano, económico e político que os russos já pagaram. E obrigaria a enfrentar uma questão profundamente incómoda: será que todos esses sacrifícios serviram para alguma coisa?
Esta é a armadilha que Putin construiu para si próprio.
A guerra tornou-se a cola que mantém unida grande parte do atual sistema político, da economia e até da identidade que o Kremlin promove há anos.
Um regime construído sobre uma mobilização permanente tem enormes dificuldades em regressar à normalidade.
Isso não significa necessariamente que o conflito tenha de se expandir, mas significa que o Kremlin tem poderosos incentivos para manter a sociedade russa concentrada no confronto com inimigos externos, em vez de enfrentar os seus problemas internos.
Putin não se limitou a começar uma guerra.
Construiu uma Rússia cujo sistema político, economia e estrutura social se tornaram cada vez mais dependentes da continuação dessa guerra.
E esse pode ser um dos maiores obstáculos à paz.
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