Eu confesso que muitas vezes inventamos historias, cremos em historias que nunca foram verdades e nunca tivemos a capacidade e humildade de falar com outras pessoas, simplesmente porque “fulano” não gosta dela e conta historias negativas dela. Já parou pra pensar quantas pessoas foram destruídas pela sua esperteza de denegrir a imagem de outro para se sentir melhor?
Eu nunca acreditei numa fofoca que me contaram sem tentar averiguar a verdade. Digamos que sempre fui desconfiado. A minha melhor amiga falava mal da menina que eu gostava pra tentar me afastar dela. Falava que ela contava que já ficou com não sei quantos caras e aos 13 anos já havia feito sexo com mais de 3 homens. Eu, arrasado, aos 15 anos, sem entender ainda o porque dessas más línguas, quis, mais ainda, tentar aproximar-me dessa garota que tanto falavam. Começamos amigos e pouco a pouco fui perguntando suas histórias e depois de um bom tempo disse o que me diziam dela. Sabem o que ela me disse?
“Olha, “fulano”, desde de pequena eu me sentia o patinho feio da escola, achava todas as meninas lindas e todas elas tinham sucesso com os meninos, coisa que eu não tinha. Dai, pra me sentir melhor e pra estar no meio delas, comecei a inventar historias, pra não me sentir menos. Falei que tinha ficado com vários caras, e pra não ficar pra trás disse que já havia feito até sexo com três. Já sabe, mentalidade de criança sem maldade. Na verdade, eu beijei dois meninos e nunca tive relações com ninguém, mas agora a minha fama já está feita e só agora me toquei.”
No momento que ela me contou eu fiquei alegre e triste ao mesmo tempo. Triste pelo seu sofrimento pela sua inocência e feliz por ela não ser nada daquilo que falavam. Depois de 3 semanas mais ou menos perguntei se ela queria ser minha namorada. Resposta: SIM. Fiquei super feliz, porém mal passaram 2 semanas e vinham as fofocas sobre ela pra cima de mim. Ficava arrasado, tentando dizer que não tinha nada disso, mas ninguém acreditava em mim. E já sabe como é amigo de 15 anos que não nos deixam em paz para que acabemos um relacionamento, que, para eles não tem sentido.
Passaram 1 mês e eu, atordoado e “idiota”, decidi terminar a relação. Já estava desconfiado achando que ela mentia pra mim. Mas qual o sentido de mentir pra um amigo?
É, eu havia dado um passo mais pra minha amiga e ex-namorada cair num buraco de achar que ela não vale à pena.
A guria passou super mal e eu ainda falava mal dela pros meus amigos, sendo que era tudo pra concordar com eles, não que fosse verdade. Cheguei a mentir dizendo que nesse mês que tivemos juntos, tínhamos feito sexo também. Fui um idiota, eu sei, mas adolescentes querem contar vantagem pros amigos e não nos damos conta do mal que fazemos. E agora? Ainda gostava muito dela, demais. Fiquei com outras meninas e ela começou a ficar com outros colegas meus, tudo pra me deixar enciumado. Mas sim, eu ficava com muita raiva, com muito ciúme, mas tinha que me fazer de valentão pros meus amigos. E acabava que todos eles começavam a falar mais mal dela ainda.
Eu já não sabia o que fazer. Nas férias, quando deixei de ver meus amigos e veraneávamos no mesmo local, eu e ela, eu resolvi dizer pra ela que estava arrependido e pedi pra voltar, era o que meu coração queria, ainda que mentalmente, eu não estivesse preparado para lidar com isso com meus amigos. Ela abriu o sorriso mais lindo que já vi de felicidade. O sorriso que me fez perceber que eu era alguém muito importante pra ela e que eu não deveria ajudar a machucá-la mais. Era a pessoa mais carinhosa que eu já conheci. Decidi pra mim mesmo que ia enfrentar a meus amigos. Só que quando chegou a hora, não o fiz. Disse que havíamos voltado com a relação, mas que era algo mais “aberto”, curtição, só pra eu me aproveitar dela.
Nisso de curtição e relação aberta, comecei a sair com meus amigos e sentia um certo clima de que tinha que traí-la pra provar que a relação era assim realmente. Comecei a ficar com outras meninas, no início o mais discreto possível pra que ninguém contasse pra ela. Mas não teve jeito, uma hora chegou a notícia e ela descobriu que eu tinha ficado com outras gurias. Ela, pra não sair por trás, se vingou. Como? Também fez o mesmo. Só que por mais que eu entendesse, quem se dava mal era sempre ela, porque as fofocas sobre ela aumentavam. Eu, o filho da puta, saia sempre de pobre coitado pra todo mundo quando ela fazia alguma “merda” que provasse que ela não valia a pena, ainda que eu soubesse que a culpa era toda minha.
Com isso de trair eu ia ganhando tempo pra não terminar com ela. Mas a relação já estava desgastada demais. Brigas pra lá, brigas pra cá e no final eu sempre tentava colocar a culpa nela pra me sair bem na história. Eu sei, me sinto fracassado por isso. Ela chorava e muitas vezes me pedia desculpas, ainda que eu soubesse que não as merecia. Mentia dizendo que não havia saído com outras meninas e o ciclo foi crescendo.
Ela tentou acabar comigo a primeira vez que descobriu as traições, mas eu consegui reverter a história e ela continuou comigo. Começaram a surgir mais fofocas sobre mim depois de certo tempo e ela começou a desconfiar que eu realmente mentia. As coisas foram piorando. Ela até me disse que queria que eu contasse tudo a ela, mas que eu parasse de mentir. Não fui capaz, por não querer dizer que realmente tinha feito coisa errada.
Na minha família ninguém mais aguentava a nossa relação, minha mãe, meu pai, meus irmãos, meus tios, avós, etc…todo mundo começou a se meter. Mas eu não ia dizer que a culpa era minha, né? Eu cheguei a conversar com uma irmã e disse que havia traído ela no inicio, mas que ela (namorada) me culpava até hoje. Só que minha irmã ficou contra ela, obviamente, e fez a cabeça de toda a família que ela era doente, ou melhor, uma ciumenta sem noção.
Depois de 2 meses (já tínhamos 4 anos de relação), ela resolveu acabar comigo. Disse que tinha encontrado outro cara. Ficamos uns 5 meses separados para alivio de todos. Mas não teve jeito, eu insistia muito pra que ela voltasse, eu queria ela pra mim de qualquer jeito. Me sentia mais culpado do que tudo, mas queria a presença dela na minha vida.
Ela acabou voltando pra mim, pra minha alegria. Porém, os problemas persistiam e não tinha jeito de resolver, já tinha me enrolado demais nessa corda. Depois de outros 6 meses ela me pediu pra acabar novamente. Mas eu não deixava e a infernizava. Dizia que nenhum homem prestava, que ela não ia encontrar alguém como eu, enfim, tentava usar os meus quase 3 anos de diferença para manipulá-la. E ela caia, por pior que pareça.
Ela começou a apresentar problemas de depressão. Ficou muito mal, tomava remédios, as vezes não saia de casa. Ficou quase dois anos assim. Até que se suicidou.
Hoje a culpa não sai da minha cabeça. Entrei num grupo de ajuda que me recomendou contar a história pra todo o mundo, pra que eu percebesse que dizer a verdade, por mais dura que seja, ajuda. Antes que seja tarde demais. Se você tem uma namorada e a ama, não deixe-a ir, seja sincero ao máximo. Hoje minha família, depois de me dizer muita coisa ruim, de como eu pude ser assim, me ajuda ao máximo a superar toda essa dor e culpa que sinto.
A família dela ainda fala com a minha e comigo, porque nunca souberam toda a verdade, mas sabem que nossa relação ia mal. Nunca me culparam. Os nossos pais são muito amigos hoje, ainda que nossas famílias não se juntavam quase nunca para evitar brigas. Meus pais, sentindo-se culpados, quiseram se aproximar mais e ajudar. Ela frenquentava minha casa muito pouco, porque seus pais não a deixavam por ser muito nova. Quando ia, ia escondida ou para alguma reunião de família. Dessa forma, não criou vínculos fortes com os meus familiares.
Hoje, não digo que superei minha perda, mas aprendi muito com ela. Não quero que outras pessoas passem por isso, nem quero que meus filhos sigam meu mau exemplo. Só quero ajudar. Não me julguem, isso eu já fiz demais e já fizeram por mim. Nesta vida, se julgássemos menos, seriamos mais felizes e não geraríamos tantos problemas na vida de outras. O único que deve julgar é Deus. Seja melhor pra você mesmo, procure entender mais as pessoas e seus motivos e cresça com o que aprender. Não erre como eu. Aprenda a AMAR cegamente, o que as pessoas falam não importa. Cada um tem o direito de escolher a pessoa que quer para estar ao seu lado.
Depois de três anos de seu falecimento ainda não fui capaz de me relacionar seriamente com ninguém. Ela ainda segue forte dentro de mim e, muitas vezes, o meu único desejo é encontrá-la onde quer que ela esteja. Ainda a amo como sempre. Foi meu único amor e eu a deixei ir.

