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A família perfeita

Bem, eu sempre tive pais superprotetores. Desde que eu me conheço por gente, não podia ter amigos. Lembro quando passava as tardes trancada sozinha em casa, com 6 anos, e da severa punição que eu recebi quando, um dia, minha mãe e meu padrasto chegaram de carro e eu estava brincando na garagem, por mais que ela fosse toda fechada.
O problema começou a piorar a medida em que eu fui crescendo. Eles tomam todo o cuidado pra disfarçar o controle obsessivo com amor. Diziam que eu posso conversar com eles, confiar neles. Numa dessas, eu, na minha inocência de 12 anos, acabei contando pra minha mãe que estava gostando de uma menina da minha escola. A partir daí, minha vida se tornou um inferno. Fui forçada a fazer um "tratamento" com uma psicóloga da igreja, todas as noites ouvir xingamentos da minha mãe, que no meio da noite entrava no meu quarto e sentava na cama, pra falar sobre o desgosto que eu a dava, como eu nunca ia ser ninguém na vida, como eu era doente, nojenta, e só deus poderia mudar a minha vida.
Por muito tempo eu vivi achando que só tinha pais homofóbicos, e que isso era algo que se resolveria com o tempo, ou que eu teria uma vida melhor quando saísse de casa. Mas hoje é impossível manter um diálogo. Tem uma tática desgraçada de de me provocarem, com tapas, empurrões e palavras pesadas até eu me irritar, e aí, dar razão para eles me punirem. Eles são conhecidos por todos por serem a família perfeita, tem cargo na igreja e dão cursos de como salvar casamentos. Pra construír essa imagem, precisavam logicamente jogar todos os problemas pra cima de alguém. Hoje eu sou conhecida como a filha rebelde, doente, bipolar, difícil de lidar, que o Satanás usa para tentá-los. É duro ouvir isso saindo da boca deles, sendo que eu nunca dei uma única dor de cabeça, sempre me esforço para ajudá-los em tudo, sempre me adequo ao que eles dizem que é certo, sempre evito discussões, acompanho, ajudo, mas pra qualquer necessidade minha sou eu que não me esforço pra que eles estejam felizes. Eu já atingi o meu limite, e não tenho com quem conversar, já que eles cuidaram pra que o meu círculo social resuma-se a pessoas da igreja que eles sabem que nunca desconfiariam sobre as vezes em que ela apanhou dele, que eu apanhei dele, que eu tentei evitar as brigas e acabei levando a culpa dos dois lados.
O que me cansa é ser vista como a que precisa de tratamento psiquiátrico e de "deus na vida", enquanto toda a merda cai sobre mim e eu não posso dizer nada. Eu sei que nunca vou saber o que é ser amada pelos pais, mas eu só queria respeito, e poder ter uma vida normal. Sair pra comer uma pizza com os amigos, ir a praia, a aniversários, poder sorrir e confiar em alguém. Sinceramente, com 17 anos, eu não enxergo uma solução se não fugir daqui ou morrer.

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Escrito por Anônimo

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