Nunca tive uma boa relação com a minha mãe. Passei a minha vida toda sem comprender o porquê, sem perceber o que eu tinha de errado e porque era tao odiada por ela. Hoje tenho 25 anos e começo a compreender o porquê de algumas atitudes. Ela nunca nutriu qualquer tipo de sentimento positivo para comigo. Abandonou-me em bebé. Entregou-me à minha avó, a mãe dela, que cuidou de mim até à minha adolescência. Era raro ligar-me. Creio que passavam-se anos que não me contactava. Era criança e imaginava sempre que não ligava porque nao podia, porque nao tinha telefone ou não tinha dinheiro para ligar. Mas a minha avó dizia-me muitas vezes que ela não gostava de mim. Lembro-me de poucos telefonemas dela e havia sempre uma desculpa. No início da minha adolescencia fui visitar os meus pais pela primeira vez e adorei. Era muito bem tratada. Passeavamos, brincava com o meu irmão e tinha alguma liberdade. Com a minha avo era diferente, nunca saia de casa e ela prendia me muito. Sempre foi demasiado protetora. Na segunda visita aos meus pais decidi que queria viver com eles. Tratei das coisas e uns meses depois já la estava a viver com eles. Nunca me questionei sobre o porquê do abandono. Nem via a situação como abandono. Amava a minha mãe e queria ser igual às minhas amigas. Ter uma mãe de verdade, uma família, com mãe e pai. No início as coisas correram bem, mas com a rotina, tudo começou a complicar. Nao levou muito tempo ate começarem os maus tratos fisicos e psicologicos. Tudo o que eu fazia estava mal. Eu esforçava-me tanto para fazer as coisas bem. Ela acusava-me de ser a responsável por me ter abandonado em bebe porque fiz uma birra e que queria ficar com a minha avo. Que a culpa tinha sido minha. Agredia-me com uma violência extrema. Tudo o que eu fizesse irritava-a. Quer fosse bem feito, quer mal feito. Ela chegava a contradizer-se so para ter um motivo para me bater. Foram muitos anos de sofrimento em que eu não conseguia compreender o porquê. Fazia tudo o que ela me pedia e o que não pedia. Limpava tudo todos os dias e se algo nao estivesse em condições ou batia-me, ou deixava de me falar durante dias. Chegou a estar mais de um mês sem me falar, e eu a fazer tudo quanto podia para ser a filha perfeita, para poder ter a mãe que tanto desejava. Em tempos de escola por vezes ia a casa das minhas amigas e chocava me a forma carinhosa com que as suas mães as tratavam. Saia de lá com lagrimas nos olhos sem perceber o porquê de nao ter uma mãe assim, que gostasse de mim e que me tratasse bem. Elas tinham uma vida normal. Chegavam a casa e podiam ir para o quarto. Nao tinham que limpar nada. Nao tinham que levar porrada. Só havia amor. Nunca soube o que era ter algo assim. Invejava aquela relação de afeto. O meu maior desejo era poder sentir o mesmo. O pior era quando eu chegava a casa e deparava me com a minha realidade, tao diferente da realidade das minhas amigas. Estar em casa era um pesadelo. Estar de férias era um pesadelo. So estava bem na escola. Ela fazia me coisas macabras quando engravidou de novo. Nessa altura a situação piorou pois ela estava muito mais instavel. Chegou a atirar me uma faca, que por sorte nao me acertou. Eu praticava um desporto e ia todas as semanas. Mas naquela semana, cheguei a hora do costume e ela meteu na cabeça que não tinha estado a praticar o tal desporto. Eu comecei a chorar e a dizer que tinha estado sim e ela ficou furiosa e atirou me com uma faca! Como é que eu me sentia nessas situações? Sem chão, sem teto, sem nada! Um desespero incalculável. Um desamparo sem medida. Chorava a noite inteira. So ia respirar quando aquele pesadelo acabasse. A violência era extrema. Os socos, os pontapés, os puxões de cabelo, os nomes que me chamava. Mas porquê? Que mal fiz eu àquela mulher? O que é que eu estava a fazer de errado? Apesar de tudo conseguia ter boas notas! Submetia-me às suas ordens. Se eu fazia X, batia-me. Se a alternativa a X era Y, e se eu fazia Y, batia-me porque devia fazer X. Contradizia-se para ter uma desculpa para me bater. Paralelamente a isso, ela tinha amantes, e eu sabia de tudo. No entanto ela não sabia. Encontrei uma foto de um homem e rasguei-a e guardei no meu quarto. Ela provavelmente deu por falta e foi procurar nas minhas coisas, pois quando fui ver já la nao estava. Nunca se falou do assunto. Mas a partir daí, o que eu achava ser impossível de piorar, piorou. Eu não vivia, sobrevivia, na esperança de um dia sair de casa. Com o passar dos anos, começou a bater me com menos frequência. Mas não me falava. Meses e meses sem me falar. Eu só servia para limpar a casa e tomar conta dos meus irmãos bebes. O ultimo verão antes do pesadelo acabar foi assim. Um verao inteiro fechada em casa a tomar conta de dois bebes. Se saisse à rua ou se fosse à casa da vizinha, ela ligava para o meu pai a fazer queixa, tirava-me o telemóvel, ou batia-me. Chamava-me todos os nomes possíveis. Dizia que eu não prestava. As minhas amigas convidavam-me para as festas, sem lhes passar pela cabeça o pesadelo que estava a viver. Mas claro que não podia ir. Servia de consolo saber que um dia aquilo ia acabar e aí ia poder ter uma vida normal. No entanto, nesse verao tive uma depressão. Adoeci (bronquite) e chorava com a dor provocada pela força para respirar. Ela não me falava mas mandava bocas a dizer que de noite estava mal mas de dia não estava porque fui à casa da vizinha (ela descobria porque o meu irmão fazia queixinha). Ate na folga dela eu ficava com os bebés e ela ia passear. Era raro ela ver os bebés, pois quando chegava eles já dormiam. Historias atras de historias, todas mais ou menos parecidas, todos os dias. Começou a escola em setembro. Na vinda para casa, o meu irmão (mais novo que eu um ano) andava rápido para chegar antes de mim. Quando cheguei a casa, um pouco depois do meu irmão, ela disse: Vamos ter uma conversa muito séria! (ela já não me falava ha meses, tal como tinha dito. Ate passava por mim na rua e nao me falava e as minhas amigas perguntavam-me se não era a minha mãe e porquê de nao me ter falado). Começou a puxar-me a dar-me socos, caí no chão,começou a pontapear-me, levantou-me pelos cabelos, deu-me socos, chapadas. Enquanto isso dizia-me que eu não mandava em mim, que tinha que vir para casa junto com o meu irmão e que ha meses fazia as coisas como queria. Estava a janela aberta, tentei saltar. Ela puxou-me, caí no chão e continuou a bater-me. Mas consegui soltar-me. Corri até à porta, que ainda estava aberta e fugi. Ela ainda correu atras de mim mas não me apanhou. Cheguei a casa da minha tia com a roupa toda rasgada, toda arranhada e vermelha. Nem queriam acreditar no que estavam a ver. A partir desse dia fiquei a viver com eles e sempre tive o apoio do meu pai. Tive cerca de um ano sem falar com ela mas depois a situação proporcionou-se. Nao consegui falar, só chorava. E ela com aquela frieza toda a falar para outra pessoa que estava presente: Eu já lhe disse, quando ela quiser voltar, a porta ta aberta. Depois disso, falava com ela quando a via. Os meus pais separaram-se e eu fui viver com o meu pai. Fui para a universidade, fora da minha cidade, e quando regressava de férias, ainda tinha algum contacto com ela. Mas desde ha dois anos esse contacto deixou de existir. Nao lhe fiz mal nenhum, mas ela como sempre acusa me de tudo e mais alguma coisa. Para ela eu não presto e sou o pior ser que existe à face da terra. Engravidei e sempre pensei que ela no fundo gostava de mim e que iria dizer me alguma coisa. Que iria querer conhecer a neta. Mas não! A minha bebe já tem sete meses e não tive nenhuma palavra daquela mulher. Como é que é possível existir alguém assim? A minha mãe é uma pessoa extremamente simpática. Tem amigas e as amigas admiram a sua personalidade. É extremamente querida e trata bem toda a gente. Ninguém imagina o monstro que ela foi comigo. Ela trata bem toda a gente. Tenho dúvidas sobre o que diz às pessoas sobre mim. Nao acharão as pessoas estranho que não fale com uma filha? Obvio que deve contar as coisas consoante a sua realidade distorcida. Mas deverao essas pessoas que a adoram acreditar, achar a situação normal e ainda ficar do lado dela? Hoje sou mãe e esperei muito por esse momento. Nao só pela experiência maravilhosa, mas também para poder compreender o que é estar do lado de mãe. Esperava obter respostas, respostas essas que não as tive. Amo ser mãe. Sou mãe com todas as células do meu corpo e amo aquele ser com tudo o que é de mim. É algo que me transcede, é um amor tão grande que chega a doer-me o peito. Fico grata por nao ter transposto a relação que tive com aquela mulher para a relação que tenho com a minha filha, pois sabe-se que os padrões tendem a repetir-se. No meu caso nao aconteceu. Dou tudo de mim com todo o amor e dedicação. E hoje percebo: A culpa nunca foi minha. Se muita vez pensei que podia fazer melhor para que ela pudesse gostar de mim, hoje penso que fiz demais. Mendiguei por um amor que nunca chegou a acontecer. A culpa nunca foi minha. A culpa não foi da birra que fiz enquanto bebe. A culpa não foi daquela jovem desamparada. Nunca foi! Hoje percebo que não havia nada que pudesse fazer. O mal é dela. Hoje amo uma filha e era incapaz de lhe fazer mal. Quem é mãe de verdade ama e só quer o melhor do melhor para os filhos. Nao manipula, não usa para benefício próprio. Nao machuca, nao destrói um coração pequenino. Ainda hoje sofro. Sinto as sequelas todos os dias e sei que se irá manifestar para o resto da minha vida.

