Eu era uma criança feliz, extrovertida, rodeada de amigos e com uma energia inesgotável, beirando à hiperatividade. Com o passar do tempo, a vida foi deixando de ser tão prazerosa. Meu pai era alcoólatra, agredia a minha mãe na minha frente, chegava a ameaça-la de morte. Eu vivia aterrorizado com a ideia de perdê-la tão cedo. Apesar de eu me importar tanto, me sentia desprezado por ela, que sempre demonstrou gostar mais do meu irmão mais velho. Meu pai, por outro lado, deixava o meu irmão de lado e ficava mais comigo. Por causa de tudo isso, fui me tornando mais disperso, introspectivo e passei a ser motivo de piada na escola. Um grupo de pessoas que eu achava que fossem meus amigos me humilhavam diariamente. Eu tentava me defender, cheguei a bater em dois deles, revidava as provocações, mas era inútil, eram 4 contra 1, todos os dias, durante anos. Eles usavam tudo o que eu um dia disse a eles contra mim e se divertiam com o meu sofrimento. Zombavam do fato do meu pai ser alcoólatra, ameaçavam contar a uma menina que eu era apaixonado por ela, sem que eu quisesse, faziam graça de tudo o que eu falava, imitavam meu jeito de falar, de andar, de fazer qualquer coisa, me chamavam de demente, débil mental, e faziam tudo isso na frente de todo mundo. Obviamente, as pessoas não se aproximavam de mim, e eu fui ficando cada vez mais isolado e distante de tudo. Eu desenvolvi um verdadeiro medo das pessoas. Meu coração disparava quando via qualquer grupinho que fosse, e a minha reação era correr que nem um louco. E era justamente isso o que eu ouvia as pessoas falando na calçada da minha casa, sem que eles soubessem, claro. Familiares diziam que eu era estranho e que precisava de um psicólogo urgente, meus pais reclamavam que eu não falava com ninguém. Lembro que uma prima me apelidou de um personagem chamado Pluft, um fantasma que tinha medo de gente. De fato, era exatamente como eu me sentia e me sinto até hoje, com 24 anos. O medo virou repulsa, e apesar de mais sociável, não consigo desenvolver laços, nem demonstrar meus sentimentos aos outros, nunca namorei sério, não tenho amigos, apenas alguns conhecidos. Como eu vou me aproximar assim das pessoas se eu tive que aprender cedo a desconfiar delas? Eu sei que nem todo mundo é mal, mas existe um abismo entre eu e os outros que não consigo desfazer assim tão fácil. Hoje em dia não sou mais humilhado ou desrespeitado, as pessoas me tratam bem, mas eu criei uma casca difícil de ser quebrada, uma barreira aos que tentam se aproximar. Além disso, perdi completamente o entusiasmo, me sinto cansado o dia inteiro, e me vejo em um caminho sem volta. Enfim, a única coisa que eu quero no momento é recuperar um pouco do que eu já fui um dia, me sentir vivo novamente. Desculpa tanta informação, nunca falei disso com ninguém e acabei guardando tudo dentro de mim por muito tempo.

