Gostaria de começar pedindo desculpas. Eu falhei, não é mesmo? Não é isso que dizem quando sua morte não é natural? Já posso sentir o gosto de hipocrisia que exalam no ar, sinto-o em meu túmulo. Não tente me acordar, já está feito. Consigo ouvir o gemer de dentes proferindo mentiras sobre a minha pessoa – até quando estou morta não sou deixada em paz – ou vai me dizer que não pensou que eu sou egoísta? E que me retirei deste mundo porque não sabia lidar com os problemas comuns do cotidiano? Burra e louca, vocês vão dizer. Vão cuspir meu nome em vão. Todas as vezes que fiz uma vã tentativa em tentar me abrir, escutei as seguintes palavras “se você está dizendo, não vai fazer” e “procure um psicólogo que tudo isso passa”. Bem, não estou colocando a culpa de minha morte na ignorância de alguém, mas na falta de empatia que me transmitiram. O amor me foi negado. Não se preocupem, não vou ser uma Hannah Baker e deixar algumas fitas revelando os demônios de cada um de vocês, pois nem isso merecem de mim. Para o mundo, eu era apenas a bonita do Facebook, a garota enjoada que não interage com ninguém, a exibida que se passa por depressiva nas redes sociais; eu era tudo menos uma humana. Eu precisava de Deus, diziam. Posso dizer que sempre precisei e sempre o tive junto a mim, mostrando sua presença no vento que tocava meu rosto, nas árvores dançantes, no sol, na chuva e nas músicas. Deus nunca tirou minha vontade de viver, e as minhas desculpas são apenas para Ele: perdão por não aguentar a carga do fôlego de vida, foi pesada demais para mim. A dor é como um enxame, você pisa em uma abelha na tentativa de se proteger e toda uma colmeia surge para te devastar. Não vou dizer que nunca vivenciei felicidade, mas a sentia em forma de pequenos lampejos, nada duradouro. E quando essa me deixava, eu era consumida novamente pelo buraco no meu peito, que crescia linearmente com os dias em que eu ainda lutava para estar aqui. Você sabe como é acordar todos os dias exausto por não ter uma noite bem dormida há semanas? Por acordar todas as madrugadas e não ter forças sequer para derrubar lágrimas na busca de aliviar toda a culpa, desespero e solidão em não aguentar conviver mais consigo mesmo? Você sabe como é a sensação de se olhar no espelho e não se reconhecer? O que eu fiz comigo, eu me perguntava. Onde estão meus olhos brilhantes? Meu sorriso infantil? O meu jeito determinado e sonhador? Posso compartilhar a resposta contigo, pois agora a tenho: estão enterrados comigo. Não mais sentirei a dor e o sufoco de andar entre muitos e não ser vista por nenhum. Então eu queria atenção, tu pensas. Nem um pouco. Eu queria pertencer e ser igual a todos, mas como aceitar e me conformar em viver em um mundo como esse, me diz. Como me tornar fria, impenetrável, invencível, autossuficiente, assim como os sobreviventes? Um para a Seleção Natural e zero para mim. Pode chamar minha partida de xeque-mate, mas quem fica e sofre agora é você. Desculpa por abrir teus olhos, deixo aqui meu desabafo e alguns átomos no ar, nada mais.

