Eu confesso que não tenho aguentado mais sofrer. Tenho 23 anos, vivo sozinho numa pequena cidade onde tudo que é “diferente” é discriminado. Além das pessoas discriminarem, sou eu o maior preconceituoso em relação ao meu próprio sentimento. Com 19 anos conheci um rapaz que também tem a mesma idade que eu. Conheci ele quando fui estudar em outra cidade. Nos tornamos muito amigos e essa amizade tomou outro rumo para mim. Comecei a gostar dele mais do que amigo e desde essa época comecei a reprimir meu sentimento. Ele sempre confiou muito em mim, sempre contou muito com a minha amizade e eu nunca tive coragem de falar sobre meu sentimento. Morei próximo dele durante dois anos e depois minha vida tomou outros rumos e o sentimento me acompanhou. Sofro muito por amá-lo e por sentir por ele o que deveria sentir por uma mulher. Já faz quase 5 anos que carrego esse sentimento comigo e sofro muito por isso. Há menos de um mês terminei um namoro com uma mulher por conta disso. Tento naturalizar esse sentimento dentro de mim, mas não consigo. Não acredito que é possível ter uma vida natural assumindo uma relação homossexual. A sociedade é muito preconceituosa e machista e por mais que exista pessoas que respeitam os direitos dos outros, sempre haverá aqueles que julgam, que satirizam, que não aceitam a condição do outro. Além disso não tenho coragem de dizer tudo que sinto a esse meu amigo, ele é uma pessoa muito focada nos seus objetivos, é um rapaz de família e muito querido pela própria família e pelos amigos. Seria muito difícil para ele também assumir uma relação deste tipo. De um tempo pra cá comecei a pensar na impossibilidade de promover esse meu sentimento e partir disso estou me esforçando para conseguir ter uma vida heterossexual, mas a sexualidade é muito mais do que “querer”. Não depende de escolha, no meu caso, o sentimento é muito diferente e sinto muito quando vejo algumas pessoas apedrejarem quem assume sua condição homossexual. Por mais que exista um desejo de mudança não é um simples caso que se resolva apenas por opção, parece ser condição. Eu tento ser feliz escondendo meu homossexualismo, mas é um fardo muito grande sentir tudo isso. Eu não seria tolerante o suficiente para aguentar brincadeiras de mal gosto sobre minha condição sexual, eu não teria flexibilidade suficiente para aguentar pessoas que julgam sem conhecer e colocam quem tem essa condição nas margens da sociedade. Enfim, não consigo pensar, eu mesmo, nessa condição assumida socialmente. As vezes sinto que estou “condenado” ao sofrimento enquanto viver. Ao sofrimento da não autoaceitação, ao sofrimento do preconceito de si próprio. Além disso não consigo fazer nada efetivo para mudar minha situação e vejo que a vida passa dia por dia sem que eu viva de fato. Tenho trabalhado e estudado muito e além do mais pensado e pensado sobre a vida, mas viver de fato pouco tenho vivido. Vivo reprimindo meus sentimentos, minha irrealização pessoal. Vivo desejoso de realidades que parecem estar tão distantes de mim, vivo na idealizada vontade de ser menos moralista, menos reflexivo, menos calculista, mas nem sempre consigo ter atitudes que efetivam essas idealizações. Depois de muitos meses sem contato com esse meu amigo, no qual amei mais do que deveria amar um amigo, recebi uma ligação dele nessa semana e conversei com ele como se tivesse conversando com uma pessoa que não tinha contato há um tempo, somente assim eu me comportei e me anulei mais uma vez, matei o sentimento dentro de mim mais uma vez. É muito difícil isso. Não sei até quando eu vou viver essa situação e confesso que gostaria muito, muito mesmo, de superar essa situação. Queria dar a felicidade a mim mesmo de ser um homem “normal” tendo minha família, tendo minha esposa, dando netos a minha mãe e trazendo alegria para os que convivem comigo. Além disso e até mesmo antes disso, gostaria de ser feliz, de ser aceito pela sociedade, de ser um homem que não quebrou as “regras sociais”, porque no momento vejo que felicidade depende disso. Assumir o homossexualismo na nossa sociedade é o mesmo que encarar a correnteza. E eu não teria condições para isso, mesmo querendo muito viver algumas experiências. Há quem se anula a vida inteira por não ter forças para remar contra a correnteza. Aproveitei esse espaço para colocar pra fora meu sentimento. Alguns irão me criticar pelo meu próprio preconceito comigo mesmo. É de fato um preconceito comigo mesmo e não com os outros. Quando vejo pessoas que assumem socialmente suas condições, de fato “tiro o chapéu” porque vejo como um sinal de heroísmo e de garra verdadeira. No momento eu me vejo incapacitado para isso.

