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Abortei o Filho do Diabo

Meu nome é Maria das dores, tenho dezessete anos e moro em Santana de Parnaíba/SP.
No período desse relato, estava apenas com quinze. Cresci em família evangélica, ainda que não lêssemos a Bíblia e frequentássemos muito pouco o culto. Em suma, éramos quase católicos. Não vinzimávamos, eu frequentava o forró e tinha todos os CDs do Frank Aguiar e da banda Callypso. Minhas amigas iam à igreja do senhor e voltavam radiantes, dizendo que era um homem muito sábio e que sempre as convidava para lanchar depois do culto. Eu não me importava.
Um dia, apareceu minha perdição. Tinha um metro e sessenta, um sorriso branco com quase os dentes todos e pinta de Reinaldo Janequine. Ele frequentava um terreiro de espiritismo na periferia da cidade, fazia macumba e também um pouquíssimo assim de maçonaria. Ele chamava-se Geison, mas todos chamavam-no de Galinha, por ser sempre muito galanteador. O pior, é que um dia ele começou a me tentar também. Como sou fácil acabei me entregando aos prazeres da carne, e fizemos amor desprotegido.
Algumas semanas depois minha mãe passou a me olhar de maneira muito esquisita, sempre com perguntas indiscretas. Eu estava com a barriga avantajada e vomitava o tempo todo, por isso fomos a um médico do SUS que na hora diagnosticou que tratava-se de verme. Tomei um xarope especial que não fez efeito algum, e a barriga continuava a ficar mais maior, me causando náusea constantemente.
Retornei ao médico e desta vez pagamos a consulta. Ele fez um exame chamado ultra-som, onde para espanto de nós duas disse que tratava-se de uma gravidez. Na hora as forças me fugiram e precisei agarrar-me na cadeira para não desmaiar. Fizemos o chamado pré-Natal o que era estranho pois ainda estávamos em março.
Meu pai logo descobriu, tirou a cinta e pensou em me bater, mas conteve os impulsos de educar-me e respirou fundo. Ele, mais calmamente, falou:
– Não se preocupe minha filha, eu irei atrás deste cafajeste que abusou de sua inocência e farei-lhe pagar todos os custos desta criança.
Ficamos eu e minha mãe assombradas pois ele levou o 38 junto e achamos que ia matar a família toda.
No dia seguinte o Galinha desapareceu da escola.
Cheguei à uma amiga minha e perguntei:
– Cleide, você viu o Geison por aí?
– Está falando do Galinha? Hahaha, ele deu no pé.
Logo percebi que estava na pindaíba, descabida de tudo. Chorei muito aqueles dias, chegando à revelação que o único lugar onde encontraria apoio seria na igreja. Encontrei o pastor Clodoaldo, sentado em um dos bancos, o pensamento imerso.
Naquele dia o senhor me apontou os caminhos corretos para voltar aos trilhos. Depois de muitas horas de descarrego na piscina sagrada finalmente estava liberta do demônio e pensando com muito mais clareza. Então o senhor me esclareceu que Geison, por ser espírita, tinha me posto mau-olhado e com isso engravidei do filho do diabo. Para pôr fim a maleita precisaria remover o encosto da minha vida com um óleo ungido de Israel.
Como era muito caro tivemos que vender a nossa Brasília branca 79 e eu precisei abandonar a escola, mas quem era eu para contestar as ordens do Altíssimo.
Tomei o xarope e após algumas cólicas consegui me libertar do menino-demônio que saiu de mim de ponta cabeça como se estivesse em posição de flor de lótus, da umbanda-budista.
Hoje estou muito bem e feliz com o meu noivado arranjado pela igreja. Sei que o Barnabé tem 64 anos, e na verdade eu até gostaria que o senhor tivesse arranjado uma cédula no sorteio de alguém com uma idade perto da minha, mas sei que é um homem muito ocupado, então deixa pra lá.

Maria das dores

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Escrito por Anônimo

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