Eu confesso que sinto um vazio muito forte no peito. Depois de não ter ido tão bem quanto eu esperava no ENEM, fiquei assim, parado, sem reação. Deito na cama e olho o teto, sento-me para conversar com alguém e não tem nada para falar. Meu pai me liga, e a conversa não passa de 30 segundos.
Sempre fui um cara que estipula metas, porém desanimei muito ultimamente.
Tenho o dom de me distanciar das pessoas (não consigo correr atrás de ninguém, não importa se não gosto, gosto ou amo a pessoa, simplesmente finjo não me importar e se for desejo da pessoa partir, deixo que faça – gostaria de saber se isso é ruim e preciso melhorar), meus amigos estão todos distantes, não tenho falado muito com pessoas que eu pensei que nunca sairiam da minha vida. Estava gostando de um rapaz da minha sala de cursinho e devido o fato dele ser hétero, demorou, mas consegui esquecê-lo – porém não surgiu mais ninguém que me interessasse.
Sinto angustia, mas não tristeza. Sinto mais o vazio do que a dor de existir. Não serei hipócrita e contrariando a música de Arnaldo Antunes, não peço socorro por não sentir nada, pois sinto, sinto o vazio de não sentir coisas que eu acredito serem inerentes da espécie humana, característica esta que às vezes penso que não cabe a mim.
Ando também com a autoestima baixa, não sou feio, até que sou bonito, talvez o que me falte é atitude, no entanto não nasci para a ‘arte da azaração’. Acreditem, existem homo nerds que são tímidos, fora de moda e nem um pouco efeminados. Esse é meu caso, gosto de homem, adoro sexo, mas como quieto, ninguém precisa saber.
Não sei porque falei da minha vida sexual (que nunca foi ruim inclusive – exceto atualmente)
Sinto-me estranho. Primeiro porque às vezes acho que não sou humano, penso que talvez eu seja um lobo, porque lobos são seres que, reza a lenda, preferem ficar a sós. Acho que esse é meu caso. Não que eu não goste da presença humana, aliás, dependendo da pessoa, é o que mais me agrada, mas é que parece que cada dia que passa estou cada vez mais parecido com um lobo solitário.
Por falar nisso, muitas vezes me surpreendo quando percebo que sou humano. Coisas simples como alguém se importar comigo, me abraçar verdadeiramente, fazer uma pequena gentileza, me elogiar – essas coisas me fazem ter sentimento de pertencimento. Pena que são raras. E isso é culpa minha, claro. Eu que tenho me isolado das pessoas.
Ok, se você leu minha confissão até aqui, chegou a hora de eu falar de coisas gays: Estava perdidamente apaixonado por um garoto louro da minha sala. Ele não é lindo. Possui traços eslavos proeminentes. Mas para mim era (é, apesar de eu já tê-lo superado) lindo, além de inteligente, humilde (apesar de ter dinheiro), quieto, sossegado. Era exatamente o cara que eu procurava. Alguém que pudesse me explicar Kant e teoria quântica ao mesmo tempo – esse é o Christian (nome verdadeiro dele, inclusive). Comecei então a ter crises existenciais, na verdade eu confundia um pouco o fato dele ser hetero com rejeição, pensava que mesmo se ele fosse gay, não quereria nada comigo. Mas ok, passou. Foi um dos centenas de caras que eu deixei passar sem ao menos conhecer. Todos os caras que conheci até hoje (que transei, namorei ou apenas beijei, foram caras que chegaram em mim, pois como disse, não sou desses que correm atrás de suas presas, apesar de me sentir um lobo).
Odeio ser passional, muitas vezes evito demonstrar que preciso de amor em minha vida – traço que talvez você perceba ao longo da confissão. Na verdade, preciso de alguém que cuide de mim. Gosto muito disso, apesar de ter sentido poucas vezes. Já senti essa proteção em braços femininos inclusive, só que é mais raro e por isso não considero-me bissexual.
Quero voltar a perseguir minha meta, que é cursar direito na São Francisco. Quero encontrar alguém que me ame (sim, existem gays que querem isso – a longo prazo quero constituir uma fmaília). Quero parar de sentir esse vazio que faz eu achar que não sou humano.

