Eu sou um rapaz mentalmente perturbado.
Mas eu sou legal.
E não é por que sou eu que digo, é por que é verdade.
Se você sofre muito, mesmo tendo muitos amigos e pessoas que gostam muito de você, é por que você é legal.
Legal até demais.
Daquele tipo que faz tudo pelos outros.
Que nunca diz não.
Daquele tipo que tenta rir das piadas até quando elas não têm graça.
Daqueles que escuta as confissões mais pesadas sem pestanejar ou preconceituar. Só ouve.
Eu sou legal de um jeito só meu, eu acho.
Eu tento não magoar as pessoas.
E eu conseguiria se eu não fosse eu.
É…
Eu magoo as pessoas quando estou triste.
E eu estou triste a maior parte do tempo.
Eu fui super protegido e sofri traumas na infância.
Sou um rapaz esquisito.
Esquisito era meu apelido no colégio porque eu não falava com ninguém.
Eu não falava porque achava que ninguém iria querer falar comigo. Ou talvez porque nunca tenha entendido as relações sociais baseadas em humilhações e brincadeiras de mal gosto.
Eu cresci triste.
Achava que era normal ser machucado.
Sentir o que eu sentia.
Deixar minha tristeza de lado e dar atenção a todos como eu queria que tivessem dado a mim.
Eu achava que se ninguém notava é porque eu não era triste.
E eu deixei o tempo passar até a tristeza me consumir e me levar ao primeiro surto psicótico.
Fiquei “fora do ar”.
Durante uma semana.
Fui internado porque no penúltimo dia eu cortei meu pulso esquerdo e um tendão.
Eu não lembro disso, é claro.
Mas eu fiz.
E acordei dopado.
Num lugar estranho.
Com um corte horrível e uma tristeza profunda.
Eu fui legal com muita gente e essas sequer tiveram coragem de notar que uma semana da minha vida fora tomada de mim.
E quase fui levado pela morte sem nem mesmo ter a chance de saber porquê.
Tentei fazer meu mundo um lugar melhor.
Tentei fazer sempre o certo.
Mas não é assim que a vida funciona.
As pessoas vêm e vão.
O mundo dá voltas.
E você não pode evitar de se machucar.
Eu sei.
Mas eu só queria que as pessoas fossem boas umas com as outras só pra variar. Fossem legais comigo também.
Hoje eu estou muito triste e numa depressão em que mais uma vez ninguém nota.
Por que eu aprendi a engolir o choro.
A sorrir quando não há graça.
A deixar meus problemas de lado e prestar atenção no próximo,
Aprendi a ser só mais um tijolo no muro da vida das pessoas.
E quando alguém me vê triste eu digo a verdade.
Digo sorrindo.
“Eu não estou bem, mas não se preocupe, vai tudo acabar bem”
Por que vai mesmo.
Alguns têm medo que eu me mate de novo.
Porque não tomo mais os remédios ou porque eu tenho andado calado demais.
Eu sinto uma dor imensa.
Lá no centro, me sungando.
Como se eu fosse implodir…
E nada faz sentido.
E nada mais me faz bem.
O trabalho.
A faculdade.
Morar só.
A namorada.
Os amigos.
Família.
E eu me sinto vazio.
Não consigo parar de olhar minha cicatriz e lembrar que não lembro das razões de tê-la feito.
Está claro agora.
Eu me sinto só.
E já fui chamado de covarde e egoísta quando disse que queria morrer.
E eu não me defendi.
Eu sorri e me vesti para ir à festa.
E ninguém reparou que eu não pensava que era mesmo egoísta…
Eu ainda estou sendo legal.
E as pessoas ainda me matam aos poucos.
Elas preferem que eu viva numa depressão infinita a me perderem.
Eu realmente estou sendo egoísta?
EU?
Eu sou legal.
Eu escolhi sofrer sozinho.
Não quero dar trabalho a ninguém.
Não mais.
E só porque mencionei (já depois de ter tentado, ainda que inconsciente!) me matar, apenas como uma opção.
Eu ameacei o equilíbrio do muro delas. Eu só aquele tijolo que está saliente…
pronto pra cair.
No meio de tantos outros tijolos, ninguém me nota, mas basta tentar sair desse muro infernal e “abalar” que começa o reboliço.
NÃO era ASSIM que eu queria ter sido notado.
NÃO ERA ASSIM!
Eu queria que tivessem conversado comigo! SEM QUE EU TIVESSE que PAGAR 300 reais a hora e tomar remédios!
Eu queria que tivessem me notado como eu os notei.
Na verdade EU queria ter me notado…
Agora eu estou aqui.
Sentado.
Sozinho.
No escuro.
Comendo maçãs.
Me confessando pra todo mundo e pra ninguém que eu estou enjoado de maçãs, mas eu preciso comê-las. Eu estou juntando as sementes.
E já tenho 419.
E quando tiver 600 eu vou tomar meu suco favorito com as sementes batidas.
E então tudo vai acabar.
Vai ser HORRÍVEL.
Mas eu fico enjoado só de pensar em me jogar de uma ponte, ou cortar a jugular ou os pulsos de novo. E não vou tomar veneno pronto.
Nem me enforcar.
Enfim, não vou me matar dessas formas.
Não vou deixar bilhetes.
Nada.
Essa conversa de maçãs é só pra ganhar tempo e não dizer pra mim mesmo que não tentei durante a contagem das sementes.
Ou é pra dar uma ultima olhada no mundo.
Uma última dobra nas esquinas…
E principalmente porque eu finalmente me mudei, estou morando só, me sustentando com meu próprio dinheiro e só devo a mim mesmo.
Mas não estou feliz.
Nunca estive. E sinto que estou quase tendo outro surto. E antes que eu morra sem querer…
É como eu prometi antes:
“Não se preocupe, tudo vai acabar bem”
Atenciosamente,
O tijolo saliente no muro.
(ESSA É A VERSÃO CORRETA, a outra publicada saiu no lugar errado com as informações erradas… não que isso importe, mas…)

