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Arrependido

O que tenho a contar aqui, me assombra desde a infância.

O ano era 1968 ou 1967 não me lembro bem. Eu tinha na época uns 11 anos e tinha uma tia lindíssima. Ela era casada com meu tio, havia sido Miss na França e era o desespero das minhas outras tias, por sua juventude, por seus cabelos quase brancos de tão louros, e seus olhos azuis profundos.
Eu era o sobrinho preferido dela. Ela tinha uma casa na Zona Sul do Rio, só dela, pois foi um presente de seu pai, e,apesar de não morar nela, passava ali os dias. E me pegava na escola para que passasse com ela, brincando na piscina ou lendo Gibis.
Mas alguma coisa acontecia de muito estranho. As 14:00 ela dispensava religiosamente a arrumadeira e a cozinheira, e ficava sentada , vestida com uma camisola finíssima, fumando e lendo uma revista. Eu adorava vê-la assim, em meio a fumaça do cigarro, linda e generosamente exibindo suas formas,
Por vota das três horas da tarde, um homem tocava a campainha do portão. Com uma maravilhosa tecnologia para a época, ela o abria por meio de um botão remoto, e o tal homem entrava.
Era sempre um homem negro ou mulato, com aparência de pedreiros ou trabalhadores braçais, e ela os recebia, levando-os para o quarto. Para mim, dizia se tratar de massagistas ou terapeutas para sua dor na coluna. E eles ficavam lá horas a fio.
Mas numa dessas vezes, descobri que o fecho da porta se soltava com a trepidação da rua e ela ficava semi aberta. Curioso, eu olhei e ví, pelo grande espelho do quarto, ela nua na cama, com aquele homem igualmente nu deitado sobre ela. Ele se mexia e parecia machucá-la , pois ela gemia muito, mas inconscientemente descobri que era de prazer, não de dor.
Nessa época, nós garotos de 11 anos éramos muito inocentes. Sabíamos existir sexo, mas não tínhamos a malícia dos meninos de hoje. Desconfiava que eles deviam estar fazendo "aquilo", mas não via mal nenhum.
E "aquilo" se repetia todos os dias. E eu em meu posto de vigia tocando minhas primeiras punhetinhas, vendo-a se contorcer em posições que nunca imaginaria e recebendo o pênis de seu amante na boca, um escândalo para minha cabeça infantil.
E assim foi durante mais de ano. Eu era seu álibi, seu escudo contra a malícia dos vizinhos e me tornei um cúmplice em suas traições.
Mas um dia, um dos homens que mais fazia "aquilo" com ela, entrou furioso. Ela o levou para o quarto, tiraram as roupas e fizeram um sexo extremamente violento. Ele parecia querer matá-la com seu pau e ela sorria e o provocava.
Quando terminaram, começou uma discussão enorme. Ele a acusava de "dar" para outros, de traí-lo com outros homens, de desprezar seu amor. Ela riu dele. Acendeu um cigarro e lhe perguntou se ele não se enxergava. Se ele realmente achava que ela iria se "misturar" com um negro como ele, que aquilo era só prazer, foda,trepada, e mais nada. E ela não lhe devia satisfações por aquilo.
Ele primeiro lhe deu uma bofetada. Depois outra e outra. Ela começou a gritar por socorro enquanto ele tentava estrangula-la.
Saí correndo e agarrei o telefone. Nessa época, apesar de já se fazer ligações diretamente para outros números, a telefonista ainda era a via mais rápida para evitar a costumeira falta de linha. Eu gritei com ela, disse que um homem estava matando minha tia e pedi a polícia.
O tal cara , vendo que eu dera o alarme, se controlou e fugiu. A polícia chegou uns dez minutos depois.
Minha tia deu queixa de estupro contra ele. Disse ser ele um desconhecido, que entrara, a agredira e a estuprara.
Nessa época, havia muito racismo, e um negro fazer sexo com uma branca, ainda mais de família rica, seria quase que certamente, estupro.
O negro foi preso. Foi levado para a delegacia e deve ter apanhado muito,pois assinou a confissão. E eu, instruído por minha tia, fui interrogado por assistentes sociais e psicólogas, e confirmei tudo. Disse nunca tê-lo visto mais gordo, que ao contrário do que ele dissera inicialmente, minha tia nunca recebera outros homens em casa, muito menos negros, e o caso morreu. Ele foi condenado a dez anos e a história acabou ali. Minha tia e meu tio se mudaram para Paris, e o caso silenciou.
Mas eu nunca pude dormir em paz. Menti para ajudar minha tia e minha consciência dói até hoje com essa falta. Ainda mais sabendo o que o homem devia ter sofrido no presídio, os estupros, as porradas.
Não consigo me perdoar ainda hoje.

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Escrito por Anônimo

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