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Às vezes nem eu me suporto

Eu sou uma pessoa difícil. Muito mesmo.
Desde pequena, pra ser honesta. Os vizinhos me davam "bom dia" e eu (com dois anos) olhava para eles de alto a baixo antes de responder, o que deixava minha mãe muito irritada. Ela me educou direito, eu sei, mas aquilo era natural da minha parte.
Na escola, eu poderia me considerar muito inconveniente (olhando agora para aquele tempo), o tipo de garota que apontava o dedo para a cara dos colegas e ria de assuntos delicados ou que corrigia professores quando eu sabia que eles estavam errados. Não era simpática com qualquer um, e sempre tive uma língua bastante ferina pra minha idade (aquela fase da vida em que as crianças são malvadas sem saber o que significa crueldade ou empatia).
Claro que, pela lei do karma, tudo que você faz volta pra você, e no meu caso voltou na minha quarta série, com uma professora realmente orgulhosa e ignorante que não gostou de ser corrigida pela aluna e colocou a sala de aula inteira contra mim… minha mãe me trocou de colégio por conta dessa professora, ainda no primeiro bimestre, e no colégio seguinte eu passei pela primeira vez na vida por situações como desilusão amorosa (o garoto leu a minha cartinha de confissão pra turma toda e depois rasgou na minha cara) e bullying ("amigas" que só me procuravam na época de provas pra pedir cola ou namoro fingido pra me fazer de idiota).
Eu passei por aquela época, digamos, "por baixo", sendo o capacho dos meus colegas de classe, simplesmente porque não queria ser odiada por aquela turma também. Eu queria fazer parte, me sentir integrante daquele grupo, mas isso nunca aconteceu. Tanto que eu me recusei na oitava série a mudar de colégio e fazer preparatório para um colégio de ensino médio melhor, não queria "perder os meus amigos". Pfft, grandes amigos…
No ensino médio, em outro colégio, as coisas mudaram um pouco. Em parte porque eu fui para um colégio onde eu tinha uma tia como professora, em parte porque eu era reconhecida como inteligente e era cobrada por isso. E a minha personalidade difícil, que havia ficado acuada durante boa parte do ginásio, voltou a se manifestar. tanto que, no segundo ano, a minha melhor amiga virou a cara pra mim e deixou de falar comigo… O pior de tudo é que eu simplesmente não lembro o que ela falou pra mim na ocasião, nem o que ocasionou aquela briga, mas eu tenho absoluta certeza de que ela havia se cansado do meu jeito difícil.
Por que eu digo que o meu jeito é difícil?
Eu sou teimosa e extremamente orgulhosa. Eu não absorvo tudo que as pessoas falam pra mim, mas o que eu absorvo eu levo pela vida inteira, e o mesmo vale para certas opiniões minhas a respeito de pessoas, fatos e lugares. Quando eu me enfureço, tendo a não segurar a língua dentro da boca e acabo falando grosserias altamente ofensivas, os piores produtos de uma reflexão feral e incessante que produz muita, mas muita toxina.
E eu não sei lidar com isso, sinceramente, pra mim já é um processo natural.
Mas nem sempre as pessoas estão dispostas a lidar com gente como eu… tanto que, no meu primeiro semestre do ensino superior, durante uma conversa em que eu reclamava de um assunto qualquer, uma colega de faculdade (que na época eu admirava e considerava uma das pessoas mais maduras que eu conhecia) virou para mim e disse "Garota, ninguém aqui se importa com os seus problemas". Não foi imediato, mas o peso do que eu ouvi naquele dia se infiltrou na minha mente e se tornou parte da minha toxina natural, mas pela primeira vez se voltava contra mim mesma.
O que já era difícil tornou-se com o tempo ainda pior. Opiniões explosivas que antes arrebentavam de uma vez começaram a virar balões e a crescer na garganta enquanto eu fechava a cara e me fechava para não despejar coisas desnecessárias sobre pessoas que nada tinham a ver ou que não precisavam saber dos meus problemas, o que incluíram amigos próximos e familiares. Eu comecei a questionar internamente a paciência deles, a acreditar que todos eles me aturavam por pena ou educação, e parei de contar os meus problemas, aflições e dificuldades. Isso tudo, eu acreditava e sinceramente ainda acredito, é um problema unicamente meu e as pessoas ao meu redor não deveriam ser envolvidas neles.
Mas é claro que isso não dá certo nem é saudável, qualquer psicólogo pode dizer isso, mas isso não significa que eu vou convencer a minha mente a não entrar em estado de negação quando eu percebo que eu envolvi ou incomodei pessoas com problemas que me afligem (e eu não procuro ajuda clínica exatamente por esse motivo). E isso ainda me persegue diariamente.
E sabe qual é o pior disso tudo? Eu ainda acredito que isso é tudo natural pra mim. Todo esse processo, esse auto-envenenamento e autoflagelação psicológica, fazem eu me odiar mais e mais a cada dia que passa. Eu me sinto um estorvo para a felicidade e harmonia da minha família, que na minha mente eu sou uma pessoa tão desprezível e difícil que não deveria estar aqui, mas não tenho coragem de me matar ou algo do gênero porque não gosto da expectativa de sentir muita dor. Então eu só tento me desvincular deles de alguma forma, como arrumar um bom emprego que pague o suficiente para eu me sustentar sozinha e assim poder sair de casa para morar em um canto qualquer sem incomodar ninguém.
Esses pensamentos auto-depreciativos me fizeram uma pessoa menos teimosa, orgulhosa ou difícil? Nem um pouco. Eu continuo defendendo as minhas convicções enraizadas (inclusive a de que eu incomodo todo mundo) e criando opiniões tóxicas, e eu sei o quanto eu atrapalho na vida da minha família, especialmente no nosso momento atual, em que os meus pais têm que cuidar de uma pessoa que sempre nos desprezou e agora precisa de nós… Mas eu sou incapaz de sentir empatia por essa pessoa, o que me faz criar um rancor muito forte contra ela, e por tabela ganhar em resposta o ressentimento dos meus pais pela minha insensibilidade.
Eu sinceramente não sei mais o que fazer comigo mesma… todas as minhas tentativas de mudança esbarram em um grande "NÃO" dentro da minha mente, gerando briga atrás de briga… às vezes me surge a certeza de que a minha única opção de mudança é uma lobotomia (que não é mais praticada licitamente no país) ou morrendo e nascendo em uma nova vida… mas como fazer isso sem parecer "palhaçada" ou "drama"?
Eu estava esperando que essa confissão me ajudasse a colocar a minha mente no lugar e a chegar a alguma conclusão mais lógica, mas rever assim toda a minha trajetória enquanto pessoa só reforça pra mim o quão tóxica e improdutiva eu fui durante toda a minha vida, acho que eu nunca me vi tão perdida quanto agora…

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Escrito por Anônimo

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