Nunca gostei de crianças, inclusive, desde que era criança. Detestava oa coleguinhas da escola, não entendia as brincadeiras e sempre que tentava me enturmar virava alvo de piadas. A biblioteca das instituições de ensino sempre foram mei refúgio: do primário ao ensino médio. Apenas na primeira faculdade consegui me ver pertencente a um grupo. Talvez, por encontrar pessoas críticas como eu.
Acredito que o fato de ter uma irmã que nasceu doente e roubou toda a atenção dos meus pais pode ter contribuído, mas confesso que pouco me lembro daqueles dias, pois ficava trancada no quarto brincando ou lendo sozinha (eu tinha 4 anos quando ela nasceu).
A questão é, nunca fez parte dos meus planos ter filhos. Como questão prática, vejo que são péssimos investimentos. Tenho um sobrinho de 3 anos e mal consigo conviver 10 minutos com ele. É insuportável cada manha ou cada segundo de atenção que ele exige fora do meu planejamento.
Nunca omiti isso do meu marido, mas depois de 5 anos de relacionamento (e muito felizes, tanto que nem acredito a sorte que tive de encontrar alguém que se encaixe tão perfeitamente nas minhas necessidades) ele está querendo procriar.
Meu pesadelo começou. Acredito que meu problema seja o egoísmo. Eu sou uma pessoa egoísta e aprendi a conviver com isso. Meu marido ama a filha da irmã dele e eu morro de ódio cada vez que ele a abraça ou da um presente a ela. Eu sinto como se ele estivesse tirando algo de mim e dando a ela. Sou assim também quando ele agrada o filho da minha irmã – dito meu sobrinho.
Meu problema mora justamente aí: por ser egoísta, vejo uma criança, por mais que seja meu filho, como uma competição de carinho e atenção do meu marido. Não quero que ele chegue em casa e cumprimente a criança antes de me cumprimentar, não quero ter que tirar uma parte do meu sofrido salário para comprar roupas para esse ser e não para mim e não quero que meu marido faça o mesmo, apesar de ter consciência de que não posso fazer tais demandas. Afinal, a egoista sou eu e não ele.
Acredito que se tiver uma menina será ainda pior. Não acredito que serei feliz ao vê-la crescer e chegar a flor da idade enquanto vejo rugas aparecendo no meu rosto.
Acredito que esse é o limite da ética médica: se eu pudesse escolher ter um filho homem e saudável isso diminuiria bastante minha ansiedade, pois teria certeza que as demandas financeiras seriam menores e também as de afeto, pois continuaria sendo a única mulher da casa. Isso serviria de algum consolo.
Sim, faço terapia, apenas confesso que não gosto de crianças, seu barulhos, seu comportamento e nem do dinheiro e tempo que demandam. Nossa sociedade adora julgar mulheres que não tem um pingo de insisto materno e por isso confesso anonimamente.

