Sou o Rumpelstiltskin. Passei no vestibular para medicina em uma universidade federal sem ter o mínimo interesse pela área das saúde. A pressão familiar era tão intensa e o medo de ficar pobre era tão grande que fiz essa escolha. Muito embora pertenço a uma família de classe média alta. Nunca me dei bem com as garotas. Já fui tão rejeitado, que minha autoestima é minguante. Me sinto feio, apesar de muita gente contestar essa minha opinião. Sou incapaz de atrair as pessoas. Sou tímido ao extremo e julgado como estranho pelas pessoas. Meu cabelo está caindo e penso em entrar para o corredor sem volta todo santo dia. Acordo de manhã arrastado pelo meu pai para a faculdade. Os olhos sempre semi-cerrados. A boca com o gosto amargo do café com leite tomado às pressas. O cabelo levemente despenteado não contribui para aumentar minha auto-consideração. Subo sempre reticente as escadarias que levam ao instituto no qual estudo. Sou corcunda. Sinto dores fortes nas costas e na cervical. Sou viciado em cafeína. Não consigo prestar atenção em uma hora de aula sem colocar guela a baixo um copo de café. Sento na biblioteca para estudar, mas sou incapaz de mudar de página. O olhar fixo na mobília da biblioteca. A mente em outro lugar menos aquele. O sentimento de culpa me corroendo por dentro. A ânsia subindo pelo meu esôfago e alcançando minha boca. Ela me deixa momentaneamente sufocado. Me falta ar, mas também me falta vida. Sonhos? Não existem. Como um ser tão degradante e emocionalmente instável pode querer cuidar do próximo? Esse ser deveria se perder na floresta. Fugir de casa pelado. Se aventurar no meio da mata escura e fria dos montes dos ventos uivantes. Depois contemplar do alto seu corpo já pálido estendido sobre as folhas secas. Os olhos totalmente fechados agora. O cabelo molhado pelo orvalho, porque já faz uma noite. Uma noite que pareceu a eternidade. Júlia nem sequer se moveu de casa.

