Eu confesso que eu chamei o táxi com a única intenção de levar as três sacolas com presentes do casamento de minha irmã para a casa dela. O Gol chegou à porta do prédio e o homem grande, de cabelos fartos e escuros, saiu do carro para me ajudar a colocar os embrulhos no banco atrás.
Abriu a porta da frente para mim e dirigiu-se ao seu lugar. Meu banco estava muito próximo ao painel e ele pediu licença, atravessou rapidamente o braço por entre meus pés e, num só golpe, senti chegar o limite de recuo.
Calculei que demoraríamos uns 30 minutos para chegar ao meu destino.
O celular dele tocou e ouvi quando disse que “estava transportando uma moça bonita”. Senti o sangue gelar, que ousadia a dele.
Disse isso e manteve-se em silêncio, mas olhando pra mim, como se para medir as reações que eu teria.
Ele não era bonito, mas másculo e forte, mãos grandes com pelos sobre os dedos.
Tudo era excitante. Reuni coragem e agradeci por ter sido elogiada e começamos a conversar. Ali adiante um congestionamento fez com ele perguntasse se podia usar um caminho alternativo e aceitei. Eu podia continuar a contar isso, mas não sei se é necessário. Todos sabem onde terminou: eu dei pro taxista. Ah, ele é um professor de matemática dirigindo um carro e eu, que leciono português, deixei que me conduzisse ao céu. Estamos juntos agora.

