TERAPEUTA: Quando disse que pensava que eu teria
uma opinião negativa sobre você e não iria querer
trabalhar porque você disse que sentia raiva
de seu marido, parecia que estava realmente
preocupada de poder ser julgada e punida com
severidade pelo que disse.
DENISE: É verdade.
TERAPEUTA: Não quero fazer disso uma grande coisa
agora, mas você também disse que, depois que
seus amigos se mudaram, sentiu raiva deles e
condenou sua decisão. Mesmo sabendo que
cada grupo de amigos tem que se mudar por
questões financeiras e de saúde específicas,
e estava nesse processo de mudança há anos,
parte de você ainda sentia raiva deles. Você
mencionou que acreditava que os amigos devem
se ajudar uns aos outros, especialmente
em momentos de grande necessidade, e se um
amigo decepciona outro, a relação deve acabar.
É isso?
DENISE: É isso.
TERAPEUTA: Então você se afastou muito dessas relações
importantes e agora está se sentindo muito
solitária. A ideia de falar com esses amigos de
novo dá medo que eles estejam com raiva e apunam pela reação que teve. Você fica em um
beco sem saída. Não é isso?
DENISE: É, acho que é isso mesmo.
TERAPEUTA: Então, uma das coisas que podem afetá-la
de verdade e fezê-la sentir-se muito mal é essa
ideia de que as pessoas, incluindo você mesma,
devem se comportar de determinadas maneiras,
e se eles ou você não se comportam da forma
“certa”, deve haver uma punição severa, é isso?
DENISE: É, acho que é isso. Mas ouvindo-o falar não
me parece que seja certo.
TERAPEUTA: O que você quer dizer?
DENISE: É muito extremo, é muito duro, as pessoas
são humanas, têm limitações e cometem erros
às vezes.
TERAPEUTA: Que bom que você está começando a observar
e avaliar esses pensamentos em vez de
simplesmente reagir a eles automaticamente. O
que isso nos diz é que você tem de estar alerta
para qualquer momento em que tenha a sensação
de que você ou outros devem ser punidos severamente
por se comportar de uma determinada maneira.
A ideia de que as pessoas não devem ser
tratadas com flexibilidade, mesmo em circunstâncias
muito difíceis, pode não funcionar muito
bem na vida real, com gente de verdade. Você
disse que ambos os amigos lhe disseram que se
sentiam muito mal por deixá-la nesse momento,
e eles telefonam regularmente desde que foram
embora. Você acha que se começar a responder
e telefonar a eles, talvez reajam de um jeito diferente,
da mesma forma como eu reagi de forma
diferente da que você esperava?
DENISE: Acho, isso é bem provável.
TERAPEUTA: Você pensou: “Tenho razão de lhe dizer
exatamente o que penso. Ela não pode me colocar
em segundo lugar em relação ao cachorro.
Ela não pode fazer isso sem uma consequência”.
Parece provável que você acredite nesse
pensamento, e que acredite que estava correto.
E como acreditava que estava correto, achava
que tinha que retirar seu afeto dela se ela não
fizesse a sua vontade.
DENISE: Certo.
TERAPEUTA: Vamos examinar isso. Você acha que esse
pensamento está correto?
DENISE: Bom, é ofensivo.
TERAPEUTA: O que é ofensivo?
DENISE: Ela estar dando mais prioridade ao cachorro.
TERAPEUTA: Você já teve um animal de estimação?
DENISE: Não.
TERAPEUTA: Você acha que Diane possa sentir que o
cachorro é parte da família?
DENISE: Nunca pensei nisso por esse ponto de vista.
TERAPEUTA: Se você olhar a situação dessa perspectiva,
como se sente?
DENISE: Me sinto meio insensível… Isso não está certo.
Não estou permitindo nenhuma outra perspectiva.
Eu nunca tive animal de estimação,
então não sei como é ter um animal. Não está
correto que julgue tanto a Diane. Tenho de ser
mais compreensiva. Eu não fui muito amiga.
Na verdade, estou me comportando de forma
que vai diretamente contra meus valores mais
profundos.
TERAPEUTA: Então, segundo os seus próprios valores,
isso está certo?
DENISE: Não, não está. Eu não estava respeitando os
valores dela. Só exigindo que ela respeitasse os
meus. Isso não está certo.
TERAPEUTA: Então esse é um dos problemas. Se você
quiser superar essa sensação de que nunca deve
abrir mão ou flexibilizar as suas regras por
outras pessoas, uma das coisas que deve fazer
é buscar esse pensamento: “Eu tenho razão e
você deve sofrer uma consequência negativa
por sua decisão ‘errada’”. E voltar a esta conversa
que estamos tendo agora, e decidir por
sua própria conta se realmente estava certa.
Agora, se todas as vezes você encarar um conflito
em uma relação e abrir a possibilidade de
que possa não entender completamente, mas
no fundo pensar realmente: “Mas eu sei que
tenho razão”, você vai se sentir deixada de lado
e não vai querer se envolver com essa pessoa.
Não é assim?
DENISE: É, parece correto.
TERAPEUTA: Então nós temos de decidir aqui e agora.
Você realmente acredita que tem razão em suspender
seu julgamento negativo inicial e deixar
aberta a possibilidade de reavaliar sua reação
ao comportamento dela?
DENISE: Sim.
TERAPEUTA: Então, na próxima vez que pensar “Tenho
razão e vou garantir que essa pessoa saiba
disso”, como vai responder a esse pensamento?
DENISE: Se eu tiver razão? Mas não tenho razão, necessariamente.
Preciso levar em conta a perspectiva
da outra pessoa.
TERAPEUTA: Você está dizendo isso porque é a resposta
certa ou porque acredita de verdade?
DENISE: Não, eu acredito de verdade.
TERAPEUTA: Agora eu vou agir como o promotor público,
e vou dizer: “Parece-me que você deixa
sua amiga violar uma de suas regras de amizade.
É isso?”
DENISE: É.
TERAPEUTA: “Parece-me que isso foi uma coisa que
lhe custou muito fazer”.
DENISE: Não, não foi difícil.
TERAPEUTA: “Você não acha que foi?”
DENISE: Não, eu deveria tentar entender sua perspectiva.
TERAPEUTA: “Você pode se sentar aí e dizer que tem
de ser mais compreensiva, mas acho que antes
você tinha dito que quer que as pessoas a
respeitem”.
DENISE: Quero, mas também tenho de respeitar os
outros.
TERAPEUTA: “Eu sei disso, mas agora você está dizendo
que vai deixar que ela faça isso sem que
nada aconteça. E depois?”
DENISE: Depois tudo o que pode acontecer é uma
compreensão melhor entre nós duas, vamos
nos sentir mais próximas.
TERAPEUTA: “Mas como você pode se sentir mais próxima
se ela não está respeitando as suas regras
de relacionamento?”
DENISE: Talvez as minhas regras não sejam aplicáveis
a essa situação. Tenho de aprender a ser mais
compreensiva, flexível e tolerante com alguns
desvios das minhas regras.
TERAPEUTA: “Mas aí você vai perder controle da situação.”
DENISE: Não, isso é exagero. Eu não tenho que controlar
toda a situação. Ainda posso decidir o que
faz sentido. Ainda estou no controle do que é
importante.
TERAPEUTA: “E como pode ser isso?”
DENISE: Porque posso respeitar a mim mesma e respeitar
a minha amiga, também. Não tenho de
transformar tudo em uma situação ou-ou para
tentar fazer com que ela veja e aja à minha maneira.
Isso só dificulta o seu relacionamento
comigo, e vou perder na relação em longo prazo
se continuar insistindo que ela faça do meu
jeito ou nada feito.

