O EQUÍVOCO: você é muito esperto para entrar em um culto.
A VERDADE: cultos estão cheios de pessoas como você.
Cultos são um efeito colateral das tendências humanas naturais. Você tem um desejo inato de
pertencer a um grupo e andar com pessoas interessantes. Se você já admirou alguém que
nunca conheceu pessoalmente – como um músico – experimentou a semente do fenômeno do
culto.
A palavra “culto” é escorregadia, porque, de longe, muitas organizações, instituições e
religiões poderiam ser vistas como cultos. A linha entre grupos e cultos é confusa. Essa linha
confusa é o motivo pelo qual você tem muito mais probabilidade de terminar em um culto do
que imagina.
A pesquisa sobre cultos sugere que você normalmente não entra por algum motivo
particular; meio que cai neles, da mesma forma que entra em qualquer grupo social. Afinal,
quando foi que você se uniu a seu círculo de amigos? Seu grupo de amigos próximos
provavelmente mudou bastante no correr dos anos, mas você fez escolhas ativas em relação
a com quem anda, evitando aqueles que são muito chatos?
O tipo de pessoa que se une a cultos não são todos inseguros ou emocionalmente fracos.
Você gostaria de pensar que não é o tipo de pessoa que poderia ser seduzida por um líder
carismático com uma visão clara – mas você não é tão esperto assim. De acordo com o
psicólogo David Myers, cultos se formam ao redor de indivíduos brilhantes e interessantes –
Jim Jones,31 David Koresh,32 L. Ron Hubbard,33 Charles Manson –34 mas as pessoas
geralmente não seguem o líder, seguem os ideais aos quais o líder afirma estar servindo.
Esses líderes parecem ter entendido tudo e você quer entender também. Gandhi, Che
Guevara, Terence McKenna,35 Sócrates, foram todos grandes pensadores que pareciam ter
acesso a segredos, percepções de algo maior. Naturalmente, as pessoas os seguiam,
esperando receber o charme deles por osmose. Seus seguidores estavam em um culto? Veja,
é aí onde a definição desmorona. É por isso que você é suscetível a esse tipo de
comportamento.
Como um primata, você conhece sutilmente a dinâmica de grupo. Está programado para
querer sair com outras pessoas e se associar a grupos. Sua sobrevivência dependeu disso
por milhões de anos. Além disso, você não avalia seu comportamento, escolhas e
sentimentos para entender quem é você. Em vez disso, tem uma visão idealista de si mesmo,
um personagem que sonhou na sua mente e no qual está sempre tentando se tornar. Procura
grupos aos quais se afiliar para solidificar quem é você na história que conta para si mesmo
– a história que explica por que faz as coisas que faz.
Myers diz que os cultos começam com um indivíduo carismático. Talvez essa pessoa
acredite que é especial de alguma forma, ou talvez seja apenas naturalmente interessante. As
pessoas começam a envolver com ele, e um grupo espontâneo se forma com a pessoa
carismática se tornando uma figura de autoridade. Se essa pessoa tem uma agenda ou um
objetivo ou inimigos que quer eliminar, vai cultivar a boa vontade de seus fãs e fazê-los agir.
Se possuir objetivos difíceis de alcançar, vai tentar expandir seu grupo com recrutamento ou
proselitismo, geralmente escondendo suas verdadeiras intenções, assim não vai espantar
potenciais membros. Alguns líderes sabem o que estão fazendo, mas outros só servem a seus
instintos e acidentalmente formam cultos ao redor de si mesmos antes de perceberem o que
fizeram. Como essas pessoas exercem seu poder sobre os outros determina como a história
vai classificá-los. Aqueles que exercem seu poder e tiram vantagens de seus seguidores,
como Jim Jones e Charles Manson, formam o que você tradicionalmente considera um culto.
Outros, como Mohandas Ghandi, que convenceu milhares a segui-lo a pé por 390
quilômetros até o mar para protestar contra um imposto sobre o sal, não são vistos como
líderes de culto. Qualquer grupo com um líder carismático tem o potencial para se separar e
formar uma subcultura. Alguns fazem do mundo um lugar melhor. Outros convencem as
pessoas a se matar.
Se você já se chamou de fã de alguém – um músico, um diretor, um escritor, um político,
um gênio tecnológico, um cientista – está experimentando o primeiro estágio da doutrinação
do culto. Se você se encontrasse com a pessoa que mais admira e tivesse a chance de sair
com ele ou ela regularmente – aceitaria? Claro que sim. O que acontece em seguida depende
de uma caótica série de variáveis; às vezes, o resultado é um culto e, às vezes, esses cultos
vivem além dos seus líderes. Não há nenhum agente por trás disso, nenhuma pessoa
decidindo formar ou participar de um culto. Cultos não são criados. São formados como
resultado de distorções de tendências humanas normais.
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31 James Warren "Jim" Jones (Crete, Indiana, 13 de maio de 1931 – Jonestown, 18 de novembro de 1978) foi um líder de seita
estadunidense e fundador da igreja Templo dos Povos (Peoples Temple), e mentor do suicídio em massa da comunidade de
Jonestown, na Guiana.
32 David Koresh foi o líder do Ramo Davidiano, uma seita que acreditava ser o seu último profeta. Uma investida do Bureau of
Alcohol, Tobacco, Firearms and Explosives, que levou ao subsequente Cerco de Waco pelo FBI terminou com o incêndio da
sede dos seguidores do Ramo Davidiano.
33 L. Ron Hubbard fundador da Igreja da Cientologia, que se autoproclama uma religião, mas é considerada por críticos uma
seita.
34 Charles Manson é conhecido como o fundador, mentor intelectual e líder de um grupo que cometeu vários assassinatos,
entre eles o da atriz Sharon Tate, esposa do diretor de cinema Roman Polanski.
35 Terence McKenna: autor, explorador norte-americano, passou o último quarto de século da sua vida estudando das bases
ontológicas do xamanismo e da etnofarmacologia da transformação espiritual.

