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É isto que o extremismo religioso faz

Lembrando…são FDP extremista de um lado e do outro.

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, defendeu publicamente a realização de assassinatos diários na Faixa de Gaza e afirmou que a população do território “não merece viver” e “nem sequer são pessoas”. A declaração foi feita no primeiro episódio do podcast “8 de Outubro”, apresentado pelo ex-prisionero israelense Rom Braslavski e lançado no domingo, 16 de agosto de 2026. A autenticidade das declarações foi confirmada tanto pela imprensa internacional quanto pelo israelense Ynet, que publicou a transcrição em hebraico. Elas ecoam as falas de Yoav Gallant, ex-ministro da defesa de Israel, que classificou os palestinos que exterminaria naquele ano como “animais humanos.”

Durante a conversa, Ben-Gvir criticava a redução dos ataques israelenses contra Gaza, devido ao fato de não ter sobrado mais que tendas para incendiar de modo geral após anos de bombardeios, e dizia discordar da condução do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Foi então que afirmou:“Acho que deveriam ser realizados assassinatos seletivos em Gaza, eliminando 30 ou 40 todas as noites. Não apenas aqueles que representam um perigo imediato. Há pessoas lá que não são dignas da vida. Elas não deveriam viver. Elas nem sequer são pessoas.”A versão hebraica registrada pelo Ynet contém ainda uma frase que não apareceu em algumas reproduções internacionais: após dizer que “eles não são pessoas”, Ben-Gvir acrescentou que estaria “fazendo um elogio ao chamá-los de pessoas”.

O contexto da fala torna difícil criar algum contorcionismo da ñ declaração como uma referência limitada a combatentes envolvidos em confrontos com soldados naquele momento. O próprio ministro fez questão de dizer que não falava somente daqueles que representassem “perigo imediato” (ex: crianças ainda não crescidas). Na mesma entrevista, afirmou imaginar “toda Gaza” sob controle israelense, defendeu a construção de assentamentos por todo o território e pediu que fosse incentivada a marcha forçada do maior número possível de palestinos.

A entrevista ocorreu em um momento em que os ataques israelenses contra Gaza haviam diminuído e em que o governo dos Estados Unidos pressionava pela implementação de uma nova etapa do acordo para o território. Ben-Gvir, embora não tenha autoridade para ordenar operações militares, controla o Ministério da Segurança Nacional, ao qual estão subordinadas a polícia e partes importantes do sistema penitenciário israelense.
O restante do programa manteve o mesmo teor. Braslavski pediu a Ben-Gvir que lhe permitisse pessoalmente executar palestinos condenados à morte nas penas por resistência a ocupação. O ministro respondeu que faria esforços para que isso pudesse ocorrer e voltou a defender a pena de morte por enforcamento.
A desumanização como linguagem de extermínio

A frase “eles nem sequer são pessoas” possui um precedente histórico particularmente conhecido: a utilização da desumanização como etapa discursiva para tornar aceitável a eliminação física de uma população.
Esse mecanismo ocupou posição central na propaganda da Alemanha nazista. Documentação distribuída em 1944 pelo aparato de propaganda do Partido Nazista, dirigido por Joseph Goebbels, ensinava seus militantes a apresentar judeus não como seres humanos equivalentes aos demais, mas como organismos parasitários. O documento afirmava literalmente que “o judeu é o parasita entre os humanos” e, em seguida, argumentava que a única alternativa seria sua destruição.

A semelhança com a construção de Ben-Gvir está menos numa coincidência vocabular do que na sequência lógica. Primeiro, retira-se do grupo o estatuto humano: “eles nem sequer são pessoas”. Depois, elimina-se a obrigação moral de preservar sua vida: “não merecem viver”. Por fim, transforma-se a morte em política quantificável: “30 ou 40 todas as noites”.

Um dos exemplos históricos mais explícitos dessa passagem da desumanização para a administração da morte veio de Heinrich Himmler, chefe da SS e um dos principais responsáveis pela implementação do Holocausto.
Em 4 de outubro de 1943, discursando diante de oficiais superiores da SS em Poznań, na Polônia ocupada, Himmler falou abertamente sobre o extermínio dos judeus. Ao descrever o assassinato em massa, pediu que seus ouvintes imaginassem “100 cadáveres”, “500” ou “1.000” deitados lado a lado e afirmou que os nazistas possuíam o “direito moral” e a obrigação de matar aquele povo. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos considera esse um dos registros mais explícitos em que Himmler justificou diretamente o assassinato em massa dos judeus europeus.

Há aí um paralelo especialmente perturbador com a fala de Ben-Gvir: a morte deixa de ser apresentada como consequência excepcional de um confronto armado e é admitido ainda mais explicitamente o que ja era apontado: o objetivo de limpeza étnica, e passa a ser expresso numericamente, como algo a ser executado de maneira regular. Himmler falava em centenas ou milhares de cadáveres; Ben-Gvir, em uma meta de 30 a 40 mortes por noite. A proporção populacional deve ser levada em conta.

Adolf Hitler havia utilizado linguagem semelhante antes mesmo do início da Segunda Guerra Mundial. Em discurso ao Reichstag em 30 de janeiro de 1939, declarou que uma nova guerra mundial resultaria na “aniquilação da raça judaica na Europa”. O Museu do Holocausto destaca que a frase combinava uma teoria conspiratória — atribuir aos judeus a responsabilidade por uma futura guerra — com a ameaça de sua destruição coletiva.

O mecanismo justificatório também reaparece na fala de Himmler em 1943: o assassinato era apresentado como necessário porque o grupo a ser exterminado supostamente pretendia destruir primeiro os alemães. A propaganda nazista convertia, dessa forma, a vítima em ameaça existencial e a matança em uma espécie de autodefesa preventiva.

Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, registrou em seu diário em fevereiro de 1942 que a destruição dos judeus deveria ser acelerada com “fria implacabilidade”. O discurso propagandístico produzido sob sua direção empregava repetidamente metáforas biológicas — parasitas, infecções e doenças — justamente para retirar dos judeus a condição de seres humanos aos quais se aplicariam compaixão e direitos.

É nesse ponto específico que a declaração de Ben-Gvir encontra seu paralelo histórico mais direto. Não porque seja necessário declarar Israel de 2026 e a Alemanha nazista como fenômenos históricos idênticos, mas porque a linguagem utilizada para legitimar a violência coletiva apresenta uma estrutura reconhecível na história dos genocídios: identificar uma população como inimiga por natureza, negar sua humanidade, afirmar que determinados integrantes dela não possuem direito à vida e finalmente tratar sua morte como objetivo político administrável.
No caso de Ben-Gvir, todos esses elementos aparecem em poucos segundos de uma mesma declaração: pessoas que não constituem ameaça imediata podem ser mortas; algumas “não merecem viver”; elas “nem sequer são pessoas”; e seria desejável matar entre 30 e 40 delas a cada noite. A frase não surgiu isoladamente: foi acompanhada, na mesma entrevista, pela defesa da retirada em massa dos palestinos de Gaza e da instalação de assentamentos israelenses em todo o território.

FONTES

FRANKEL, Julia. Israel’s Ben-Gvir advocates killing ‘30 to 40’ people in Gaza nightly while speaking to ex-hostage. Associated Press (AP), Jerusalém, 16 ago. 2026.
FINANCIAL TIMES. Far-right Israeli minister advocates killing ‘30 to 40’ Gazans each night. Financial Times, 16 ago. 2026.
PITA, Antonio. El ministro ultra israelí Ben Gvir aboga por matar cada noche en Gaza a 30 o 40 personas. El País, Jerusalém, 17 ago. 2026.
UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Heinrich Himmler. Holocaust Encyclopedia. Washington, D.C.: USHMM, [s.d.].
UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Hitler’s Reichstag Speech. Holocaust Encyclopedia. Washington, D.C.: USHMM, [s.d.].
UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Defining the Enemy. Holocaust Encyclopedia. Washington, D.C.: USHMM, [s.d.].
UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Der ewige Jude. Holocaust Encyclopedia. Washington, D.C.: USHMM, [s.d.].
OTTO, G. G. The Jew as World Parasite (1944). German Propaganda Archive. Grand Rapids: Calvin University, [s.d.]. Documento originalmente publicado como Der Jude als Weltparasit, Munique: Eher Verlag, 1943.

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