Sempre fui sozinho. Digo sozinho especialmente no sentido de amar em silêncio. É bem verdade que jamais fora correspondido, mas é verdade também que sempre mantive tudo em segredo, um pouco porque queria, tamanha a introversão, no mais porque nunca me davam a oportunidade para expressar o amor que sentia. Passei então a ver certa nobreza em amar silenciosamente, que obviamente desencadeava um sofrimento silencioso. Até certa poesia eu via em ser assim. Podemos dizer que era o meu modo de tornar o sofrimento um pouco mais suportável.
Mas algo de diferente ocorreu. Ela apareceu em minha vida só como uma boa amiga, é claro; e eu me apaixonei, é claro. Mas, até então, nenhuma novidade. O que eu faria? O mesmo. Nutriria minha paixão em silêncio. Me vejo como alguém um tanto inteligente, ao menos o suficiente para perceber que, neste mundo, uma garota da beleza dela não se interessaria, em um sentido físico, por alguém como eu. Ou seja, a situação estava sob controle, nada muito grave.
O que ocorreu, no entanto, foi que fui carinhoso e atencioso com essa amiga de um modo que não sabia ser capaz. Ela se tornou meu mundo. Bastava dormir para sonhar com ela e bastava acordar para pensar nela. Se tratando de uma pessoa muito inteligente e sobretudo sensível, ela desenvolveu um amor aparentemente muito grande por mim. Segundo a mesma, se encontrava no pior momento de sua vida e eu a havia "salvado de si mesma". Confesso que, por mais que a lógica mostrasse que seria impossível que ela se apaixonasse por mim, fiz de tudo para combater essa lógica. Acho que há sempre um quê de esperança, mesmo no maior dos pessimistas. Mas me contive. Verdadeiramente gostava dela e queria seu bem, antes de qualquer coisa. Compreendia que o bem dela não implicava, necessariamente, que fôssemos "mais que amigos".
Creio ter feito tanto por ela que criou-se nela um amor muito forte por mim. Pensei que, enfim, alguém havia se apaixonado por mim. A amizade cresceu muito e claramente ultrapassou aquilo que normalmente delimitamos como amizade. Dizíamos um ao outro, frequentemente, que nos amávamos, fazíamos planos para um futuro juntos, discutíamos o nome dos futuros filhos, etc. Mas sempre houve um porém de sua parte: havia saído de um relacionamento muito longo e não se sentia pronta para começar algo de novo em sua vida. Respeitei sua postura, sem problema. Encontrava-em absorto em esperança, como se em uma primeira vez pudesse projetar felicidade em meu futuro.
O que, no entanto, ocorreu após 7 meses nesse estado, que obviamente já ultrapassava as linhas da amizade comum? Ela me diz que se apaixonou por outro. Simples e repentinamente assim. Aparentemente, a conversa de não querer algo novo servia apenas em relação a algo novo comigo.
Me parece claro, agora, que ela não se apaixonou por mim, mas apenas se deixou levar. Mas, poxa vida, por que então levar as coisas, as nossas conversas, tão além? Isso partiu dela. Não foi eu quem disse "eu te amo" por primeiro. Não foi eu quem começou a plantar possibilidades de um futuro entre nós dois. Alguém que não está verdadeiramente apaixonado e disposto a levar até o fim não tem o direito de plantar essas possibilidades com alguém que sempre esteve, de fato, com toda a intenção de ir tão ao fim quanto possível. Estou errado em pensar assim? Estou errado em pensar que ela apenas brincou comigo e com meus sentimentos?
Eu teria levado numa boa se ela tivesse sido honesta e mantido em suas palavras nada que eu pudesse interpretar como paixão. Teria sofrido em silêncio e permanecido, para sempre, um grande amigo.
Encontro-me agora sem chão. Peço desculpas por escrever tanto. Provavelmente ainda teria muito mais a dizer. Se alguém tiver paciência e ler isso tudo, pergunto, por fim: fiz algo de errado? Estou errado em achá-la culpada, em pensar que brincou comigo por todo esse tempo, me mantendo como uma espécie de plano B, para caso de não aparecer nada mais interessante a ela?

