Eu tenho 21 anos de idade, moro em uma cidade do triângulo mineiro. Não vou dizer meu nome, apesar de não sentir que isso faça muita diferença.
Bom, eu não sei dizer como tudo começou. Não sei ao certo se alguém algum dia chegará a ler isso, se ainda estarei vivo, o que de fato terá acontecido comigo, mas parece ter um sentido em deixar um rastro de existência mesmo sabendo ser bem provável que ninguém se importe.
Eu não sinto mais prazer em nada. Amizades, sexo, drogas, tudo isso parece tão sem sentido quando não temos vontade de viver.
Eu acho tão clichê procurar alguém ou algo para que eu possa culpar e dizer, "Você é o culpado, você destruiu a minha vida e por sua causa eu me matei". Mas pra ser bem sincero, a raiva que existe dentro de mim, a raiva que me cansa em sua previsibilidade é muito grande.
Eu não sou uma pessoa comum, não que isso seja ruim, as vezes eu até gostaria de ser. O único problema é que a minha vida "incomum" se tornou uma decepção sem fim.
Acredito que o fato de eu ser homossexual (diga o que quiser), contribuiu para que meus pais me odeiem. Não é aquele tipo de ódio em que eles te batem e dizem que você precisa buscar a Deus (essa fase passou), é aquele tipo de ódio silencioso que te consome por dentro e faz com que você queira que alguém exploda e seja sincero com você. Eles não tocam no assunto, eles as vezes até mesmo fingem não saber, como se eu nunca tivesse dito. Eu consigo sentir a decepção que eles acumulam sobre mim.
Com o resto da minha família é igual. Ninguém tem coragem de dizer nada na minha frente, mas mesmo eu sabendo que sou uma "boa pessoa", eles insistem em dizer secretamente que eu sou o monstro da família.
Falando em família, eles não conseguem compreender que tem tantos defeitos, ou até mais, que qualquer outra pessoa. Tenho vários tios e tias e até mesmo outras pessoas mais próximas que são extremamente racistas, são intolerantes religiosos convictos e possuem uma visão extremamente limitada sobre tudo, mas isso é normal no Brasil, como o marido que espanca a mulher que diz estar cansada de ser traída por ele (o que também acontece dentro do meu núcleo familiar).
Eu nunca compreendi porque somos obrigados a aceitar as "verdades universais" que nos são impostas e como alguém pode realmente aceitar isso. Não sei como minha mãe e minhas tias e primas continuam com seus maridos mesmo sabendo que eles tem várias amantes. Não consigo entender porque tantas pessoas pensam que sem um pai ou uma mãe, que na maioria das vezes é um péssimo pai ou uma péssima mãe, o filho vai se tornar algo como um criminoso, um delinquente, um psicopata ou algo do gênero.
Eu sinto que não pertenço a esse mundo. Todas as pessoas parecem estar ligadas a um senso de satisfação que eu desconheço. Tudo parece ser um exercício de futilidade.
Recentemente algo que tem me incomodado muito a respeito da minha sexualidade é a forma como as pessoas te tratam por pensar que isso te faz ser menor. Algo muito comum em minha cidade é não conseguir emprego caso haja a mínima desconfiança de que você é gay, lésbica, bissexual ou qualquer outra coisa do gênero. Eu participei recentemente de uma entrevista para uma vaga que parecia ser exatamente o que eu precisava. De todos os que participaram da entrevista eu fui o único que passou, mas quando fiz a entrevista com o encarregado do setor e diga-se de passagem eu fui extremamente bem, ele não gostou de mim por algum motivo.
Sendo sincero eu não tenho uma aparência ruim e mesmo que tivesse, isso é algo muito subjetivo e não deveria ser considerado para uma vaga de emprego. Mas eu sei qual foi o motivo pelo qual ele não me contratou. Ele conhece pessoas que sabem sobre mim, pessoas que trabalham na empresa e isso parece ser tão injusto que é difícil conter a raiva quando me lembro do assunto.
Outra entrevista que fiz, para o mesmo cargo, porém em outra empresa, acabou da mesma forma, porém nesta empresa em particular foi muito mais explícito. Eu passei para a segunda etapa e fui convocado para uma entrevista com o dono da empresa que ao finalizar todas as perguntas que eu havia respondido de forma satisfatória me disse que não contratava pessoas como eu. Nesse momento foi como se o meu mundo desabasse sobre a minha cabeça. Eu era tão qualificado e muito provavelmente teria um desempenho muito maior que os outros funcionários da empresa, mas ele havia feito questão de deixar bem claro que eu não era bem vindo ali.
Pois bem, ao todo só em entrevista de emprego, foram oito situações em que isso aconteceu, todas em empresas diferentes e todas em minha cidade. Sendo extremamente qualificado para cargos altos e bem remunerados, tenho que me contentar com empregos que não fazem juízo ao meu potencial e não me remuneram como mereço, caso não haja preconceito mesmo assim e decidam me contratar, pois atualmente estou desempregado.
Mas isso está longe de ser o começo. O ensino fundamental foi bem pior que isso. Eu era o garoto que só queria ficar ali, quieto, sem que ninguém prestasse atenção, mas isso não era possível. Alguns garotos queriam que eu fosse punido por algo que eu não conseguia compreender. Eu era diferente, eu não queria conversar com ninguém, eu não queria fazer nada e isso fez com que até professores praticassem bullying comigo. Nada comparado ao que os valentões faziam comigo, me humilhando dentro da sala de aula para que qualquer um pudesse ver, cuspindo em mim, me chutando, rasgando meus cadernos, quebrando meus pertences e não deixando que qualquer um se aproximasse para ajudar.
Professores viram isso acontecendo e olharam como se soubessem que eu estava sendo punido por ter nascido no lugar errado.
Nessa época eu pensava em suicídio todos os dias, mas nunca tive coragem de fazê-lo. Eu cheguei a me cortar e me sentir ridículo, me tornei bulímico e sempre sabia que as pessoas odiavam que eu era.
A sim, o ódio que as pessoas sentem por mim sem me dar alguma razão para que eu pelo menos saiba o motivo. Isso aconteceu desde bem cedo, eu sempre soube que meu pai não me tratava como os pais tratam seus filhos. Ele sempre me olhou com desprezo, sempre deixou bem claro que preferia que eu não tivesse nascido. Eu não fui planejado, ele teve que se casar aos dezoito anos porque seus pais o obrigaram e então eu acabei com a vida do meu pai e de minha mãe. Mesmo antes de nascer eu já era uma frustração e tive que compreender isso bem cedo.
As únicas pessoas que pareciam ao menos se esforçar para me compreender eram meus avós paternos. Tão diferentes do meu pai, talvez pelo fato de ele ter sido adotado. Meus avós eram as pessoas mais amáveis que eu conheci a minha vida toda, mas ambos tinham graves problemas de saúde, o que fez com que minha avó falecesse em 2011 e meu avô em 2015.
Logo após perder minha avó veio a depressão e todos os poucos amigos que eu tinha se afastara de mim. Então finalmente eu estava sozinho, eu não queria comer, não conseguia dormir, mas ao mesmo tempo não queria sair da minha cama.
Isso é falta de Deus, diziam todos os que viam minha situação para os meus pais. Não que eu seja antirreligioso ou algo do gênero, mas quando frequentei igrejas tudo que recebi foi preconceito, rancor, era como se todos dissessem com seus olhos irritados que eu não deveria colocar os pés ali, então peço desculpas, mas não vou voltar para esse meio, até hoje igrejas me dão calafrios, pois ironicamente foi o lugar onde eu mais sofri.
Agora me vêm essa sensação de que toda a minha vida eu soube que não pertencia a esse mundo. Não que eu seja bom demais, eu não acredito nisso, eu acredito que não me encaixo, nada faz sentido e eu realmente não sei o que fazer.
Isso não é uma carta de suicídio, mesmo porque não sei se algum dia tomarei coragem para fazer isso. Eu só penso que talvez exista alguém no mundo que como eu está cansado de como as coisas funcionam.
As pessoas são tão egoístas em só se preocupar com elas mesmas, mas eu queria ser assim. Mesmo depois de tudo o que passei eu ainda me importo com as pessoas, ainda me preocupo, mesmo sem nenhum retorno e isso é muito estranho.
Bom, esse é meu rastro de existência. Como disse, não sei se algum dia alguém chegará a ler isso e não sei como irei me sentir caso isso aconteça, mas se existir alguém como eu nesse mundo espero que encontre conforto ao saber que não está sozinho.

