Eu confesso que fumo maconha há 10 anos, todo santo dia (2-3 finos por dia, nos finais de semana 4-5 nos finais de semana), e falho toda vez que tento parar ou diminuir. Quem me conhece, em uma primeira análise nem imagina o drama que venho sofrendo. Jovem, boa aparência, bom emprego, títulos acadêmicos, casado com uma bela e bem sucedida mulher: a imagem do intelectual bon-vivant. Algumas pessoas podem admirar, outras invejar, mas quem conhece de perto sabe de minhas fraquezas e em particular do meu hábito diário de fumar maconha.
Acabei lendo praticamente todas as confissões desta área do site e, em meio às opiniões de usuários, respostas intolerantes e estupros da língua portuguesa, me identifiquei com vários casos semelhantes ao meu. Sempre fui referenciado como o “maconheiro bem sucedido”, mas o fato é que desde que aderi a esse estilo de vida, meu desempenho vem caindo como estudante, como profissional, como amigo e como marido.
Sempre obtive êxito em que fazia sem relativo esforço. Melhor aluno, melhor funcionário, popular entre os amigos… Sempre boêmio, exagerava na dose e tinha bastante tolerância com álcool e outras drogas que ocasionalmente experimentei, e nunca mais usei – cocaína, lsd, ecstasy). Talvez isso tenha me induzido a achar que seria imune à adicção de uma droga “natural”. E estava redondamente enganado.
Comecei a fumar cannabis na faculdade, já adulto, e no começo idolatrava a planta. Cheguei a plantar pra consumo próprio. Gostava da percepção de sentidos aguçados sentidos nos primeiros minutos após fumar, e do relaxamento das horas seguintes. Sempre fui impulsivo e ansioso, e achava que a maconha estava me ajudando. Passava horas a fio chapado, na tela do computador, e ia dormir tarde toda noite.
O fato é que a fase de lua-de-mel com a maconha se foi há tempos. Ultimamente, quase toda vez que fumo só penso em parar, fico marcando datas e inventando desculpas pra mim mesmo. Mas parar de fumar é bem mais difícil do que eu imaginava, e do que eu pregava às pessoas com quem convivia. Eu admito isso.
Minha esposa não fuma, mas sabe que fumo e não costuma implicar muito. Isso acaba até me induzindo a usar mais, e a frequência só aumentou com o tempo. Também uso álcool e na maioria das vezes acabo combinando os dois, me expondo a situações socialmente inconvenientes e a riscos de integridade física. Outro dia, chapado, por pouco não bati o carro. Em várias ocasiões, sai do trabalho no meio do expediente para vir fumar em casa.
Minha vida profissional me deu ótimas oportunidades, mas as últimas acho que venho desperdiçando pela limitação na capacidade de planejamento e concentração na leitura. Tudo que começo tem muitas ideias difusas e pouca execução, e raramente tem conclusão. Estou ficando frustrado pois gosto do que faço e poderia estar conseguindo prosperar muito mais. Meu sonho é ser professor, mas nas atuais circunstâncias isso conflitaria com minha rotina de maconheiro.
Já dei um tempo algumas vezes, o máximo foi 3 meses, mas há muito não consigo ficar sem por nenhum dia. Os sintomas são os mesmos que todos relatam: irritabilidade, perda da paciência e do humor, sono ruim e com muitos sonhos intensos, falta de apetite, intestino preso. A vontade de fumar é intensa, pelo menos nos primeiros dias, e qualquer deslize serve como desculpa para voltar ao ponto zero.
Eu me acho uma companhia insuportável quando estou em abstinência. Como quero cessar o hábito, mas não quero que quem convive comigo pague o pato, tomei a decisão. Vou diminuir gradativamente até parar. Devo ter uns 30g de prensado de boa qualidade, e depois que acabar não vou comprar mais. Apaguei da minha agenda o telefone do meu único fornecedor, e não tenho nenhum contato para recuperá-lo. Talvez isso faça com que eu fume menos para não gastar tudo de uma vez, mas pode ser que não funcione e rapidamente eu fume tudo. Ainda assim, escolhi essa estratégia.
Quero voltar a sentir prazer em atividades simples, como caminhar, respirar ar puro e ler um bom livro. Não vou condenar a maconha, mas sim minha atitude perante a ela. Sei que tem gente que consegue conviver equilibrar bem com a vida social, mas eu acho que já não ando mais bom nisso. Está na hora de ser homem e admitir: minha fase já passou, agora estou em outra.
Sei que vai ser difícil, principalmente manter a disciplina. Para ajudar, vou tentar substituir o vício por três coisas: exercícios físicos, leitura e meditação. E encarar a abstinência, estar consciente que toda vez que ela se manifestar eu serei mais forte e eliminarei esse ego. E se eu falhar, juro que vou procurar psicoterapia ou ajuda espiritual, pois não restará outra alternativa.
Aos que tem curiosidade ou pensam em experimentar a maconha: cuidado, ela vicia sim e é muito difícil parar, nossa mente faz de tudo para nos enganar e nos expor à situações de recaída. Aos que, como eu, estão tentando parar, desejo boa sorte e pretendo postar ocasionalmente a evolução da minha decisão. Não sou religioso, mas espiritualista a ponto de pedir que todas as boas energias estejam conosco!

