em

Eu não “pareço” autista

Em todas as minhas crises aconteceram coisas terríveis, na última eu fui encontrado completamente nu na rua. Não que tenha sido a primeira vez, até porque isso acontece comigo desde criança. 

Para ser mais específico é como um sonambulismo, o corpo faz tudo, os olhos vêem, mas a mente faz o que deseja e não o consciente. Não tenho nenhum controle sobre nada que aconteceu durante a crise, mas me lembro de muitas coisas horríveis. 

Em casa eu caminho sem parar, ando ao redor da casa, na cozinha, sala, quintal e caminho sem perceber que estou caminhando. Enquanto ouço minha mente conversando, brigando, discutindo e cantando ao mesmo tempo. 

Estalo os dedos como uma maneira de mudar os pensamentos, as vezes funciona e as vezes não. É uma repetição sem fim, se eu sofrer algum trauma, acabo passando meses e até anos revivendo o mesmo dia. 

Não são só as músicas que se repetem, eu assisto os mesmos filmes desde criança, só como a mesma comida, me sento no mesmo lugar, só durmo bem no meu lado da cama, minhas coisas podem estar bagunçada, mas se mudar o lugar eu não encontro, tem que estar onde eu coloquei, o que é pra ficar de pé, deve ficar em pé, como os vidros de qualquer cosmético, se deitar eles me irrita! As coisas tem que ser assim, senão eu não funciono.

Os meus compromissos precisam ser agendados com pelo menos uma semana de antecedência. E durante sete dias eu sofrerei com antecedência, tendo crises de ansiedade e náuseas até chegar a hora de sair de casa. Eu odeio sair de casa, quando eu quero sair é porque estou nervoso e depois que saio me arrependo. 

Não lido bem com nenhum tipo de injustiça por menor que ela seja, se tiver errado, fico muito nervoso. Quando vejo crimes acontecendo e ninguém age ou faz algo a respeito daquilo, me tira do sério e eu acabo agindo por impulso. Sou 100% emoção!

E se a injustiça é contra mim, enlouqueço até que seja resolvido. Não importa quanto tempo demore, mas quanto mais demora maior eu deixo o problema! 

Eu odeio que me toquem, me sinto arrepiado até o último fio de cabelo quando alguém encosta em mim. Odeio meu bebedouro de água que aqui em casa ele faz um barulho fino e ensurdecedor parecendo uma turbina de avião, e eu reclamo muito disso, mas ninguém ouve, só eu. Um dia eu vou quebrar esse negócio! Quando saio na rua parece um oceano e quando entro em lugares com muita gente, vira uma caixa de abelhas zumbindo, e tenho vontade de berrar pra todo mundo calar a boca! “CALEM A BOCAAAAA!” minha mente grita!

Eu evito conversar porque não entendo as outras pessoas, elas agem diferente de mim em todas as situações. Sempre que tento fazer uma amizade, acabo assustando elas ou elas me irritam de alguma maneira. Elas riem e eu fico nervoso pq não sei se estão rindo de mim ou comigo. 

E olho nos olhos de todo mundo, já passei muita vergonha encarando pessoas na rua sem perceber. Meus pensamentos estão longe, quase nunca estou presente. Faço um esforço exaustivo para me manter presente durante o dia. Quando estou irritado não consigo encarar ninguém, porque meus olhos ficam com semblante de ódio, ira, demonstrando ser um animal agressivo, eu não olho para não atacar de nenhum jeito. 

Eu sinto a necessidade de estar em constante movimento, desde o momento que me levanto da cama. Nunca consigo ficar parado! E tudo me preocupa, minha mente fala comigo junto com as outras pessoas. Em uma conversa ela fala “O seu rosto como será que está agora? O volume da sua voz? Será que ela está me entendendo? Será  que eu tô andando certo? Olha essa roupa colorida, poderia ser roxo nessa parte! O cara esqueceu de passar um passador na cinto, tenho que avisar ele! Essa espinha gigante na cara desse moleque tá me irritando, seboso! Se ficar fazendo esse barulho com a boca perto de mim, é porque não tem amor aos dentes”É assim que vamos e enquanto eu penso tudo isso, minha face altera as expressões de todas as formas. 

O mais difícil é a comunicação, porque eu não aceito a opinião das outras pessoas, os médicos chamam isso de rigidez cognitiva. Eu sou jumento teimoso. Para me convencer de algo é preciso estar correto. E quando me dizem que eu não pareço autista, imagino essa pessoa tendo uma morte violenta e rápida, enquanto respiro profundamente com o rosto emputecido, segurando meu corpo e saindo de perto, para a segurança de ambas as partes. 

--- Criado com nosso formulário simples e amigável. Você já desabafou hoje?

Reportar

O que você acha?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor recarregue a página.

Conteúdo 18+
Clique para ver esta postagem

Eu sou Autista, Borderline e TDHA

Em busca do amor verdadeiro 💶💰