Eu confesso que estou cansada. Cansada de me fazer de forte. Cansada de não reclamar. E por isso mesmo as pessoas acham que não tenho problemas. Estou cansada de ser sozinha neste mundo. Não ter família. Ter família até tenho: um pai alcoólatra que nunca foi pai e que depois de doente resolveu se aproximar dos filhos só para ter alguém para cuidar dele, uma mãe omissa, uma irmã maluca que dá muito mais importância para festas e amigos e um irmão ausente que só se aproxima quando precisa. Minha mãe nunca foi mãe, nunca teve uma postura de mãe, como eu conhecia. Ela sempre me olhou como se eu fosse a “mãe mais nova” dos meus irmãos, como se eu fosse a empregada doméstica. Ela sempre me cobrou mais. Cobrava mais atitude, cobrava perfeição. Aliás, cobra. Eu só consegui arrumar os meus dentes pois comecei a trabalhar com 17 anos. E só consegui entrar numa faculdade pública por mérito próprio. Ela nunca nem sequer me incentivou. Ela nunca perguntou de verdade como estavam minhas notas. E nem como eu estava. Ela não quer saber. Ela liga a cada 15 dias e não passamos mais de 5 minutos ao telefone. Ela liga e pergunta se está tudo bem. Eu respondo que sim ela diz “que bom” e desliga. Se EU quiser estender um pouco a conversa eu devo perguntar sobre o trabalho dela ou sobre meu irmão. Daí ela fala mais uns 5 minutos. Ela nunca perguntou se preciso de alguma coisa ou se minha semana foi boa. Ela não quer saber dos meus fracassos nem das minhas vitórias. Natal, Ano Novo e aniversário são um martírio pra mim. Já cheguei a ficar internada por 15 dias e ela sequer veio me ver. Moramos a 50 km de distância. Ela alegava que tinha casa e roupa pra lavar. Tenho vergonha de ter uma família assim. E acho que por isso não pretendo ter filhos. Tenho medo de passar esse legado pra frente. Tenho tanta inveja de famílias normais. De mãe que liga pro filho pra saber se chegou bem. Pra saber se está comendo. Pra saber se passa frio. Não tenho avós. Quer dizer até tenho mas eles são mais preocupados com os netos que são filhos de seus filhos endinheirados. Desde pequena eu percebia essa distinção. Minha avó nunca me levou pra sair com ela pois nunca tive roupas boas e novas quando pequena. As roupas que eu tinha eram de segunda mão. E eu ouvia isso dela. Meu avô idem. Eles nem acreditavam que eu conseguiria passar numa faculdade pública, logo eu que sempre estudei em colégio público. Tios e tias nem se fala. Muitas vezes eles atravessaram a rua para não me cumprimentar. Primos então piorou. Enfim. Não tenho ninguém. Num casamento de uma prima que me convidou (nos convidou, vou incluir aqui mãe/pai e irmãos) minha vó nem sequer olhou pra minha cara. Nem vou falar das atitudes de meus primos porque seria covardia minha. Daria um livro extenso. Moro com meu namorado há 3 anos e minha vida melhorou um pouco depois disso. Mas nada nem ninguém preenchem o vazio que faz a família. Uma Boa Família. Não essa que eu tenho.

