Tenho 20 anos e as vezes sinto como se minha família não ligasse para o que eu penso. Aos 15 meus avós, com quem vivo, resolveram se mudar para uma área rural, onde não tinha nem sinal de telefone e demorava quase 1 hora de ônibus para chegar. Como éramos, eu e meus irmãos, crianças não tivemos direito de voto e assim fomos arrastados para a total solidão e maluquice. Acho que possam imaginar que perderdemos os amigos que tínhamos e os que fizemos nunca nós visitaram por ser longe, assim como não também não tinha condições de ligarmos, mandar sms ou sinal de vida para qualquer outro ser humano que não fosse da família. Fiquei isolada, sem nenhum amigo, até os 19 quando entrei para a faculdade e convenci minha tia a dividir aluguel comigo na cidade e posso jurar que foram os meses mais felizes da minha vida, pois finalmente podia conviver com outras pessoas normalmente.
Meus avós sempre foram controladores ao extremo, por isso nenhum dos filhos ficaram em casa, e com os netos não seria diferente! Sempre dando opinião até no que eu gosto ou não gosto de comer, e como sempre tento ao máximo não criar briga sempre fui a neta que só escuta tudo calada… Até quando não fiz nada. Isso sempre me fez guardar uma mágoa gigante no coração e nunca pude compartilhar com ninguém, já que não tinha amigos e as únicas pessoas que eu via 24 horas por dia eram meus avós.
Ao sair de casa ano passado, me senti livre de críticas e a primeira reação foi chorar tanto por poder finalmente ser e agir do jeito que eu sou, era o maior prazer que eu já tinha sentido. E eles não tinham o que reclamar já que o motivo de eu sair de casa era porque a faculdade era longe de casa e em tempo integral, então até chegar em casa já estaria muito tarde.
Em casa eu tinha que ouvir da boca das pessoas que mais deveriam me amar, que eu era feia, muito magra (minha família toda é gorda e passei a vida sendo chamada de feia por ser magra), burra e sem opinião própria. Longe de casa eu só era eu, do jeito mais sincero e puro.
Agora, depois de ser completamente abandonada pela minha tia, terei que voltar para a zona rural e passar por todos os desafios psicológico, por meus pais, e físicos para continuar a faculdade.
Sei que devo tudo a eles, mas sei o motivo de meus tios e meu pai terem saído de casa tão cedo… Não quero voltar pra casa… Prefiro morrer…

