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isolado

Sou homossexual assumido desde meus 13 anos, meus pais são casados há quase 30 anos e tenho um irmão 6 anos mais velho. Eu sempre soube que era homossexual, sempre tive essa certeza em mim, acho que desde os 9 anos eu sabia, e quando, aos 13, num briga pelos meus trejeitos, acabei me assumindo de vez. Eu sempre fui afeminado na infância, sempre fui motivo de chacota na escola, na rua, e, além disso, eu tinha orelhas de abano e com vergonhas delas, tinha os cabelos longos para cobri-las, o que aumentava mais ainda o preconceito contra mim. Aos 16 anos fiz uma cirurgia plástica que corrigiu as minhas orelhas, assim, cortei o cabelo, deixei a barba crescer, e virei mais másculo, mais "aceitável" aos olhos da sociedade, por assim dizer.
Eu cresci vendo meu irmão chegando bêbado em casa, vomitando, sofrendo acidente de carro com amigos, acidente causado pela embriaguez, eu vi de perto o sofrimento dos meus pais com essa situação de adolescente com 18 anos saindo de casa e vivendo na noite, nas festas, nas baladas. Minha mãe sempre teve problemas de saúde, de ossos, ela tem bico de papagaio nas costas, reumatismo, tendinite, bursite, e essas coisas. E sabem como mãe é, não sossega enquanto não vê o filho em casa. Eu a via dormindo no sofá, duro, e no outro dia passava o dia reclamando de dor no corpo. Quando eu cheguei à idade dos 18 anos, onde tive a oportunidade de sair para a noite, viver intensamente, conhecer o mundão, não o fiz. Primeiro porque meus pais, superprotetores, com medo que eu apanhasse na rua por ser gay, não me deixavam sair, para passar a noite numa balada, por exemplo. Mas poxa, vocês podem pensar “que eu já era adulto; dono do próprio nariz”. Sim, eu era, e sou, em certas partes, mas devia respeito aos meus pais. Segundo, porque a vontade que eu tinha de ir para a noite foi desaparecendo devido à insistência dos meus pais para que eu não fosse, e assim, a vontade de ir conhecer baladas, desapareceu. Eu também sabia o que aconteceria com a minha mãe caso eu fosse do contra e saísse para a noite, eu sabia o sofrimento que tinha sido com o meu irmão, e agora ela, numa idade mais avançada, com problemas de saúde maiores, só penso em evitar o mesmo sofrimento que teve na época do meu irmão, e que seria maior comigo, pela preocupação com a minha orientação sexual, mesmo ela dizendo para que eu não me preocupar, que era para eu ir me divertir, que ela estará me esperando no sofá quando eu voltar para casa de manhã no outro dia. Acabou sendo, para mim, uma questão de respeito aos meus pais, principalmente a minha mãe. E assim, não adquiri o habito de sair para noite, de beber (gosto sim de um bom vinho, espumante, caipirinha, bons drinks, mas não fico bêbado, aliás, nunca fiquei – odeio cerveja), não fumo, não uso drogas. Eu sempre fui caseiro, sempre gostei muito de seriados, filmes, jogos, ler, ir a parques, restaurantes… E nesses programas, no começo da vida adulta, a vida foi passando.
Acontece que atualmente, se você não frequenta a noite paulistana, você não tem amigos, você não tem ninguém, porque se acabaram outros programas. Ou você vai à balada, vira a noite bebendo e dançando, no meio de drogados, ou você fica em casa, sozinho enquanto "seus amigos" estão na balada, e não tem ninguém. Ou você se encaixa, ou você se encaixa. Afinal, se você não frequenta o círculo de amizade da balada, você não é ninguém. E ser ninguém hoje em dia, nesse contexto da noite, é dolorido.
Eu amadureci muito rápido, acho que devido aos meus traumas de infância, eu tinha que saber lidar muito bem com eles, fiz tratamento psicológico por alguns anos para ajudar a superar esses traumas, mas acontece que diante disso tudo, no final, acabamos amadurecendo sim. Uns ficam violentos, outros entram em depressão, outros se matam, e alguns enfrentam o problema de frente, vão buscar a solução deles, como eu fiz, e amadurecem. A vida exigiu que eu crescesse, e nesse respeito pelos meus pais, acabei pulando, felizmente ou infelizmente, essa parte da vida, a parte onde você conhece balada, conhece a noite, conhece o "pessoal descolado", os famosinhos no facebook, porque chegava de final de semana eu queria descansar, atualizar minhas séries e estudar, visto que na semana era trabalho x escola, escola x casa, casa x trabalho (comecei a trabalhar aos 16 anos). Minha família sempre enxergou em mim como o “menino da família; ele é o futuro; esse vai dar muito orgulho ainda”. Não sou uma pessoa fechada – ao contrário do que esse texto possa mostrar, sou feliz comigo mesmo, sou extrovertido, me dou bem com a minha família e acho que nós nos bastamos para nós mesmos… Mas, hoje, bateu a depressão ao ver meus amigos se divertindo, e eu em casa, isolado, sem vontade de conhecer a noite paulistana.
Hoje tenho 20 anos, prestes a fazer 21, e curso o quinto semestre de Arquitetura e Urbanismo. Conheci várias pessoas na faculdade, mas tenho poucos amigos verdadeiros. Mas vocês podem se perguntar “e o pessoal da faculdade?”, a resposta é simples: o pessoal da faculdade é o mesmo da balada.

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Escrito por Anônimo

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