Desde que me lembro me sinto triste e depressivo, com uma sensação de que algo me faltava, uma melancolia crônica e confusa. Desde o jardim de infância.
Até os nove vivo num ambiente familiar turbulento: violências domésticas por parte de meu pai para com minha mãe, o desconto pela frustração de minha mãe para comigo. Mas não se enganem, minha mãe era a vítima. E eu tbm.
Em minha terceira série decidimos partir. Meu pai só descobriu quando chegou em casa e não encontrou mais ninguém. Foi um início de ciclo conturbado para ele: conseguiu perfurar o poço que já estava, se afundou mais ainda no álcool e nas drogas.
A mudança de casa e de rotina não foram fáceis: fomos de um bairro nobre e central de SP para a periferia. Sofri pela distância, pelo ambiente novo e hostil, pelas diferenças que me aguardavam.
No começo foi um alívio, até iniciarem os casos de bullying: por eu ser inteligente, esforçado, "bonito". Tanto sofri que hoje me olho no espelho e vejo uma pessoa feia. Me deparo constantemente com a dúvida da mediocridade.
O tempo passou, o ensino médio chegou, e nessa época a tristeza havia tomado conta de mim. Era reprimido, contido, com uma autoestima estilhaçada. Ainda por cima, gay. Não foi fácil aceitar.
Nessa época comecei a fumar, muito. Continuo até hoje. É ainda meu maior refúgio.
Meus amigos passando nos grandes vestibulares da capital, felizes, em progresso. Eu, perdido nas minhas próprias sombras, sem rumo nenhum.
Entrei em uma faculdade qualquer na ânsia de não ficar pra trás. Três anos difíceis, comecei a usar drogas, cheguei numa profundidade do poço que eu nem imaginava. Foi tão intensa a tristeza e a depressão, que comecei a ter doenças psicossomáticas que se exteriorização em minha pele. Fase difícil.
Decidi sair da faculdade. Não estava feliz e precisava recomeçar. Foi nessa época que encontrei meu namorado, pessoa que me ajudou demais essa época e permanece em minha vida. Com seu apoio me dei a chance de entrar em um cursinho pré vestibular pra tentar realizar meu sonho: fazer direito na USP. Consegui. Fui aprovado.
Agora estou nesse momento. Passei com 22 anos, quase 23. Agora já estou com 24.
Hoje, sinto que estou no curso certo. Sinto-me interessado pelas materias. Porém, e é natural, tenho sentido uma forte cobrança de minha mãe, afinal, nesse percurso todo eu nunca trabalhei. Agora chegou a hora.
Quero muito trabalhar. Quero muito me desenvolver. Mas parece que a depressão se instalou de novo. Tenho medo do futuro, receio de nada conseguir. Sinto-me uma criança medrosa de 14 anos. Sei que amadureci, ao mesmo tempo me sinto a pessoa mais imatura e sem qualidades desse universo.
Coloco impecilhos inconscientes na frente do meu caminho, colido a depressão com a ambição, a vontade de mudar e evoluir e a necessidade de as vezes não sair da cama, porque tudo parece muito difícil.
Me culpo demais por isso tudo. Sinto que as marcas do passado acabaram com meu emocional, creio não ter culhoes para enfrentar a vida.

