Há quase sete meses atrás minha mãe veio á falecer vítima de um câncer agressivo. Em 2012 os médicos detectaram um tumor na mama direita apresentando metástase óssea e hepática, estágio IV. Nesses casos a taxa de sobrevida do paciente é mínima. Essa notícia foi como um tiro certeiro em meu peito. Toda minha família entrou em desespero e minha irmã mais nova, decidiu que deveríamos esconder de minha mãe a gravidade do problema. Na realidade, ela escondeu durante anos que possuía um tumor na mama e não fazia exames preventivos, por isso a doença progrediu.
Meu irmão mais velho enfrentou uma depressão profunda durante anos e isso fez com que minha mãe deixasse de cuidar de sua própria saúde para cuidar dele.Esse período correspondeu ao final de minha infância até minha adolescência(10 aos 15 anos).
Meu pai era um homem ciumento e possessivo e quando bebia, agredia minha mãe. Meu irmão, viveu a maior parte dessa fase. Com o tempo ele foi mudando seu temperamento, e hoje é um outro homem.Porém ele carrega um pouco de culpa pela morte de minha mãe.
Como se não bastasse, eu e meus irmãos descobrimos, logo após a morte de nossa mãe, que ela era molestada, desde os 8 anos pelo seu irmão mais velho, nosso tio(monstro) por sinal, hoje também já falecido. Minha falecida avó o encobria.E minha mãe viveu uma depressão durante a adolescência e começo da vida adulta. Isso foi ocultado de nós por ela, pelo meu pai e pelos demais familiares durante todo esse tempo.Isso explica o motivo pelo qual meu pai sentia ódio por esse meu tio.
Minha mãe ainda teve de enfrentar o transtorno bipolar de minha avó e a crise no casamento de seus pais e posteriormente a morte de meu avô, que porventura, não conheci.
Desde bebê, eu sofria com crises fortes de bronquite. Devido à isso, fui uma criança pouco sociável e de poucos amigos.
Eu me apaixonava facilmente durante a minha infância. E durante a adolescência isso tornou-se mais forte.Sofria de amor platônico. As garotas me viam como um garoto estranho e nunca consegui me aproximar de nenhuma. Devido à isso, eu era tachado como gay.
Eu sofria bullying, durante minha adolescência. Era chamado de lesado, retardado…E isso aumentava meu pessimismo perante a vida. Quando reagi verbalmente à um insulto, levei um tapa na cara. Não consegui revidar, porque, como eu já disse, meu irmão sofria de depressão, e eu temia que ele viesse a agredir o aluno ou algo pior. Nunca gostei de envolver família em meus problemas.
No 3°ano do ensino médio, enquanto todos se preparavam para a faculdade, eu me isolava. Meu melhor amigo tinha mudado de escola. Alguns amigos, passaram a se envolver menos comigo. Tinha pouca participação nas aulas, não interagia com os alunos e nem sequer participei de minha formatura. Mas apesar disso, tirava boas notas.
Depois de concluir o ensino médio, decidi trabalhar com meu pai em obra, como servente. Disse que seria temporário e que queria pagar uns cursos para depois arrumar um emprego. Na verdade, acho que queria me afastar de interações sociais.
Hoje tenho 23 anos. Não fiz ou faço faculdade;permaneço trabalhando com meu pai;rejeitei muitas oportunidades de emprego; nunca me relacionei com nenhuma mulher e inclusive sou virgem; tenho poucos amigos e a maioria estão casados ou ocupados com suas vidas;não dirijo e raramente saio de casa. Nem mesmo fotografias eu tiro.
E pra piorar, perdi a pessoa mais significante de minha vida. Minha mãe foi o único motivo pelo qual eu nunca desisti da vida e agora não à tenho mais.
Eu queria ter dado à ela uma vida melhor. Queria ter realizado seus sonhos. Esse era meu dever. E eu falhei…
Por muito tempo culpei à outros: meu pai pelo seu temperamento, minha mãe por ter sido super-protetora, meu irmão por sua depressão, até mesmo minha irmã por me causar ciúmes e preocupação, as garotas por terem me rejeitado ou ignorado, os meus amigos que não me procuram, os meus inimigos… Hoje sei que sou o maior e talvez o único culpado…
Em determinado momento deixei minha vida estagnar por causa de medos irracionais e frustrações internas. Eu poderia ter lutado contra isso.Hoje essa luta perdeu o sentido.
De que valerá, mudar, correr atrás de meus sonhos, de que valerão minhas conquistas, de que valerá conhecer uma mulher com quem casar-me e constituir família, de que valerá ter filhos, sem a presença de minha mãe?
Não tenho nenhuma perspectiva de futuro. Vivo preso ao passado e ao mesmo tempo ansioso. Não tenho coragem de cometer suicídio e temo que eu esteja fadado à viver uma vida cinzenta e vazia até o fim de meus dias.

