Oi.
Não tenho tido anos bons. Mas é claro que a senhora não percebeu!
Estou escrevendo essa carta porque ainda tenho esperanças que a senhora, minha mãe, possa ter um pingo de interesse nessa escrita… Já que pelas minhas palavras, nunca teve.
Jamais entendi essa sua indiferença com a minha pessoa. Enquanto fui crescendo, seu desinteresse perante a mim cresceu junto. Procurei demasiadamente a resposta pra tudo isso, mas chegava apenas a inúteis conselhos. Um que até me despertou curiosidade: certo homem dizia sobre a preferência da mãe para um dos filhos. Disse que ela sempre ficará em cima do filho que considera mais fraco, menos inteligente, com menos perspectivas de vida segundo seus olhos. Ter ouvido tal coisa fez-me sentir que eu talvez pudesse, aos seus olhos, ser uma pessoa forte. Que não precisa de atenção. Pena que esse pensamento não durou nada! Ele foi engolido pelas péssimas memórias que tenho com a senhora. A única conclusão que tive foi que talvez não fosse tão amada assim.
Tudo isso para você pode parecer uma grande bobeira, crise existencial de uma adolescente imatura… Não ficaria surpresa se eu pudesse ouvir isso da sua boca. Afinal, você não esconde o que pensa. Sempre tem algo a dizer, não é?
A senhora já caminha aos 60 anos e tem a sensibilidade de uma porta. Quando eu precisava de um colo, um mínimo de atenção ou de conselhos, a senhora só sabia rir de minha desgraça, medir-me, atirar-me ao fundo do poço sem perdão! Engraçado mesmo é ver que o que faz comigo, também já fez aos meus dois irmãos. Isso cai no ditado "errar uma vez é humano, duas é burrice". No seu caso, três.
Sei que um dia irá precisar muito de mim. E ao contrário do que imagina, vou estar aqui para tudo que a senhora precisar. Afinal, ser como você, vingativa, fria e insensível está fora dos meus planos.
Se chegou até aqui, mãe, muito obrigada por ler. Espero que reveja suas atitudes e me ajude a melhorar as minhas.
Ninguém merece a própria mãe como pior inimiga.
Com carinho, sua caçula.

