Desde que eu era pequena, sempre fui muito bagunceira. Eu era uma criança levada, deveria ter uns 8 ou 9 anos. Lembro que minha mãe me batia muito por isso, mas nunca demonstrava arrependimento ou aquele "desculpa se te machuquei" que vejo no rosto de muitas mães quando isso acontece. Mas eu era pequena, não costumava a ligar pra essas coisas. Toda mãe amava seu filho na minha cabeça, por mais arteiro que fosse.
Quando fiz 13 anos, comecei a perceber a maneira como minha mãe me tratava… Era sempre diferente dos meus irmãos. Minha irmã mais velha, era a perfeitinha, minha mãe idolatrava ela mais que tudo. Minha segunda Irma mais velha era a problemática, minha mãe sempre ligou pra ela, mesmo que fosse pra corrigir. Meu irmão mais velho… Ele era melhor que eu em tudo, e ela não deixava lacunas ao expressar isso. Fui. Fui crescendo e criando inseguranças por conta disso, inseguranças que só consegui diagnosticar do porquê aconteceram com uma psicóloga. Eu era tão insegura que tinha vergonha de sair na rua, achando que todos iam zombar de mim. Tinha a impressão de que todos ficavam me encarando é apenas me aturando, como minha mãe fazia. Comecei a criar fobia social, não conseguia falar com as pessoas direito com medo de falar coisas idiotas, ou ir em festas, fazer amigos, ATÉ falar com a moça do mercado eu não conseguia.
O tempo foi passando e acabei virando uma adolescente meio depressiva e com fobia social. Tive que tomar diversos remédios e visitar vários médicos. Eu tava em um ponto crítico, a única coisa que passava na minha cabeça é que eu nunca seria boa o suficiente. O pior foi passar minha adolescência inteira sem ouvir um "eu te amo".
As coisas começaram a mudar quando minhas irmãs se mudaram de casa e ficamos só eu e minha mãe. Antes de eu saber que tinha problemas, lembro até hoje do dia do café. Quando eu tinha acabado de chegar da escola e não tinha nem almoçado ainda, minha mãe tinha me pedido pra ir pagar uma conta e comprar café pra ela e apesar de eu odiar sair, eu fui. Tava cansada, de baixo de um sol quente, e encarando 20 minutos andando pra Atender ao pedido dela.
Eu liguei pra ela e avisei que paguei a conta e que deu tudo certo quando cheguei em casa, ela foi e me perguntou do café… Eu falei que tinha esquecido e pedi desculpas, mas minha mãe começou a me xingar de todas as coisas possíveis e a me comparar com meus outros irmãos. Falou que eu era uma capet* na vida dela, que não me aguentava mais e eu comecei a relevar. "Ah, ela tá estressada, não adianta discuti". Coloquei os fones de ouvido e então ela pegou meu celular e atacou no chão e continuou me xingando. Disse que eu não ia sair mais de casa, que ia cancelar internet(que eu pagava), que não ia comprar mais nada pra mim (eu trabalhava, quem comprava minhas coisas era EU). Respirei fundo e ignorei. E ela continuou gritando… Tudo isso por causa de um café? Eu tinha pedido desculpas, não tinha feito por mal, não queria deixar ela tão irritada por causa de um café… Até que ela chegou no ponto principal "Você foi o erro que Deus colocou na minha vida!". Eu só peguei meu celular estilhaçado no chão e fui pra casa de uma amiga. Dormi lá e faltei a escola no dia seguinte. Peguei uma roupa emprestada e fui pro trabalho. Depois voltei pra casa e ela me pediu desculpas, mas não precisava. Foi aí que eu comecei a me tocar da realidade. Minha mãe sempre me fez ser assim, insegura. Nunca me amou, nem demonstrou. Minha mãe não era uma mãe, ela apenas me aturava.
Fui morar com meu pai e ele me deu todo amor que eu precisava. Melevou a médicos porque eu não comia, só chorava. Chegava a desmaiar. Então com o tempo fui ficando bem, tomando remédios e mais remédios.
Hoje tenho 23 anos, tô cursando o último ano da minha faculdade de psicologia (que passei por exames, não querendo me gabar, mas a única entre meus irmãos). To casada com um homem que na ama e me acha incrível de todas as formas, minha mente tá bem e tô esperando um linda bebezinho que vai se chamar Murphy (Sim, um nome bem estranho). Obrigada, mãe! Mesmo você transformando da minha vida um inferno, hoje eu só sou feliz por você ter parado de demonstrar quando fingia que me amava.

