Quando ouvi aquelas palavras… o mundo pareceu cessar por um momento.
A única coisa que conseguia ouvir eram os batimentos do meu próprio coração. Acelerados e inconstantes.
Meus dedos tatearam a mesa de forma nervosa, quase… obsessiva. Queria desesperadamente algo que me distraisse da situação em que estava.
Meus pais haviam descoberto meu segredo mais íntimo. E não hesitaram em me colocar sentada na mesa da sala para admitir tudo para eles.
Me senti como um réu em julgamento. Todos sabem que ele é culpado, mas tem uma esperança interna e primitiva de que ele confesse tudo. As palavras do réu soam como uma sinfonia quando elas sanam as dúvidas da audiência.
Não é mesmo?
Minha mãe cruzou as pernas e voltou a me encarar. Parecia prestes a chorar…. mas até que conseguia entender o lado dela.
Ver sua filha devastada não deve ser algo muito agradável, principalmente quando parte da culpa por ela estar daquele jeito…. É sua.
Papai, por outro lado, parecia completamente tranquilo. Talvez ele nem soubesse a real gravidade do problema.
Mas para falar a verdade… nem eu sabia a gravidade do problema. E aquilo me apavorava.
As pessoas diziam que eu estava doente. Mas eu não me sentia mal, me sentia leve.
Como uma borboleta que saiu do casulo e se descobriu. Minha auto estima nunca esteve tão alta e eu me sentia incrível ao lado das outras garotas.
Se eu estava tão bem… porque as pessoas estavam tão preocupadas?
No fim das contas, elas deveriam estar felizes. Orgulhosas.
Minha mãe, que sempre me criticava pelas roupas feias e enormes que usava, agora podia se gabar de ter uma filha que usava 36.
Minhas amigas não precisavam mais tomar cuidado para não "ferir meus sentimentos" dizendo o quão gorda eu parecia no meu vestido novo.
O garoto por quem tive uma quedinha por 4 anos, não precisaria mais se envergonhar de mim e poderíamos finalmente ficar juntos.
Tudo ia tão bem….. até meus métodos para alcançar a paz serem taxados como um "distúrbio alimentar" ou seja lá como chamam.
E daí que eu forçava o vômito depois de algumas refeições?
E daí que eu me exercitava por algumas horas depois de comer alguma coisa?
E daí Que eu comia 700kcal por dia?
E daí que minha pressão estava cada vez mais baixa?
E daí que minhas unhas quebraram?
E daí que meu cabelo estava caindo?
E daí Que eu estava definhando?
Pelo menos, daquele jeito, as pessoas pareciam orgulhosas de mim.
Meu erro foi me deixar ser flagrada pela minha mãe, com os dedos na garganta e o rosto banhado em lágrimas.
"Bulimica" ela disse com uma expressão triste.
Estranhamente, aquela expressão me lembrou uma parecida que fiz quando tinha 9 anos….
No dia em que minha mãe me disse:
"Preferia ter uma filha magra."

