E no início era só uma garota.
Ou eu acho que era.
Ou talvez não fosse, talvez mesmo naquele dia já fosse apenas eu… eu que achava que se tinha um corpo bonito e um rosto agradável deveria mostrar aos outros como podia ser “boa”. Mostrar algo aos outros… parece que tudo foi baseado nisso até agora. Mas esse texto é diferente, eu só quero me organizar nessa bagunça que tem sido minha vida nos últimos dois anos e meio… queria dizer que com isso vou salvar pessoas em depressão, ou que praticam automutilação como eu, ou curar corações partidos e mentes autoflageladas, mas quem sou eu pra salvar alguém quando não consigo salvar nem a mim mesma?
Enfim, deixando os sentimentos de lado quero mistura-los com acontecimentos concretos, já que agora isso é tudo que importa pra mim. No início (do que na verdade já tinha começado) havia sobre tudo curiosidade. Haviam as melhores notas e uma menina sempre diferente, enquanto as amigas começavam a reparar em garotos, ela se perdia em livros. E sobre tudo, ela SENTIA. Sempre era capaz de sentir com profundidade assim que via, era muito doce. Tinha disposição de aceitar e continuar, disposição de sair de casa, fosse pra participar ou pra observar. Como boa observadora passou a ver que nada mais era como antes. Eram os hormônios sempre a flor da pele. E tinham conquistas e primeiros beijos por toda parte. Ridículo (penso agora), mas não era. Rafael. O primeiro. Devia ter parado… evitaria muita merda. Thiago depois, “só uma noite, pra se divertir” elas diziam, e eu queria ser igual e elas. Não eu, aquela que fui… parece ter sido outra pessoa, agora simplesmente aceito que não sou igual, e fico feliz ao menos por isso, elas são nojentas.
Depois disso Rafael (de novo), era dois anos mais velho, tinha muitos problemas em casa, e era isso que à atraía, poder minimizar a dor dos problemas dele, foi assim por três meses. “E os pais?” vocês perguntam. Não sabiam, iam proibir, iam dizer a verdade, que não era tempo para aquilo, mas eu estava cansada de acertar, queria emoção, aventura! Quem não quer?! Que idiotice, menina estupida, devia ter usado o cérebro, esse Q.I. de 115 não ajudou naquela hora.
Mas até aquele tempo ainda não tinha nada demais… só longas conversas, abraços por trás como surpresas em público, beijos nos becos escurecidos pelo fim da tarde. Então a menina passou a frequentar mais lugares, os pais achavam bom que ela apendesse novas coisas, conhecesse gente nova… mas ela era boa demais pra ter só aquilo, queria mais… e só conhecia uma forma de ter isso: MENTIR. Mentir pra acompanhar as coleguinhas que se diziam amigas, mentir pra todo mundo que acreditava nela, mentir pra quem se importava de verdade, pra quem sempre esteve ali! Estava me tornando alguém que não conhecia, roubava da própria mãe pra comprar bebida, e achava legal. Também achava legal quando ou outros contavam o que tinha feito e não me lembrava, era errado, era sujo, mas não parecia… parecia glorioso. As antigas amigas diziam que as mães tinham pedido pra se afastarem, “ela não presta” avisavam. Como boas meninas se afastaram. Não foram erradas, eu só queria que abrissem meus olhos, mas não apareceu ninguém, continuava ficando com vários caras, bebendo, fazia muita besteira. Um dia qualquer na academia, um novo cara. Um desafio. “Eu quero ficar com aquele” ouviu uma menina dizer, “Eu pego mais rápido que você” desafiou. Estava lançado. E foi muito depressa, foi rápido demais, não era mente, era só coração, depois de umas conversas ele resgatava meu eu perdido, era muito diferente dos outros… Não dizia “você é muito gata”, dizia “você tem um sorriso lindo… e luta muito bem!” nunca perguntou se eu era virgem ou qualquer coisa do tipo, era natural, era… humano. Foi rápido demais e eu me perdi, me deixei levar, não existiam outros naquele momento, nada além dele, mas não tinha pra quem contar, eu já não era aquilo a muito tempo, eu não era a menina de coração puro e sentimentos verdadeiros, eu era uma vadia. Foi quando começou. As discussões em casa, muitas, uma atrás da outra por qualquer coisa, e eu gritava tudo que pensava como se fosse normal, eu agredia e provocava, não suportava uma crítica. Estava destruindo minha casa, me afastando dos meus pais, me isolando de todo mundo, estava no chão, não conseguia encontrar meus erros, não dormia a noite, ficava sozinha maior parte do tempo (quando estava em casa). E tudo que tinha verdadeiramente era uma amiga que nunca me deixou mesmo sabendo que eu escondia coisas, um diário de verdades sinceras e mentiras inventadas na expectativa de formar um mundo perfeito, e um garoto que me entendia mesmo não sabendo o que eu pensava. No meio daquela confusão uma coisa parecia ser boa, “você podia vir aqui em casa ver um filme”. Não pensei duas vezes… acho que não pensei nem uma.
Costumo imaginar que se naquela noite tivesse sonhado com o que me tornaria 7 ou 8 meses depois, eu nunca mais falaria com ele, mas acredito que somos responsáveis (direta ou indiretamente) por tudo que nos acontece. Por mais que não tenha visto nem 20 minutos do filme, ainda me lembro que era terror. Começamos normalmente, no escuro do quarto, lendo legendas, rindo um pouco, celulares desligados, eu esperava por ele, ele sabia, e não me fez esperar muito. Acho que a partir daqui deixo a critério da imaginação de cada um, não quero remexer mais em lembranças que me machucam, a pouco tive que parar, estomago fraco, vomitei tudo que tinha comido, meu corpo está se destruindo junto com a minha mente. Paramos quando o filme acabou, voltei pra casa, e sabia que iam ter outras vezes, percebi que foi diferente, sempre fui muito sensível a atenta aos sentimentos dos outros, me importo mais com eles do que comigo. Nos dias seguintes conversamos normalmente, como um regresso eu volto a ficar com Rafael, ele chega a me trazer casa um dia, depois de eu ter bebido novamente. Eu estava confusa, não me reconhecia, nunca tinha feito aquilo, não queria mentir mais. Depois de dois dias volto a ficar com o outro, era uma certeza, era ele quem eu queria. Explico para Rafael o possível, ele me persegue por 3 semanas, desiste rápido. Terceira vez que ficamos, ele me pede em namoro, como dizer não?! Chego da escola cansada e feliz. “Quero conversar com você vagabunda” meu coração dispara, é meu pai, ele tinha lido as mensagens. Me desculpe, eu nunca quis ser tua vergonha. Brigamos mais uma vez. “Não é nada sério”, minto no outro dia, sentia medo e raiva, muita raiva, conto pra minha amiga o que aconteceu mas não falo o que sentia, eu começava a mudar de novo, uma mistura angustiante de medo, raiva, dor e incompreensão. Sempre achava uma desculpa pros meus erros, mas guardar o que sentia me sufocava. Em casa passava o dia no quarto, evitava todo mundo, minha mãe sugere um psicólogo “NÃO SOU DOENTE” grito. “Não te reconheço” ela fala com lagrimas nos olhos. Quero chorar, mas não consigo.
Vou pra casa dele, é um péssimo dia pra mim, quase não pensava e me entrego por completo, eu confiava nele, acho que ele também confiava em mim. Tinha pedido pra eu parar de beber, eu menti, ele acreditou. Eu menti pra todo mundo, nem sei por que ainda estou aqui. Reunião na escola, minhas notas tinha abaixado, passaram de 10 a 7, eu não conseguia me concentrar, não dormia quase nada, pensava demais e tinha dores de cabeça terríveis. E perdi a conta das vezes que quis desistir e voltar a ser como antes, só então me atingi a ideia de que não tinha como eu ser como antes, as pessoas tinham se afastado, eu tinha me afastado e achei que não deveria desistir depois de ter…. com ele. Enfim, eu gostava dele, isso me fazia continuar, mas em casa era insuportável, comecei a fugir a noite, as vezes sem destino, caminhava por horas, rumo a lugar nenhum, não havia cansaço, não havia sono, não havia nada além de imagens retorcidas de passado, presente e futuro. Outras vezes ia até a casa dele, falávamos sobre tudo e sobre nada, ou não falávamos… entravamos em ritmo perfeito, pensamento e corpos, aumentava a cada dia, e me angustiava por que estava enfrentando e desestabilizando minha família por uma pessoa que conhecia a alguns meses…
Estava nublado, tínhamos colocado um colchão na sala vazia e velas em todo o lugar, não havia pressa, só olhares, suspiros e declarações, a chuva abafava o barulho que fazemos, dormimos abraçados, corpos nus e suados, dormimos de mais. Um telefonema de madrugada, o susto: era meu pai. Ele quer ir pra casa comigo, eu falo que não… quero chorar mas mantenho a calma. Minha mãe me liga, peço perdão, ela parece tão destruída quanto eu. Na esquina da minha casa ele me beija na testa, “Estou com medo” falo, “Vai ficar tudo bem, eu te amo”. Mas adivinhe: não ficou. Foi depois daquilo que os cortes começaram. Eram só arranhões, “Tenho autocontrole e vou parar quando quiser”, outro engano garota burra. Meus pais não tinham certeza de onde eu estava nem se estava com alguém. As frases daquela noite me perseguem até hoje… “Por que você fez isso? O que a gente fez pra merecer isso?” (NADA) “Você quer matar sua mãe?” (DESCULPA) “Você só faz burrada” (EU SEI) “O que você se tornou?” (UMA VADIA) “Sua mãe tá passando mal, e a culpa é sua!” (POR FAVOR… PAREM) “Será que alguém tem que morrer pra você parar com essas loucuras?” (…) “Fica ai chorando agora, por que não pensou no exemplo que deu pros seus irmãos?” (EU SOU UMA MERDA).
Aonde quer que eu fosse, tinha a impressão de que todos me condenavam, não suportava sair de casa, então me tranquei o máximo possível. Não queria ir à escola, nunca em toda minha vida tinha me sentido tão suja, tão idiota e desprezível, me cortava cada vez mais, já não respondia meus pais, mal falava com eles “não tenho esse direito” pensava, quando eu errava em qualquer coisa mínima eles despejavam em cima de mim todo tipo de palavras que pudessem me ferir, e sinceramente, eu os entendo. Sempre soube o quanto havia os decepcionado, eles projetaram no meu futuro os sonhos mais bonitos, tudo que qualquer pais espera de seus filhos e eu parecia querer o contrário, parecia não ter noção do que estava fazendo, era uma família quase perfeita, eu sou o único defeito. Fui a filha perfeita por muito tempo, agora não sei o que sou, ninguém, sabe. Eram dias escuros e noites em claro, hoje ainda são, mas naquele tempo era pior, ia mal na escola, ia mal com “amigos”, em casa era um inferno, não comia quase nada, não queria falar, nunca falei o que senti naqueles dias, as vezes parece impossível descrever, era algo tão vazio, e tão repleto de sentimentos ruins, era muita raiva, não dos outros, raiva de mim, raiva e nojo, medo do que viria a seguir, tristeza profunda, uma dor horrível que eu tentava afogar em sangue, e todas as noites antes de dormir desejei não acordar. “Drama” diziam, vejamos
Família – péssimo
Saúde – Corporal debilitada, inicio de depressão, automutilação, traços de síndrome do pânico (não conseguia sair de casa), arritmia cardíaca causada por autos níveis de estresse e ansiedade, dor de cabeça causada por noites de insônia, dificuldade enorme em conversar com qualquer pessoa sobre o que sentia (sinto).
Escola – Horas fora da sala, totalmente aérea, algumas reclamações (nada que se comparasse ao ano seguinte)
Amigos – Só uma
As coisas não estavam muito bem, mas não tinha como eles adivinharem, eles me amam, se preocupam comigo e querem o melhor pra mim, e eu os amo tanto que cada vez que lembrava de tudo me sentia um lixo maior ainda, e ainda me sinto assim. Às vezes eu dava um jeito de o encontrar. Saia na rua de jaqueta e cabeça baixa só pra matar a saudade, e cada vez que ele me abraçava eu sentia que não estava tão só quanto parecia. Algumas vezes desconfiei que ele me traia, mas não queria saber a verdade, eu tinha medo.
O tempo passou, e com as férias meus pais resolveram viajar, queria sair um pouco da loucura que eu tinha começado, espairecer. Eu não queria ir. Não queria sair, ou conhecer gente nova, ou qualquer coisa do tipo, mas não era um escolha, então coloquei o melhor sorriso no rosto e fingi que estava tudo bem. Fiz amigos, um deles verdadeiro, que me ajuda mais do que qualquer outro apesar da distância. E disse que era solteira. Eu queria esquecer o que estava acontecendo na minha vida por pelo menos alguns dias. Fui embora com o coração apertado.
As coisas não haviam desaparecido quando voltei, tudo aqui era pesado e vazio e esperava por mim. Mais tempo em casa, cabeça a mil, cansaço. Com a morte do meu tio me ofereci para sair de casa, foi um mês, um lugar em luto era perfeito pra eu decidir o que fazer, e eu escolhi errado. De novo. Falei com meus pais que tinha terminado, eu não confiava em mais ninguém, nem em mim. Ainda tinha a plena certeza de que o amava e realmente pensei que íamos passar por tudo aquilo. Eu já conseguia sair de casa as vezes, mas os cortes continuavam, não sei como parar, não tenho controle.
Foram dois meses de paz.
Uma coisa de quem eu era tinha sobrevivido depois de tudo: o diário. Um caderno antigo, dentro de uma caixa de madeira, com um cadeado forte. Eu tinha que falar, tinha que contar sobre ele pra alguém, então escrevi, tudo da forma mais real possível. Lembro que naquela noite dormi como não fazia a tempos. Como um imprevisto armado tive que voltar pra casa da minha tia, foram três semanas isolada do mundo, sabia que tinha algo errado quando não recebi nenhuma ligação da minha mãe. A espera era horrível, os cortes tinham cicatrizado, mas eu sentia um desespero, como um pressentimento.
Na noite anterior à minha volta pra casa minha tia me chama pra conversar. Lembro de algumas coisas, ela disse que era muito difícil falar comigo por que eu mantia uma distância enorme entre todo mundo, disse que todos percebia que eu não estava bem, tinha mudado muito, e ela queria me avisar que meus pais descobriram coisas, e quando eles falassem comigo eu tentasse colaborar e não lutar contra aquilo. Começo a me sentir angustiada… sempre que escrevo penso na reação de quem lê, se vão rir ou sentir pena, não gosto das opções, prefiro não contar.
Depois que ela saiu chegou visita, me encho de coragem, respiro fundo. Eram duas mulheres, eu não as conhecia. Dou boa noite e vou para a cozinha, não queria conversar. Fiquei pouco tempo só, ouvia elas conversando, algo sobre casas e revistas. A garota parecia ter 15 ou 16 anos, veio me pedir água, era bonita. Reparou em mim e perguntou se eu estava bem (estava tão na cara assim?) perguntou de onde eu era, respondi, quis socializar, perguntei se ela conhecia alguém lá, “conheço sim, ontem estava lá, na casa de um amigo…” “amigo?! – brinquei – será que ele não deu em cima de você?” ela riu sem graça, não respondeu, “ah! – insisto – você é muito bonita, sim ou não?!”, “ sim… não sei se você conhece ele, I.V. mas ele é sempre assim…” eu não podia acreditar, ela tinha falado o nome dele, se foi coragem não sei… “Não conheço – respondi – acho que vou dormir… boa noite”
Tinha que ser mentira, podia ser coisa da minha tia, ouvi a conversa pelo resto da noite até a hora que ela foi embora, eu não podia acreditar. Procurei algo pra me cortar, não achei, tomei um calmante, chorei até dormir. Acordei muito tarde, não comi, vomitei tudo que restava, eu tinha febre, e tinha um coração partido. Fui embora, não sentia nada, parecia dopada por um choque de realidade, parecia que tudo que ele tinha me dito era mentira, cada vez que ele disse ser só meu, cada vez que colocou as mãos em meu corpo, cada vez que disse que me amava era mentira, e eu lutava por uma mentira, eu mudei por uma mentira, briguei com minha família e perdi toda a confiança dos meus pais por uma mentira. Me sentia um nada, de repente vi a dimensão do problema, e um filme com tudo que tinha acontecido passou pela minha mente. Eu nunca mais ia poder recuperar o que tinha perdido, não ia voltar atrás com as coisas que disse para os meus pais, não ia poder mudar a visão das pessoas sobre mim, não ia mostrar aos meus professores e aos pais das minhas amigas que eu era confiável e correta por que eu não era. Não ia recuperar meu corpo por que tenho cicatrizes que estarão nele eternamente, e no dia em que eu finalmente conhecer um cara legal, como vou explicar pra ele o que são todas essas cicatrizes? Como vou contar essa história pra alguém se quando eu leio tudo me sinto uma puta que se entregou pra um cara depois de umas palavras bonitinhas, uma idiota que quase destrói sua vida por causa de um romance que não ia dar em nada! Onde estava meu lado racional? Foi o dia mais longo da minha vida até agora.
Quando cheguei em casa queria pedir desculpas, ia abraçar minha mãe e pedir perdão, eu estava destruída, não sabia de onde tirar forças. Quando cheguei até ela a vi virar o rosto, ela ia chorar, tentei lembrar o que tinha feito. Corri ao quarto. O cadeado estava quebrado, as últimas páginas tinham sido arrancadas. Caí de joelhos. Eu tinha veneno, peguei, corri ao banheiro, com lâminas e o fim nas mãos. Eu me sentia humilhada, exposta, era como estar nua na frente de milhares de pessoas, eles leram tudo aquilo, eu só queria esquecer! Eu só queria ficar em paz, eu queria tudo aquilo longe de mim, e cada vez que eu olhasse na cara deles saberia que tinha lido aquilo, e eu não ia suportar. Tirei toda a roupa e me cortei como nunca, nas pernas não haviam mais espaços, vi o chão banhado em sangue e pela primeira vez aquilo não me aliviou. Eu queria gritar, queria gritar que saíssem, que me deixassem sozinha por que doía muito e eu não via esperança, eu não via amor algum, não via nada, estava morta, meu coração já não batia pra mim, a febre, os cortes, o sangue. Liguei o chuveiro, o cheio de sangue me deixava nauseada, queria vomitar, mas não tinha mais nada. Eles conversavam comigo calmamente, queriam denuncia-lo, eu só queria esquecer! Por que não me deixavam fazer aquilo? Não tinha noção de horas, não queria que me vissem, eu tinha muita vergonha. Eram cerca de 3 horas quando o concelho tutelar chegou acompanhado de uma psicóloga. Eu sentia muito frio, a calça apertava meus ferimentos mas eu não sentia dor. Joguei a lamina no lixo, eram 4 comprimidos, eu não podia ter o azar de ficar viva. Eu não respondia, acharam que eu tinha desmaiado, arrombaram a porta no momento em que coloquei os comprimidos na boca.
Me fizeram cuspir.
Não sei por que ainda estou aqui. Tão cansada, tão sozinha, tão vazia. Parei de ir a psicólogos, não podiam pagar alguém pra me ouvir se eu não quisesse falar. Pelo resto do ano tive que vê-lo todos os dias. Eu terminei, ele insistiu, emagreci de 4 a 5 quilos, não falei pra ele o que descobri, não contei o que aconteceu o quando cheguei em casa pra ninguém, vocês são os primeiros a saber de tudo isso, nunca falei dos calmantes, nem que meu pai ia me colocar em uma escola bem distante só pra eu não ter que ver ele, nem que eu havia pedido isso por que cada vez que eu o via algo se partia aqui dentro, não contei que só chorei duas vezes depois do episódio do banheiro: uma quanto terminei com ele, outra quando no beijamos pela última vez. Me lembro de chorar ajoelhada no chão frio por horas pedindo perdão a Deus e implorando que ele amenizasse aquela dor insuportável. Fiquei com quatro caras no mês seguinte a separação, eu tentava preencher o vazio que ele havia deixado, mas não funcionava, só me deixava pior, uma semana depois ele entra em outro relacionamento sério, eu já nem sabia o que pensar. Espaços pra cortes quase não haviam, nas coxas cicatrizes antigas ainda me machucavam como as novas. Depois dos quatro caras voltei a me trancar em casa. Nunca saia, não havia motivo, só havia dor, medo, vergonha. Na escola não queria ficar na sala, saia pra conversar com alguém, pra me distrair por que minha mente me torturava. Me afastei de amigas de infância e fiz uma nova que nunca me perguntou sobre nada. Estabeleci algumas regras, ajudar as pessoas sem julgar os motivos, não falar dos outros por que eu não os conheço, não parecer triste quando estiver em público, nunca falar o que sinto, sentimentos machucam.
A confiança dos meus pais eu perdi. Não costumo falar o que sinto nunca por que me machuca ver a verdade, me machuca ver que ele superou e eu continuo aqui. Não é ele que tem que fazer um esforço enorme pra provar pra própria família que não está mentindo. Não é ele que não consegue ter qualquer relacionamento por medo. Não quero me aproximar de alguém ou deixar que se aproximem de mim por que me traz lembranças que eu só queria apagar. Não tenho sangue frio pra responder a alguém perguntas relacionadas a mim, sou muito evasiva. Não consigo aceitar meus erros, quando erro revivo aquele inferno, ou parte dele. Não tentei suicídio de novo, sinceramente não sei por que. No último mês tenho saído um pouco de casa, quando saio ainda tenho a impressão de que as pessoas me olham como “a garota que fugiu de casa pra ver o namorado”, sinto que enxergam todos meus erros, sinto que vão me julgar pelo que fiz, que sabem demais e que não deviam saber, ou qualquer coisa parecida. Então tenho vontade de voltar pro conforto solitário desse quarto, pra magia dos meus livros, pra compreensão das minhas músicas. As vezes invento desculpas pra não sair, mas tento vencer isto. A depressão é uma sombra que me esconde as vezes, mas estou aprendendo a lutar contra isso. Arritmia (ansiedade/nervosismo) continua. Insônia é o preço que pago por todas as palavras guardadas, dores de cabeça são consequências. Os cortes, como na maioria dos casos são mais e cada vez mais fundos, com uma lamina nas mãos me castigo pelos meus erros, por que me sinto culpada, diminuo a dor que existe aqui dentro, dor de se incompreendida, de ter perdido a confiança da minha família por um história de amor que acabou me reduzindo a nada.
No ano passado foram duas recuperações, passei com muitas reclamações na escola e em casa, esse ano não tenho tido problemas ainda, minhas notas estão visivelmente melhores. A relação com a minha mãe é boa, com o meu pai regular. Quase não falo com ele, evito muitas brigas, mas não falar está me sufocando.
No fim das contas sou só uma menina que devia ter falado no início, mas achou que conseguiria sozinha, que dá concelhos e nunca os segue. Não sou tão fria quanto pareço, só acho que esconder meus sentimentos é mais fácil que explica-los. Ultimamente qualquer coisa me atinge, qualquer coisa é motivo pra eu chorar, querer passar o dia no quarto e me cortar. Consultas psicológicas só online, é quase impossível falar sobre minha vida ou sobre o que sinto com alguém cara a cara. Alguns dias queria ajuda, tem sido tão fácil me decifrar… outras só queria desistir de uma vez. Costumo dormir o dia todo pra não ter que falar com as pessoas, sabe como é, dormir pra dor ir…

