Meus pais se separaram quando eu tinha 4 anos e desde então eu moro com o meu pai, hoje eu estou com 19 anos, lembro do dia em que minha mãe foi embora, meus pais estavam falando alto no quarto, eles já estavam assim a um bom tempo, não era a primeira vez que eu ouvia eles discutindo, dessa vez estavam realmente falando alto, minha mãe principalmente, entrei no quarto e ela estava jogando as roupas dela pelo quarto, revirando as gavetas, assim que me viu entrar no quarto ela disse que estava indo embora, que aquela casa não pertencia a ela e que iria ficar um tempo longe, eu não entendi direito porquê ela estava fazendo aquilo, lembro de ter chorado muito, acho que qualquer criança normal teria feito o mesmo, eu insisti, implorei para ela não ir embora, para não me deixar, ela me deu um tapa forte no braço e me jogou no chão mandando eu parar com aquilo, meu pai me pegou no colo e me acalmou, brigou com ela por ela ter me batido e saiu do quarto, ficou comigo sentado na sala me acalmando, sempre fui mais agarrado com ele, ele conseguiu me deixar calmo contando histórias da infância dele pra mim, ele sempre gostou de contar coisas que ele fazia quando era criança, sempre que me via triste ele fazia isso, ela arrumou as roupas dela em mochilas e malas e foi embora. Em 2001 eu tinha 4 anos e vi minha mãe indo embora de casa, mais tarde meu pai me contou o motivo, ela tinha traído ele, tinha ido morar com esse outro homem, foi um ano muito difícil para mim, eu nunca tinha ficado longe da minha mãe, meu pai também sofreu bastante, por mais que parecesse estar forte perto de mim eu sabia que ele também estava sofrendo, afinal eles ficaram casados por 18 anos, meu pai sacrificou muitas coisas para poder cuidar de mim, ele teve que largar o emprego que tinha, e mesmo assim nunca me deixou passar fome, eu nunca vi ele reclamar de como as coisas estavam difíceis, ele sempre fazia brincadeiras comigo, eu tinha muitos brinquedos e sempre que eu chegava em casa eles estavam espalhados pela casa como se tivessem vida e se moviam quando a casa estava vazia, ele sabia que aquilo me fazia rir e fazia questão de todo dia espalhar eles pela casa. Em 2002 minha mãe termina com esse homem que ela tinha conhecido e passa a morar com a mãe dela, meu pai me disse isso quando eu estava saindo da escola, eu me animei na hora pois fiquei um ano sem ver ela, sem pensar 2 vezes ele me levou na casa da minha avó, minha avó atende e diz que minha mãe não estava se sentindo muito bem e que não queria me ver aquele dia, ela começa a chorar dizendo que sente muito e que tentaria falar com a minha mãe sobre isso, e nada adiantou, os meses foram passando e cada vez ela me dava uma desculpa diferente, até que um dia eu ligo pra casa dela e quem atende é minha mãe, eu digo que senti saudades, que quero ver ela, dar um abraço nela, ela diz que está trabalhando muito e que não daria para me ver agora, só quando conseguisse alguma folga, ou em algum feriado, depois de muito insistir ela aceita me ver em um domingo, meu pai me leva até a casa da minha avó para eu passar o dia com elas, resumindo, quem falou mais comigo foi minha avó, minha mãe só perguntou como eu estava indo na escola e como meu pai estava, passei o resto do dia com minha avó, ela me disse que minha mãe está bem e que tem saído com um outro cara. E foi assim por mais uns bons meses, eu via ela poucas vezes, ela sempre dizia estar ocupada, sempre saindo muito de casa, sempre com muito trabalho. Em 2003 eu tinha 6 anos e meu pai começou a namorar com uma mulher muito bonita, no começo eu fiquei com um pouco de ciúmes, mas logo passou, nos saímos juntos, ela sempre foi agradável comigo, perguntando se eu estava me dando bem na escola, como estavam as matérias, passei a gostar dela bem rápido, em 2004 meu pai me diz que ela iria vir morar conosco, eu aceitei numa boa, afinal ela já ia muitas vezes lá em casa, já estava acostumado com ela. Umas semanas após ela ter ido morar lá minha mãe liga e eu atendo, eu fiquei todo feliz pois já fazia um bom tempo que ela não ligava, mas ela cortou o que eu estava falando e pediu para eu passar o telefone para meu pai, eles conversaram pouco e meu pai disse que ela ficou sabendo que ele começou a namorar e que a namorada tinha ido morar com a gente, disse que era cedo demais para começar a trazer mulher para dentro de casa e coisas do tipo, meu pai nem deu atenção a isso. Os meses novamente passaram e eu não conseguia falar com a minha mãe, ela nunca estava em casa, nunca atendia o telefone, lembro de ter passado o dia todo ligando sem parar para casa da minha avó até que minha mãe atende, eu me lembro de tudo que ouvi dela:
– Meu deus você está ligando o dia todo, você não tem mais o que fazer? Pois eu tenho, eu estou ocupada agora, para de encher o saco garoto, me deixa em paz.
E daí ela desligou na minha cara, aquilo me destruiu, eu comecei a chorar no sofá, a namorada do meu pai entrou na sala e me viu chorando, sentou do meu lado e perguntou o que tinha acontecido, eu expliquei tudo a ela, falei o que minha mãe tinha me dito por telefone, ela ficou chocada com o que eu tinha escutado, ela me abraçou e me acalmou, nunca vou esquecer do que ela me disse:
– Eu sei que você sente falta da sua mãe, eu sei que você tenta muito ver ela, sei que sempre liga tentando falar com ela, eu sei que isso te deixa triste, mas olha só, eu te prometo uma coisa, você não vai mais precisar chorar por sentir falta dela, sabe porquê? Pois eu serei a sua mãe a partir de hoje.
E ela realmente foi, a partir daquele dia ela passou a me chamar de filho, passou a me buscar na escola, ela fazia tudo que uma mãe normalmente faria pelo filho, e isso fez eu me apegar ainda mais a ela, logo eu já estava a chamando de mãe.
Eu ainda ligava para minha mãe, mas não ficava triste quando ela não atendia. Depois de um tempo eu descobri que ela arrumou um outro namorado e que foi morar com ele sei lá onde.
Em 2008 eu tinha 11 anos e meu pai e a Marcela se casaram, foi uma cerimônia pequena, mas vi meu pai muito feliz, tinha um tempo que eu não via ele tão feliz assim, tudo estava indo bem, eu não falava com a minha mãe e nem tinha notícias dela desde 2006, eu ainda pensava em ligar para saber como ela está, mas depois daquela ligação que ela queria que eu a deixasse em paz eu não liguei mais. Alguns meses depois do casamento minha mãe aparece lá em casa, quando eu a vi na porta meu corpo gelou, não conseguia acreditar que era ela, a dei um abraço e falo que senti saudades, ela diz que nada sobre ter sentido saudades de mim, só pergunta se meu pai está em casa, ele não estava pois voltou a trabalhar, então sem falar muito ela foi embora, uns dias depois eu descubro que ela terminou novamente e que agora morava sozinha em uma casa que tinha comprado. Em 2010 minha avó, mãe da minha mãe morreu, meu pai me levou no velório, vi minha mãe lá, ela estava com os olhos inchados de tanto chorar, senti pena de ver ela assim, a abracei e perguntei se ela queria que eu ficasse uns dias com ela, para ela não se sentir tão triste, ela obviamente diz que não precisa, que ficaria bem sozinha. Depois daquele velório eu vi ela poucas vezes, ela sempre falava pouco e dizia que precisava ir pois estava ocupada com o trabalho, de 2010 até 2015 fiquei sem ver e sem falar com ela pois ela tinha ido morar em outro pais com outro homem que ela conheceu, não sentia mais falta dela, não pensava direito nela, afinal Marcela havia substituído ela, eu realmente me apeguei muito, nos sempre saímos juntos, vamos a cinemas juntos, no mercado, ela até hoje é muito amiga minha, uma mãe incrível, mas vezes eu queria que meu pai tivesse conhecido ela antes de ter conhecido minha mãe biológica, as coisas teriam sido mais fáceis com certeza, um belo dia ainda em 2015 minha mãe me manda uma solicitação de amizade no facebook, eu aceito mas não mando nenhuma mensagem, uns dias depois ela me manda uma mensagem perguntando se meu pai estava bem, nem quis saber como eu estava, não disse que sentiu falta, nem deu uma explicação do porquê foi embora por tanto tempo, nem perdeu tempo. Em 2016 ela volta para o Brasil, volta a morar onde morava antes de ter ido embora, eu como o idiota que sou vou visita-la, conversamos pouco, eu pergunto como era onde ela morou, ela diz que era bom mas teve que voltar pois terminou com o namorado dela, sinceramente, sinto pena dela, ela nunca conseguiu parar num relacionamento desde que terminou com o meu pai. Um tempo depois ela começou a trabalhar e as desculpas de estar ocupada voltaram, eu sempre mando mensagens perguntando como ela está, se precisa de algo, se eu posso ir ver ela, e ela nunca responde, não atende as ligações, Marcela fica com muitos ciúmes quando me vê ligando para ela.
– Eu não sei por que você ainda perde tempo com ela.
Eu a digo que só ligo para saber com ela está, que ela não precisa sentir ciúmes. Como eu disse eu me apeguei muito a Marcela e ela também se apegou muito a mim, sempre fica com ciúmes disso e eu sempre digo a ela que eu não amo minha mãe do jeito que eu a amo, o que é verdade, nos últimos anos Marcela se tornou mais importante para mim do que minha mãe biológica. Sou carinhoso com ela, todos os dias eu a beijo no rosto antes de ir estudar, digo que a amo, e ela adora isso. Enfim, ontem, dia 01/07/2017 eu resolvi novamente ir ver a minha mãe, sabia que seria um erro ir até lá e realmente foi, quando eu cheguei lá e ela abre a porta e quando me vê parece decepcionada.
– Ah, é você, é que eu estou esperando outra pessoa, diz logo o por que veio pois ele pode chegar a qualquer momento.
– Ele, ele quem? – No fundo eu sabia que “ele” era um novo namorado, mas perguntei mesmo assim.
– Um cara que eu conheci na empresa que trabalho, ele marcou de vir me buscar hoje para jantarmos.
Como eu já previa, um namorado novo.
– Ah é claro, um outro cara, espero que você não suma por anos e depois termine com ele como tem feito nos últimos 15 anos.
– Como é que é, como você fala assim com sua própria mãe garoto?
Na hora eu nem pensei, simplesmente desabafei com ela.
– Mãe, que mãe? Uma mãe que nunca dá atenção pro filho, que nunca o abraça, que não demonstra afeto nenhum, que não responde as mensagens que ele manda, não sei como você tem coragem se se chamar de mãe por que isso você não sabe ser.
– Se não sou sua mãe então some daqui, anda, vai pra casa, e me deixa em paz.
– Eu sabia que seria um erro vir te ver, sempre é, eu já cansei de tentar conversar com você, juro que não vou te atormentar mais, te garanto que não volto mais aqui.
– Então ótimo, vai embora logo.
E assim eu fiz, fui embora, pela primeira vez em todos esses anos eu senti raiva dela, tive vontade de xingar ela, mas me controlei, não iria valer a pena, agora aceitei o fato de que talvez nunca teremos um bom relacionamento, fui pra casa e nem consegui dormir pensando naquela discursão, contei pro meu pai o que aconteceu e ele me aconselhou a dar um tempo, a deixar ela de lado, que eu já sofri muito com ela, também contei pra minha outra mãe (Marcela), disse o que tinha acontecido e ela me disse a mesma coisa que meu pai disse, eu a pedi perdão por ter ido atrás da minha mãe biológica e ela entendeu os meus motivos e ficou feliz que eu tenha desabafado com ela.
Enfim, eu sei que esse relato ficou grande, é que eu quis explicar todos os acontecimentos até aqui, agradeço quem leu tudo, realmente obrigado pela atenção.
Queria saber o que vocês fariam no meu lugar, continuariam tentando uma reaproximação ou deixariam isso de lado? Eu realmente preciso da ajuda de vocês, quero muito ler as opiniões que vocês tem. Desde já muito obrigado pela atenção.

