Eu sou um fracasso. Tenho 24 anos e não conquistei na minha vida. E simplesmente estou cansada de viver. Cansada de contemplar a felicidades das pessoas à minha volta e sempre me perguntar "Quando eu vou me sentir assim?".
Sou muito solitária, desde de criança. Sempre morei com a minha mãe, meus avós e minha tia. Me sinto deslocada desde criança. Sempre gostei de coisas de meninos. Então, enquanto as minha vizinhas, colegas e parentes gostavam de bonecas, eu gostava de jogar bola, pular, me sujar… Não preciso dizer que as outras crianças não viam isso com bons olhos. Então, quando estava no fundamental, eu não gostava de sair para o intervalo. Ficava na sala o tempo todo. As vezes os professores me trancavam lá porque não podiam deixar a porta aberta e eu não queria sair.
Naquela época fiz minha primeira amizade, que vou chamar de M. O problema, que só identifiquei anos mais tarde, é M gostava que me detonar. Me chamava de "maria-homem", "mal amada" e me diminuia de várias formas. Na época era a única pessoa que queria ficar comigo, então eu minimizava as atitudes e ofensas e até dizia para mim mesma que ela não fazia por mal.
Quando cheguei no colegial, essa minha amiga acabou saindo da escola e minha solidão aumentou ainda mais. Preciso dizer que eu não era aquela pessoa que ficava no canto, sem falar com ninguém. Não, eu falava com todo mundo. Sempre fiz de tudo para ajudar meus colegas, ia bem nas aulas, tinha boas notas e fazia todas as atividades, inclusive físicas. Mas, por algum motivo que até hoje não entendo, as pessoas nunca gostam de mim, não a ponto de me chamar para sair, de sentar comigo para conversar, nem de me desejar "feliz aniversário", mesmo que virtualmente.
Bom, eu tinha ficado muito mais solitária quando M saiu. Foi um ano muito difícil e, para ajudar, comecei a ter problemas em casa. Minha tia, que sempre foi como uma irmã para mim, me xingou, me acusou de roubo e tornou minha relação com meus avós simplesmente insuportável. No entanto, por mais que minha mãe e eu quisessemos mudar de casa, não tinhamos condições financeiras para isso e não tinhamos ninguém para recorrer.
Neste momento você deve estar se perguntando pelo meu pai. Bom, minha mãe engravidou adolescente e foi morar com meu pai por um breve período. Contudo, a relação dele com o crime fez com que minha mãe se afastasse dele e o afastasse de mim, voltando a morar com meus avós. No entanto, descobri com uns 4 ou 5 anos que ele morava na mesma rua que eu, algumas casas abaixo, era casado e tinha dois filhos. Até hoje carrego uma grande questão na minha mente e no meu coração: por quê? Por que ele morava tão perto e nunca teve, no mínimo, uma curiosidade de me conhecer? Eu não valhia o esforço? Infelizmente nunca encontrarei uma resposta para essa pergunta, pois fui informada por uma vizinha, quando voltava da escola, que meu pai havia morrido assassinado.
Com a saída de M e a péssima relação com meus avós e minha tia, comecei o colegial mais só do que nunca. Eu conversava com todos usando minha já treinada máscara social, mas por dentro nada mudava.
Foi então que minha família mudou de casa e eu, consequentemente, mudei de escola. Estava feliz novamente. Fiz grandes amizades, daquelas que você sabe que vão durar para sempre. E meus dois últimos anos na escola foram muito legais.
Em casa, o clima tinha melhorado um pouco. Eu e minha mãe ainda não conversavamos com minha tia, mas nossa relação com meus avós tinha melhorado, embora as brigas e duras palavras nunca tenham sido esquecidas.
Finalmente entrei na faculdade e estava muito empolgada. Queria que a faculdade fosse diferente da escola. Queria encontrar pessoas com quem eu me identificasse, fazer amigos. Mas estava enganada mais uma vez.
No segundo ano percebi que não gostava do curso. Permaneci sendo uma boa aluna, bem relacionada com todos. Aquela que é sempre escolhida para os trabalhos e sempre elogiada em comentárias, mas também aquela cuja falta não é notada e cuja presença é indiferente.
Tinha bolsa integral, então segui os conselhos da minha mãe e decidi que o melhor era terminar o curso. Com o diploma, eu poderia trabalhar na área e conseguir dinheiro para pagar outro curso que eu quisesse.
O fim da faculdade chegou junto com o fim do meu curso de inglês e senti como se o meu mundo tivesse desabado. Os dois únicos locais nos quais eu tinha contato com outras pessoas, se foram. Não tinha mais faculdade ou curso para ir. Eu estava sozinha novamente.
Não conseguia dormir, não conseguia sair da cama, chorava o dia inteiro. Entrei em uma profunda depressão que dura até hoje. Na época contei para minha mãe e fui procurar ajuda profissional. O tipo de tratamento fornecido por uma das clínicas psicológicas não me agradou e eu encerrei a terapia. Mas iniciei um tratamento com um psiquiatra, que também dura até hoje.
Após alguns meses de tratamento, me escrevi em um curso técnico em outra área. No começo foi difícil encontrar forças para ir, mas o curso e as amizades que fiz começaram a me motivar mais a cada dia. Ah, falando em amizades, sabe aqueles amigos que fiz no colegial e na faculdade? Nunca mais encontrei! Por mais que tentasse marcar encontros, isso nunca deu certo. Então eu simplesmente desisti de tentar.
Caso esteja se perguntando, a situação na minha casa piorou de vez. Agredi minha tia, que um dia considerei como minha irmã, por não conseguir ouvir calada insutos contra a minha mãe. Com isso, as únicas palavras que eu dizia em casa eram "oi" e "tchau".
Para compensar um pouco, nesse novo curso me apaixonei, Com 23 anos, dei meu primeiro beijo. Sim, eu sei que é difícil de acreditar, mas é verdade. Sei que as pessoas costumam dar seu primeiro beijo com uns 10 anos, mas comigo não aconteceu assim. Entre uma paixonite adolescente e um amor platônico, nunca encontrei ninguém que eu realmente gostasse. Então estava feliz que isso finalmente tivesse acontecido. O problema é que era uma pessoa do mesmo sexo que eu. Isso gerou um grande conflito interno e brigas com a minha mãe. Sem apoio da minha mãe e independência financeira, meu namoro era construído de conversas no Whatsapp e de encontros semanais ou quinzenais.
Desde o começo fui muito clara que as coisas seriam difíceis e que, no começo, era tudo o que eu poderia oferecer. Ela aceitou, pois também era a primeira vez que ela se apaixonara.
Quatro meses depois de ela ter dito que me amava, eu terminei o relacionamento por infidelidade. Ela estava com problemas pessoais, foi em uma festa e bebeu demais. Então, ela me traiu. E foi isso o que me fez escrever tudo isso. Quer dizer, não foi o único motivo. Eu conseguia sentir… na verdade, eu achei que se esticasse meus braços eu finalmente alcançaria a felicidade. E o me deixa mais irritada, é ter acreditado, mesmo que por um momento, que eu poderia realmente ser feliz.
Mas aqui estou eu. Deitada no chão da sala, escrevendo minha história para estaranhos porque não tenho nenhuma pessoal na minha vida com quem eu possa me abrir. Por melhor que seja minha relação com a minha mãe, ela deixou claro seu posicionamento, então é um assunto que eu não levarei até ela. Então, neste momento, eu não tenho ninguém. Eu não sou ninguém. Não tenho trabalho, não tenho nada. Vou mal em todas as minhas entrevistas de emprego e isso só me faz afundar mais. Tenho 24 anos realizei nada na minha vida. E o que me deixa mais furiosa é que eu me permiti gostar de alguém. Eu me permiti reabrir meu coração, após anos e anos de conflito e solidão, porque realmente achei que ela me amasse, que alguém podia me amar. E eu estou tão cansada das coisas sempre darem errado na minha vida. Estou cansada de ser um fardo que a minha mãe tem que carregar. Estou cansada de ser assim, de me sentir assim…eu…eu só queria ser feliz. Mas eu acho que Deus deve ter outros planos para mim. E no momento, tudo o que eu posso fazer, é chorar. Sozinha.

