Percebi que não sou ninguém especial. Sou uma péssima esposa, uma péssima amiga, péssima colega de trabalho e uma péssima filha. Percebi que a única coisa que sinto de mais latente é inveja. Inveja de como meus amigos de infância estão bem sucedidos. De como podem comprar carros e terem filhos. Eu não posso ter filhos. Não pensem que sou ingrata. Pelo contrário, sou tão grata que nem sei mereço tudo o que tenho: um bom marido, um teto sob minha cabeça, comida em minha geladeira, um trabalho no qual me formei, uma boa educação. Só acho que tudo isso deveria ser para outra pessoa, não para mim. A única coisa que sei fazer é decepcionar quem eu mais amo. Eu sou a minha pior inimiga. Toda hora eu ouço: você é uma gorda preguiçosa que não sabe o que aproveitar o que a vida tem pra te oferecer, por isso que você é uma baita medrosa. É por isso que você sente inveja, pois os outros são muito mais corajosos que você, sua baleia covarde. E por fora, eu abro um largo sorriso e digo que estou bem.

