Eu confesso que não consigo imaginar vivendo sem querer me suicidar.
É mais fácil esconder do que contar para alguém- não consigo falar isso para mim mesma mesmo na calada da noite. Meus amigos não fazem a menor ideia, e meus pais ririam se eu falasse sobre isso.
Começou quando eu era bem mais nova, quando me mudei para um colégio novo. Como sempre acontece com alguém como eu (mirradinha, óculos de grau, cabelo volumoso e timidez infinita) eu fui vítima de bullying por seis anos. Era sutil: um olhar aqui, um risinho aqui, um segredo meu contado aos ventos… as vezes eu exagero para que alguém realmente venha perguntar se melhorei.
Bem, se eu estou aqui, obviamente não melhorei.
Foi nesse tempo que eu comecei a ler e escrever. Eu criei personagens exatamente contrários a mim- corajosos, felizes, inteligentes e, o mais importante de tudo, populares.
Teve um dia que uma amiga minha me deixou para ser “popular” e eu fiquei sem nenhum amigo, por que ela virou os outros contra mim. Leu uma lista minha no meio da sala (as garotas que me zoavam eram DONAS do colégio) e todos apontaram para mim, rindo e virando a cara.
Mudei para outro colégio alguns anos depois, porque perdera o ano (ex-namorado que era galinha e mais novo, só queria poder fingir ser o pegador de meninas mais velhas). Nesse outro colégio, fiz uma amiga que era diferente de mim, completamente. Ela achava que bullying era pra fracos, que eu era meio patética por ter perdido um ano.
Fiquei com ela porque não sabia o que era amizade verdadeira, e ela era até legal comigo quando não condescendente.
Fiquei de recuperação, não contei para meus pais. Eles descobriram, me chamaram de vagabunda e inútil. Foi a primeira vez que me cortei.
A gilete, logo decidi, era muito mais eficiente que meu canivete. Cortei meu tornozelo, porque todos veriam se eu cortasse meu pulso. Eu sabia que era errado, que eu não devia fazer aquilo, mas dava um alívio tão grande; como se eu fosse pelo menos forte o suficiente para me mutilar.
Não parei. Esse ano, já me cortei duas vezes, dois meses atrás. Não sou mais amiga daquela garota, porque ela conseguiu me fazer chorar- e não importa o que aconteça, eu nunca choro.
Meus pais estão querendo o divórcio desde que eu me conheço por gente, mas meu pai não tem dinheiro o suficiente para se bancar sozinho. Eu atuo como a mediadora entre eles e meu irmão mais novo, tentando não deixar que eles o traumatizem como fizeram comigo. Não acredito em amor, porque sejamos sinceros, a ideia de que alguém amaria tudo em você, até as falhas gritantes que eu sei que tenho, é ridícula.
Não é tão ruim a minha situação, para falar a verdade. Eu consigo sorrir, brincar, assistir TV e me divertir muito bem, mas sempre há aquele momento quando você chega do shopping ou seus amigos vão embora, em que você sente um vazio e ninguém está lá para te abraçar. Eu me corto por causa disso, porque pelo menos a dor sempre estará comigo.

