Eu confesso que vivo sempre triste e desmotivada para tudo, e que a depressão é uma constante, e também a única companheira que eu tenho. Já faz vinte e sete anos que eu convivo com isto.
Passei toda a vida entrando e saindo de consultórios de psiquiatria e sessões com psicólogos, sendo rotulada como louca, retardada, doente mental, anti social. Eu também era chamada de mimada, ingrata com a vida, ingrata com deus, fresca, fraca, frouxa, pessoa que sente pena de si mesma, pessoa que quer sempre ser a vitima, ou se fazer de e etc.
Infelizmente, nada nem ninguém me preenche, nem me alegra de fato. Já fiz cursos, aula de línguas, esportes, danças, mas o resultado é sempre o mesmo, pois parece que eu não estou em lugar nenhum, que eu não pertenço a nada. Também sou muito incompreendida pelas pessoas, que, em sua maioria só abrem a boca para dizer: "como é fácil reclamar da vida, debaixo de um teto quentinho e com um prato de comida à mesa. As crianças da África não tem nada disso." E daí? O sofrimento dos outros não alivia em nada o meu, por isto eu ODEIO que façam comparação de problemas,"o problema do fulano é pior, o problema do beltrano é maior." Eu não quero ser alguém que precisa desesperadamente que os outros estejam piores para eu não me sentir tão mal.
Sim, eu já agradeço a deus por ter todas essas coisas, o problema é que esta condição está matando minha vida pouco a pouco, esteja eu bem alimentada ou não, com moradia ou não. É como se eu fosse obrigada a criar a minha felicidade em função de bens materiais, ou como se a felicidade estivesse atrelada a isso, e, eu digo: não exatamente. Se fosse assim, não existiriam ricos infelizes e fiéis consumidores de bebidas e barbitúricos; nem pobres e miseráveis que muitas das vezes só tem o chão das ruas como cama, mas têm sempre um sorriso no rosto e se sentem afortunados apesar de todas as coisas más em suas vidas.
Infelizmente tal condição atinge todas as classes sociais, e não respeita nem faixa etária, uma vez que sabemos que até as crianças podem cair nesse estado mórbido. Eu estou cansada de tudo, de ouvir tantos conselhos, fazer tantas correntes de oração, novenas, tomas de passes, exorcismos, remédios, terapias, simpatias, banhos de ervas e rituais diversos, e também de ouvir palavras como: "é você que tem que querer, é você que tem que tomar uma atitude, orar mais, se agarrar a deus, ler a bíblia. Compre um cachorro, vá para a faculdade, faça viagens, tenha amigos, converse com as pessoas, vá ao psicólogo" e blá, blá, blá…Psicólogo te cobra uma nota preta para passar toda sessão te chamando de doente mental, e a conversa fica toda em torno disso, ou vai me mandar conviver em paz e harmonia com algo que está destruindo toda minha alegria em estar viva e sugando até a energia e a disposição física do meu corpo, ao ponto de eu nem conseguir cuidar de mim, pois só sinto esmorecimento todo tempo. E a conversa jamais evolui e eu saio de lá frustrada e pior do que já estou.
Como se eu não tivesse feito DE TUDO para sair desta maldita situação. E tem gente ainda que se atreve a me dizer que tudo o que passo é cruz; provação; carma; destino; fase; que é a vida; preguiça e má vontade; acerto de contas com as forças superiores que regem o universo; ou única e simplesmente a vontade e o querer de deus para minha vida.
Eu até me acostumei a viver assim, a andar pelas ruas como um zumbi, sem vontade de nada, sem nenhum prazer, porque nada me satisfaz.
Já até falei para deus que, se eu não ficasse realmente curada para cuidar de mim no futuro, para eu ter ao menos a esperança de um futuro, sem ter que me arrastar para viver, que eu lhe pediria minha última remessa de perdão por todos os meus pecados e eu lhe entregaria minha alma e ele me recolheria deste mundo. Sem mais.

